3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Daniela dos Santos Souza (Categoria Crônica)

SOBRE A AUTORA:
Meu nome é Daniela. Sou mãe e avó de homens. Estou com quase 61 anos. Sou curiosa sobre pessoas e o mundo onde vivem. Amo viajar e conhecer paisagens e culturas novas para mim.
Tracei meu percurso acadêmico pelas linguagens e humanidades: Letras, História, mestrado em Educação. A literatura brasileira foi a linha que costurou essas experiências e me construiu profissionalmente e pessoalmente.
Fui professora de História e de Língua Portuguesa por 20 anos e, desde 2005, atuo como consultora pedagógica. Concomitantemente, sou autora e editora de materiais escolares.
Em 2025, vivi a experiência de integrar a equipe de uma ONG dinamarquesa. Por um dos projetos, fui viver na Guiné-Bissau por 6 meses, junto às comunidades rurais. Lá, desenvolvi trabalhos com educação para transformação social e para construção de ações resilientes às mudanças climáticas que afetam o país.
O TEXTO:
Dois lugares
— Como assim um aneurisma?
— Assim mesmo... Um aneurisma cerebral.
— Como? O que aconteceu?
— Ela estava no banheiro e se sentiu mal... Caiu... Dizem que a dor é forte como se estourasse uma trovoada na cabeça... Insuportável!
— Como assim? Tinha alguém por perto? Quem socorreu?
— As crianças estavam lá. Chamaram por ela... Ela não respondeu, então ligaram para mim.
— Não... Não... Não... Onde ela está? Quero vê-la.
— Impossível. Está na UTI. Se prepare para o pior!
— O que é “o pior?”
— Sequelas... Morte...
— ...
— ...
Ela e eu voltamos de viagem há poucos dias, antes de estourar o aneurisma. Que loucura! Podia ter acontecido enquanto estávamos no avião!
No início da viagem ficamos em Sacavém, ao lado de Lisboa. Ela tinha trabalho ainda pendurado para enviar à Editora. Da sacada do apartamento víamos o Tejo, mas não dava para ficar ali por muito tempo porque a sacada era o território da gata, a Morgana, que da sua almofada olhava na nossa direção.
Mas se olhássemos para ela, desviava o olhar, rápido, fingindo que não estava nos observando.
Ela tinha medo da Morgana e acho que a Morgana tinha medo dela. Por isso se respeitavam: uma não invadia o espaço da outra. A almofada e a sacada eram da Morgana, o computador e a mesa eram dela.
Eu fui correr até o Tejo, aproveitar um solzinho de fim de inverno e comprar um vinho.
Sabia que precisava conversar com alguém porque as coisas não estavam bem. Acho que por isso estou aqui no teu consultório, não sei... Eu acho que eu não devia ter ido para Portugal! Foi ideia dela, mas acabei concordando... Eu até tinha um sonho de conhecer a terra do meu avô... O que deve ter levado o cara a ir para o Brasil em 1911? Ainda tinha gente da família por lá, em Águeda... Mas, na verdade, eu estava meio confuso e não pretendia ir até lá: estávamos com o roteiro feito para conhecer lugares incríveis e não queria pensar nesse desvio. E, sério, para que mexer com isso? Mais de 100 anos... Todos já deviam ter se mudado ou nem se lembrariam do meu avô! Também podiam estar todos mortos, sei lá.
— Morte?
— Sim, foi muito violento. Ela está respirando por aparelhos e...
— Eu não estou conseguindo respirar! É um tormento!
— Vamos lá fora, está ventando, vai ajudar um pouco.
O vento forte que vinha do Tejo embaralhava minhas ideias: eu não devia estar em Portugal. Estava de férias? Havia deixado o filho no Brasil com dinheiro suficiente para dois meses, mas só iria ficar fora por uns 15 dias. Eu me torturava e repetia em pensamento: “eu passeando e ele lá, nunca saiu do Brasil. Eu na beira do Tejo e ele sacolejando no ônibus até a escola”. Pensar era um tormento. Era?
— O vento podia levar esse tormento para longe e...
— Você sempre achou que o vento podia resolver tudo!
— Quase tudo!
— É... O resto você podia resolver com um bom vinho!
— ...
Enquanto corria, lembrei do vinho! Ela e a amiga já deviam estar preocupadas me esperando. A amiga era a dona da Morgana, já te contei isso? Resolvi levar mais coisas: uma torrada, patê. E meus pensamentos voltavam: “Será que ela já terminou o trabalho infinito”? Porque, eu não sei se você sabe, mas isso de escrever livro é assim: nunca está bom, nunca fica daquele jeito desejado. Se for reler, ela encontra um ponto, um parágrafo todo que devia estar em outro lugar; uma explicação que não devia estar antes do fato; um fato que apareceu antes do tempo; um tempo indicado fora do período; uma consequência sem causa.
— Qual a causa do aneurisma?
— Não sei, ela poderia ter isso há muito tempo, fazendo pressão na veia. Uma hora
estourou, podia nunca ter estourado...
— E as consequências?
— ...
— Qual o horário da visita?
— Não pode entrar ainda. Ela está muito agitada, arrancando os fios, as roupas. Está
sem controle dos movimentos.
— Se eu falar com ela se acalma, eu sei. Posso contar dos vasinhos na janela... dos livros que chegaram...
— Não faz assim! Só aumenta seu sofrimento!
— E o dela? Tem alguém pensando nela? No medo que ela deve estar sentindo cheia de aparelhos, de gente desconhecida, de corpo que não reconhece?
— Vai para casa. Amanhã é outro dia, pode ter novidade...
A novidade eram os intrusos em casa. Morgana soltava pelos, muitos pelos. A amiga avisou para não deixarmos a porta do quarto aberta porque a gata entendia como um convite para se enroscar nas roupas, entrar nas malas. E, um dia, entrou! O casaco preto, pronto para desbravar Lisboa no dia seguinte, já era!
Impossível usar, pelos por dentro e por fora. Os olhos felinos pareciam satisfeitos: era a doce vingança contra os invasores! Enquanto eu resolvia os pelos, ela escrevia. E, além de escrever, soltava gargalhadas, muitas.
Conhecia a história de Portugal, sabia o que queria conhecer em Lisboa, no Porto, em Belmonte, em Covilhã, em Leiria, em Sagres, em Nazaré, na Serra da Estrela, em Sintra, em Óbidus, em Batalha, em Évora.
Minha cabeça rodava pelo mapa. Ela falava que iríamos à Águeda e que lá encontraríamos a família do meu avô. Mas não iríamos na primeira semana porque tínhamos que respeitar essa questão do tempo, quando nada acontecia antes de nada. E havia os lugares antes desse tempo, porque os lugares, às vezes, eram tão importantes quanto o tempo.
— O que importa o lugar onde estou, aqui ou em casa? O tempo não passa de qualquer jeito!
— Ao menos você pode descansar um pouco.
— Descansar? Você está brincando comigo? Perdeu a noção? Não me conhece?
— Estou tentando te ajudar!
— Se bobear, vai dizer para eu passear um pouco!
— ...
Lembro que fomos passear em um museu, no centro de Lisboa, com azulejos pintados em diferentes épocas, por influência de mouros, de holandeses, coloridos ou apenas azul e branco. Paisagens de Lisboa antes do terremoto ou depois dele. E ela via beleza em tudo, nas escadas, nas colunas, no piso hidráulico, no claustro, nos restauradores, na capela, nos bancos de madeira (e se perguntava se aquela madeira havia sido levada para lá, nas caravelas). Eu me sentia sufocado por ela, pelos azulejos, pelos mouros, pelos portugueses. Por que eu não reclamei, não disse a ela? Não sei o que acontece comigo! Depois de umas horas, percebi que estávamos voltando aos mesmos locais e comecei a procurar a saída. Havia outros museus para ver, ruas para andar, paisagens para desfrutar e eu estava com fome. Eu estava com muita fome! E havíamos combinado com a amiga de comer arroz de pato acompanhado de cerveja. Também por isso o que eu mais queria era sair dali.
— Acha que vou conseguir sair? Quero estar aqui quando ela acordar!
— Ela não vai acordar. Está sedada. Os médicos estão controlando isso, aplicando os remédios, observando a tomografia, as alterações e as reações.
— Ela vai acordar e não vai entender nada. Quem vai explicar sobre o lado que o Sol nasce na UTI ou quanto tempo já passou?
— Do que você está falando?
— Quero estar lá para explicar as coisas que são importantes para ela.
— Ela não vai acordar. Coloque os pés no chão. Ela não vai acordar enquanto estiver sedada e, se acordar, ninguém sabe quais serão as reações, nem se vai ter reações.
— O que eu vou fazer? Ela sempre explicava o que eu devia fazer!
— Molhe as plantas. Ela gostaria que você fizesse isso. E, por favor, descanse. São 5 horas! O médico pediu para estarmos às 14 na porta da UTI.
Às 14 horas o arroz de pato foi servido com rodelas de calabresa por cima. Estávamos em uma tasquinha, bebendo uma cerveja gelada acompanhada de gargalhadas depois de azulejos inspiradores. Na rua em frente, passavam os tuc tuc, cheios de turistas que falavam muitas línguas. Iam para o Panteão Nacional, onde estavam os restos mortais dos heróis da pátria. Lembro que tinha muito Sol e que vi o Tejo logo abaixo.
— Desligaram os aparelhos, mas ela não reagiu.
— Então, ela não viu o Sol?
— ...





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