3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Claudionor Aparecido Ritondale (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Claudionor Aparecido Ritondale nasceu em São Paulo, no dia 21 de fevereiro de 1957.
Escritor premiado, Mestre em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sócio da União Brasileira de Escritores.
Tem livros publicados nos mais diversos assuntos, tanto ficcionais (em vários gêneros, em prosa, poesia e teatro) como não ficcionais, além de livros traduzidos.
Além de ser escritor, Claudionor é revisor de textos, palestrante e tradutor em diferentes idiomas (inglês, italiano, espanhol e francês). Também já escreveu prefácios e apresentações a livros de outros escritores. É músico amador e faz transcrições e interpretação de italiano.
Página no Instagram: @ClaudionorRitondale
Todas as suas obras podem ser encontradas em: http://clubedeautores.com.br/search?qt=&qa=Ritondale&q=&commit=Buscar
O TEXTO:
A cochonilha
Voltei para vender a chácara de meu pai numa quinta-feira sem vento. A casa dormia há anos no seu sossego úmido; as laranjeiras, esbranquiçadas de cochonilhas, lembravam o descuido com que envelhecem as promessas. Ao pisar o terreiro, senti o tapete espesso da folhagem abafar meus passos — como se a terra, de tão acostumada à nossa voz, recusasse testemunhar qualquer coisa nova.
Encontrei o Bento, filho da antiga caseira, rondando o poço. Tinha uns nove anos, a cara estreita, os olhos afiados de quem aprende cedo a ouvir sem ser visto.
— A senhora sua mãe? — perguntei.
— Foi pra cidade. Eu fico.
Dei-lhe moedas para varrer o alpendre e arejar os quartos. A casa abriu a boca, engoliu o ar quente e me devolveu, da cozinha, o cheiro rançoso de toucinho. Jaziam ali, numa prateleira, as taças de vidro baço do casamento de meus pais; toquei uma delas, e a poeira me sujou os dedos como a tinta de um documento triste.
À tarde, apareceu a vizinha do fundo, dona Zulmira, com um frasco de mel.
— Do Teyú Cuaré não é, mas apura a vista — disse, rindo dos próprios dentes gastos. — O sítio precisa de sangue novo.
Sangue novo. Pousou o mel sobre a mesa e me olhou como se eu trouxesse na testa um anúncio: VENDE-SE O PASSADO. Agradeci; não disse nada. O tempo ensina a calar — e a calar de modo bonito.
Na noite seguinte, uma carta apareceu pregada, com espinho de laranjeira, no tronco da figueira: “Quem esquece a casa morre de sede mesmo bebendo água.” Não sou homem de sustos gratuitos; ainda assim, fiquei um minuto lendo aquela linha até decorar o ritmo da ameaça. Arranquei o papel, amassei-o, joguei no lixo com métrica de escrivão. Bento me espionava do vão da porta.
— Foi a senhora do fundo? — ele arriscou. — Ela fala sozinha no quintal. Às vezes, chora.
— Não é da nossa conta. Vai dormir!
Na madrugada, acordei com chuva sem barulho. Fui ao quarto do menino. Ele dormia torto, descoberto. Puxei o lençol com uma mão, e com a outra, não sei por quê, apontei como meu pai apontava para mim, gesto de repreensão em quem tem medo de perder o pouco que governa. O dedo suspenso sobre a inocência alheia é um pecado que sempre volta.
Passei o dia redigindo minutas. O comprador viria no sábado; eu precisava pôr ordem nos papéis — a partilha, os limites, a história dos eucaliptos plantados por teimosia. Enquanto alinhavava cláusulas, Bento circulava pela varanda com o mel de dona Zulmira debaixo do braço, como se carregasse um prêmio.
— Não mexe nisso! — falei. — Mel chama formiga.
— Também chama abelha.
— Abelha morde.
Ele riu do meu medo mal redigido e saiu.
No fim da tarde, nova carta na figueira: “O homem que vende a sombra perde o corpo.” Quem escrevia aquilo tinha tempo e tinta ruim. E o meu nome: “Arnaldo”. Dei um passo atrás, como quem dá passagem à própria vergonha. O único que me chamava de Arnaldo, com esse “r” duro, era meu pai.
Passei a tranca, sentei com o mel e uma faca. Escavei a superfície dourada como um arqueólogo apressado. No fundo, encontrei o nada. Fiz um sanduíche. O doce me feriu os dentes com a discrição da vingança.
Bento não voltou para o jantar.
Procurei-o pelo quintal, sob a mangueira, no paiol. Chamei seu nome com a voz de quem lê testamento. Nada. Só o raspar da chuva na telha e o suspiro da figueira, velha senhora de segredos. Encontrei-o, por fim, ao pé do muro, deitado de lado, pálido, respirando curto como se coubesse menos ar no mundo.
— O que foi, Bento? — ajoelhei.
— O peito… e uma coisa presa aqui — apontou a garganta. — Não sai.
Carreguei-o. Abri-lhe a boca, o reflexo branco da língua, o engasgo. Bati-lhe de leve nas costas, depois com força. O corpo, leve demais, era um pedido. Fui à cozinha, procurei entre as tábuas um truque, um santo, um telefone. Não havia nada de moderno naquela casa além do erro.
Dona Zulmira surgiu na porta, molhada de si mesma.
— Deus me livre! — pôs a mão na boca. — O menino!
— Abriu o frasco de mel, comeu às carreiras, agora está assim.
Ela olhou o pote que eu deixara aberto, viu a minha faca dentro, entortou a boca num cálculo.
— Tem consultório no centro. O homem dos pulmões. Mas… — fez gesto de desamparo, aquele “mas” que corta o pano ao meio.
— Vou levá-lo.
— À noite? Com esses barreiros? — olhou os meus sapatos limpos. — O senhor tropeça no próprio juízo.
Tropecei mesmo. No caminho, Bento desmaiou no meu ombro. Uma convulsão breve lhe sacudiu os braços; a cabeça caiu para trás como se devolvesse ao mundo um peso emprestado. Ainda senti a luta pequena da vida contra a propriedade do silêncio.
O médico era um homem curto, de bigode, que cheirava a eucalipto. Pôs o menino de bruços, apertou-lhe a barriga, limpou com gaze, introduziu o dedo com decisão de pai que sabe o que retira. Quando afastou a mão, trouxe um objeto rodando luz sob a lâmpada.
— Um anel — disse, lavando-o. — Aliança de ouro. Ficou presa aqui, vê? — tocou a cartilagem macia sob o queixo do menino. — Engoliu no mel. Criança pesca o que brilha. Olhou para mim e acrescentou, como quem explica a um parente aflito:
— Ele desmaiou pelo esforço, pelo pânico e pela sensação de sufoco. Mas, apesar do engasgo, nunca chegou a perder totalmente o ar.
Fiquei de pé, o corpo todo composto de ruídos por dentro. Dona Zulmira, que viera atrás, cruzou-se no meu olhar como uma sombra obediente: “Eu não fui.” O médico limpou o metal, leu a inscrição. Devolveu-me o ouro em silêncio, como se me entregasse uma parte do menino que me cabia. Estava gravado: “A. & L., 1994”.
O A (de meu nome) ainda feria como espinho; o L (do nome dela), ao lado, dormia sem memória. Olhei para o anel como se fosse um velho processo mal concluído. Perdi minha aliança no verão de 2003, numa noite de gritos, quando Laura fechou a porta com um vento que levou mais coisas do que deveria. Tive, desde então, o hábito de reescrever a cena em silêncio, com o método de quem arruma gavetas sem tocar o fundo.
— O menino? — perguntei.
— Vai viver — respondeu o médico, enxugando as mãos. — Mas o senhor precisa aprender a tampas os potes. E as lembranças.
O tom sem julgamento me humilhou. Levei Bento de volta; dormiu pesado, vestido, a respiração com tropeços leves. Dona Zulmira ficou na sala um momento, as mãos enroladas no avental.
— Eu não botei anel em lugar nenhum, seu Arnaldo.
— Eu sei.
— A colmeia é do senhor — apontou para mim, e o gesto bateu no peito com a simplicidade de uma verdade antiga. — E abelha não guarda aliança. Quem guarda é gente.
Quando ela se foi, abri a gaveta da escrivaninha. Ali dentro, sob as minutas, encontrei o que não procurava: papel de embrulho, um espinho de laranjeira, meu tinteiro. A letra, a mesma das cartas. Tentei rir: um homem ordenado sempre deixa a prova da próprio desordem onde possa ser encontrada.
Escrevi a terceira carta: “Quem volta para vender deveria, antes, comprar uma vela.” Espetei o papel na figueira. Precisava completar o círculo, como quem fecha um processo com a última rubrica, ainda que esta denuncie o escrivão.
Na manhã de sábado, o comprador chegou cedo, com gravata que tinha a mesma cor de pêssego partido. Mostrei-lhe os limites, o poço, a cerca que o vizinho, há anos, encostou no nosso lado. Ele sorriu com a educação dos homens que compram os sonhos dos outros com alvará legal.
— A casa está cansada — disse. — Mas a terra, não. A terra é bicho que dorme leve.
Assenti. Assinamos. Ele me deu o cheque. Fiquei olhando o espaço onde meu pai dizia palavrões quando pregava a mão no arame farpado. Bento apareceu de camisa limpa, a garganta riscada de um roxo leve, como lembrança. Olhou para mim e para a figueira.
— Quem escreveu aquilo?
— Fui eu.
Ele abriu a boca como quem recebe um doce mal explicado.
— Por quê?
— Porque às vezes a gente precisa do inimigo para entender a própria letra.
— Entendi não.
— Melhor assim.
Fui à cozinha, peguei o frasco de mel, lavei-o devagar, como quem prepara um batismo. Na prateleira, as taças baças me assistiam com a paciência dos objetos.
— Leva — entreguei o frasco a Bento. — Mas só abre quando tiver gente por perto.
— A senhora do fundo?
— Melhor ela do que eu.
Na varanda, dona Zulmira acenou com um gesto curto. Vi em seus olhos que, para além das cartas, das alianças e da venda, havia uma contabilidade que não se faz no papel: o menino respirava. Voltei à figueira, arranquei a última carta antes que o comprador a visse. Rasguei-a em tiras finas e as dei às formigas. Elas carregaram meus avisos como se fossem açúcar.
Na porteira, o comprador me esperava no carro. Olhei ainda uma vez o quintal; o chão fofo calou meus passos outra vez. No bolso, a aliança pesava a metade de um segredo.
— Pronto? — perguntou o homem do pessegueiro.
— Pronto.
Ficamos alguns segundos sem acrescentar nada ao mundo. E então, sem plateia, sem cartas, sem mel, a chácara, que sabia mais de mim do que qualquer testemunho, me perdoou com o único perdão que as coisas têm: aceitou que eu fosse embora.
A estrada se abriu em risca vermelha. O carro andou. E, mesmo com a janela fechada, juro que ouvi, lá atrás, o barulho de um lençol puxado, cobrindo um menino.





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