3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Cristiane Titoneli (Categoria Crônica)

SOBRE A AUTORA:
Cristiane Titoneli nasceu em Palma, Minas Gerais, e vive no Rio de Janeiro há mais de vinte anos, mas escreve de um lugar onde a infância, a cidade e o corpo ainda falam. Mãe de três meninas, servidora pública e pesquisadora, faz da escrita um caminho de descobertas: olha, retorna, escava e permanece.
O TEXTO:
Plic, plic. Ploc, ploc.
Há uns três anos, entre mil quinquilharias de uma loja chinesa em Copacabana, achei um tesouro guardado: um guarda-chuva de um amarelo único. Um fragmento de sol capaz de me colocar a salvo das mais intensas intempéries.
Desde então, meu guarda-chuva vive elegantemente pousado no mancebo, junto à porta de serviços. Dali, encolhido e recatado, ele me espreita e chega a me excomungar por tê-lo exilado naquele canto solitário da casa.
Quem o vê assim, fechado, pudico e sisudo, nem imagina se tratar de um exibicionista, que aguarda um pequeno sinal para deslizar suas afiadas garras e descortinar-se em um berrante amarelo-ovo.
Automático, pneumático, com hastes telescópicas, tecido impermeável e estrutura de carbono, meu guarda-chuva, definitivamente, tem todos os motivos para se sentir único quando o pego pelo braço e o seguro forte em minhas mãos para caminharmos sozinhos na
chuva, que saltita melodiosa sobre a minha abóboda dourada. Plic, plic.
A solitária mulher da esquina, tragicamente vestida de branco, busca atordoada um refúgio e não disfarça a inveja ao me ver hermeticamente guardada, aninhada nos doces braços do meu guarda-chuva amarelo.
Até mesmo os carros reduzem a marcha e, como que hipnotizados, mantêm atenção para esperar a travessia do meu guarda-chuva amarelo.
Ele gira, abraça o vento e, sob a regência da chuva, me conduz em uma suave valsa.
Plic, plic. A calçada é nossa. Deslizamos pelo passeio encharcado e o sinto ouriçar quando os pingos de chuva o acariciam quase libidinosamente. Ele é meu escudo. Meu companheiro.
Somos um só.
A chuva tintila o seu plic, plic e caminha caprichosa pelas vitrines envidraçadas.
Inclino meu guarda-chuva e o repouso sobre o ombro enquanto procuro desesperadamente
por algo na bolsa. De repente, bem do outro lado da rua, a chuva lava com força a fachada de uma boutique. O pequeno jacaré decalcado no capacho de entrada quase se esmaece sob o jato d’agua. Era a loja preferida do meu pai.
O boné preto e a camisa listrada, encomendados meses atrás, ainda enfeitam o resignado manequim. Ninguém apareceu para pegá-los. Já havia lembranças demais.
Meu guarda-chuva permanece estático. Sabe que, apesar de fenomenal, não é capaz de me proteger de tudo. Não me põe à salvo da saudade e tampouco é capaz de aliviar a minha dor. Sem meu refúgio dourado, me inundo com o suave choro da chuva, plic, plic, e meus olhos transbordam, ploc, ploc.





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