3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Davi Capelatto (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Davi Capelatto nasceu em São Paulo em 1973, é escritor e se formou em Direito pela USP. Alguns de seus contos foram premiados pela Academia Paulista de Letras e pelo Concurso Anna Maria Martins, com publicações em coletâneas. É autor de dois romances: "Tudo o que ainda é", de 2022, e "O deserto de Bárbara", ambos publicados pela Editora Rua do Sabão.
O TEXTO:
Corre-corre
– Quem escolhe a espoleta deixa a letra.
Perdi a hora, não adiantou a mãe chamar às sete, como faz dia-sim e dia-sim, até no domingo, único em que ela não faxina em casa de família. “Estuda que a vida muda”. Será mesmo, mãe? Hoje não vou à escola – mas a mãe não sabe disso. Já saiu de casa, nem percebi, deve estar subindo no ônibus a caminho de Santana – terça-feira é no apartamento do seu Caio, separado. E eu no corre-corre. Não comi o pão de forma gelado com margarina, nem esquentei o bule com café. Estuda ou deixa a letra? Dois desmentidos – a vida é um baita desacordo mesmo. Com a mochila nas costas para disfarçar, subi até o quarteirão de trás onde o Bola me esperava no Corsa que parece táxi, provavelmente com placa fria.
– Quer me ferrar, moleque?
– Só cinco minutos, Bola, vá à merda – não convém amarelar.
Ele arrancou em silêncio. Nunca me avisam qual o ponto de trabalho; só sei que é em bairro de bacana, Jardins, Higienópolis, Pacaembu, Itaim Bibi. Seja onde for, a pernada desde a Brasilândia é longa. Durante o trajeto, o Bola para o carro duas vezes para dois da corriola do Nicão embarcarem, o que me obriga a pular para o banco de trás. A mãe na condução lotada a essa hora, e eu aqui com chofer. Embora eu goste de pensar que tenho chofer, sou café pequeno. Não sei nem os apelidos dos mão-armadas que agora dividem o carro comigo, eles mudam todo dia. É provável que esses desconhecimentos sejam ordem de Nicão, para não criar amizades, panelinhas, essas coisas. Ou eu é que sou novo na parada. O Bola é sempre o mesmo, e ele só abre a boca para dar instruções rápidas ou encher o saco de quem se atrasa. Como se o crime exigisse hora marcada... “Zinho, de onde vem esse apelido, menino?”. Da quadra, mãe. Não era mentira mentira... Melhor a mãe não descobrir a verdade verdade, que eu era o novo escalador do Nicão. Não, de jeito nenhum. Estuda que a vida muda é conselho. Deixa a letra é ameaça.
– Pega o teu material – e, controlando a direção com a mão esquerda, Bola estica a direita com um saco plástico cinza de mercado usado.
Eu segurei o pacote sem falar nada, abri, rasguei a embalagem dos chicletes e fui logo tascando um na boca. Daqui a pouco meto o segundo, a mandíbula não vai demorar a doer. Enfiei os panfletos, o boné e a camiseta na mochila e atirei a sacola no assoalho do carro. O Bola percebeu e bronqueou:
– Recolhe.
A mãe anda desconfiada. “Como foi a aula hoje?”. “O de sempre, mãe”. Baiana esperta, se descobrir, me ferro. “O de sempre” também não era mentira mentira. Aconteceu na quadra, eu tinha saído da aula mais cedo, matando a de matemática. Ninguém procurou ninguém: meu time perdeu, eu esperando para voltar ao jogo, ali, de bobeira, e o Nicão numa mesa bravateando. Fui atrás de água, passei perto, ele me viu e falou: “Você dribla bem, arisco, quer ser meu escalador?”. Na hora não entendi, quem escala é técnico e nas quadras da Brasa não existem essas finezas. Porém, me aproximei, todo mundo respeita o Nicão. Se a mãe estivesse na quadra, teria mandado ficar longe dele. Contudo, ela não estava. Com voz rouca de chefe de bandido perguntou nome, idade, tempo no bairro, como entrevista de emprego. Mas tenho certeza de que o Nicão ficou atiçado mesmo com a resposta “não tenho” à pergunta “quem é teu pai?”. “Sua mãe, o que faz?” “Diarista”. “Ela liga para estudo?” Liga, liga muito – para o Nicão não dava para mentir. Daí ele me explicou o que era escalar. Baita corre-corre, dia-sim dia-não, bem cedo, o responsável pelo bonde é o Bola aqui, ó. Se a mãe estivesse por perto, me daria uns sopapos, fácil. Escolhi a espoleta.
Sempre um semáforo novo num bairro diferente, seria muita bandeira repetir, até “polícia” raciocina. O Bola parou e eu saltei do carro com o material de trabalho. Já sabia o que ele ia dizer. E ele disse:
– Espere dez minutos.
8h24min. Agora deve estar acabando a aula de português, gosto de português, a professora Marília é legal, mandou ler policiais brasileiros. Quem mora na Brasilândia não consegue torcer pelos “polícia”. Deixo a mochila no pé de um poste, visto a camiseta laranja, coloco o boné com o nome da construtora e meto mais uma goma na boca. Esse trabalho vai arrebentar com meus dentes. Neste horário a mãe deve ter terminado de lavar a louça do patrão; talvez tenha começado a dar um trato na cozinha. Analiso a rua, três faixas de carros, mão única, movimentada, buzinas de motocas, é assim mesmo, todo dia é corre-corre. Sou driblador para caramba, por isso o Nicão me chamou. Anos atrás eu sonhava em jogar bola, viver disso, comprar carro, casa e pagar convênio para mãe. Na época eu a acompanhava, aos sábados, nas casas de família. Ela nem imagina que eu comecei a trabalhar. Estudar? Que nada... Com minha nova atividade vou comprar carro, casa e pagar convênio. O sinal fica vermelho e eu conto: vinte e cinco segundos. Muito rápido, que merda, hoje o Bola me fodeu...
8h27min, a professora Marília vai encerrar a aula em minutos – é gostoso o intervalinho entre uma aula e outra, sei lá, os alunos conversam, sozinhos na sala, a gente parece adulto. Só que adulto mesmo começa a “trampar” cedo. Como eu. A mãe já acabou de lavar a cozinha, deve estar colocando as roupas na máquina; depois do almoço ela pendura tudo no varal da área de serviço. Com meu trabalho quero carro, convênio e casa com áreade serviço. Seguro os panfletos, anúncios de prédios, de lojas, de dentistas, qualquer porcaria serve como isca. Dois ou três quarteirões adiante, para cima ou para baixo, os carros que escolhi – ou melhor, os seus motoristas – vão receber berro na cara e ameaça de morte. E assim perder carteira, celular, relógio. Se não perderem a vida – já aconteceu antes, ouvi dizer. Não gosto de pipoco. Por isso tento escolher o coió com mais cara de coió possível, que pareça não ter essas ousadias de reagir. Mas isso é coisa minha, para ajudar a vítima, ninguém orientou.
8h31min, já dá para começar, foda-se o Bola, ele não manda em mim. Se a janela abrir, ótimo, não é blindado. Então reparo se tem celular no painel. O ideal é escalar quem deixa celular-relógio-carteira-bolsa à disposição, para a colheita ser mais profícua. Aprendi essa palavra nos policiais que a professora Marília sugeriu. Porém – e essa orientação veio diretamente do Nicão –, só o celular já basta. A bolsa e a carteira quase sempre vêm a reboque, explicou. Dizem que mulher reage menos, sei lá, pode ser, mas já percebi que mulheres abrem menos a janela do que homens, mais cuidadosas, esse papo de que a cidade anda violenta e tal. Lataria? De preferência, preta, em carro claro às vezes a goma some. É no corre-corre, mano; vinte e cinco segundos para escalar dois carros?! “No mínimo dois”, outra ordem direta do Nicão. Ele havia explicado tudo naquele dia, na quadra. “Se os carros fizerem o mesmo trajeto, os de mão-armada abordam dois carros ao mesmo tempo, daí é mais fácil a fuga. Colheita profícua.
Todo carro roubado tem chiclete colado na lataria?! Um dia a polícia descobre... Até eu, que sempre matei aula, uma hora daria reparo nisso. Mas os caras não olham direito. Um dia a minha mãe descobre, faltando na aula dia-sim e dia-não.
Primeira rodada: não escalo nenhum. Segunda: também não. Vinte e cinco segundos. As pessoas estão ariscas, não abrem as janelas para panfleteiro de araque, tremenda falta de
educação. Este farol de merda abre rápido, mandíbula começa a incomodar. Sou driblador, só no aquecimento, começo a sacar o cruzamento. Como tem motoca por aqui! Terceira rodada: um cara de uns cinquenta anos num sedã preto abre a janela, relógio no pulso e celular no painel, pega o panfleto e ainda agradece. Trouxa. Goma na lata, discretamente. Desvio de uma motoca, pulo para o carro de trás, corre-corre, mulher com janela aberta, é raro, bolsa no passageiro, súvi cinza-escuro, belezinha, belezinha, o farol abre em cinco segundos: panfleto para a mocinha e goma na lata.
Volto para a esquina buscar chicletes, tem dia em que mordo mais de trinta, com força, com pressa, com dor na boca. Aqui do meu lado da calçada é bem melhor, no meio da rua tem motoquinha demais. A essa hora a mãe já deve ter passado para os quartos, primeiro varre o chão, depois passa pano úmido sem produto para não manchar o taco. O seu Caio não arruma a cama, folgado demais. Agora é hora da aula de geografia – detesto. Vou pegando o jeito desse ponto, o sol mais forte, a atividade, fluindo; motocas e buzinas, panfletos e janelas, bom dia e goma na lata. Sem correria, nada feito. Sou driblador.
O chiclete vai acabar; a mandíbula dói dos dois lados. A atividade dura duas horas, duas horas e meia, ninguém me avisa, horário do rush e de rodízio. Cinquenta pila por dia, foi o que o Nicão prometeu, mas até hoje não vi a cor do dinheiro. Final do mês está logo aí. Vai dar uns quatrocentos contos. E na escola, posso repetir por falta. Já sei, vou passar para o noturno. A mãe não vai aceitar, vou ter que inventar alguma coisa...
Opa! Três escuros enfileirados, o da frente com a janela aberta, pena ser na última faixa. Vinte e cinco segundos, piso na rua, vou driblando na correria, atravesso a primeira fila e alcanço a segunda, a mandíbula me matando, vinte segundos para marcar pelo menos dois carros, quase lá, quase lá...
Se a mãe estivesse por ali, no cruzamento, teria me visto ziguezagueando entre os carros. Poderia se perguntar: o que Arturzinho fazia ali? Que história é essa de panfletos?! Certamente teria visto a mochila, que deveria estar, como eu, na escola pública da Brasilândia, descansando ao pé do poste na esquina. E a mãe não teria tido nem tempo de me dar nenhuma bronca, pois teria visto – baiana esperta que é – a chegada da motoca, teria ouvido a buzina, ao mesmo tempo em que eu, desatento, esticava o braço na tentativa de entregar um folheto para o motorista de um carro preto. Com certeza escutaria o estalido forte e seco do choque entre o pneu da motocicleta e a carne magra de minhas pernas dribladoras. E talvez não conseguisse contar quantas voltas rodei no asfalto antes de, finalmente, perceber que puseram um freio naquele corre-corre.
Mas a mãe, naquele momento, passava aspirador de pó no tapete da sala do seu Caio.





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