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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Fabiene Roveri (Categoria Conto)

há 4 dias
5 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Por muito tempo, as palavras de Fabiene Roveri viveram escondidas, aguardando uma perfeição que não existe. Natural de Jundiaí (SP), ela é professora especialista em Educação Especial e em Projetos Educacionais. Apaixonada pela alfabetização, acredita no poder das palavras para despertar o protagonismo e ajudar cada aluno a se tornar dono da própria história. Foi dessa mesma inquietação que nasceu a coragem de abrir a gaveta, romper o silêncio e assumir a escrita criativa. Com o conto “O Quórum Fúnebre”, estreou na literatura nacional e decidiu deixar a gaveta aberta para sempre. Leitora voraz de múltiplos gêneros, hoje ela se reconhece, finalmente, como uma autora — orgulhosamente imperfeita. 



O TEXTO:


O quórum fúnebre


Dona Maria Aurora tinha suas manias, e a vizinhança, atenta aos movimentos miúdos da rua, passou a chamar aquilo de esquisitice de velório. Não por maldade — era mais um comentário sussurrado entre portões semiabertos e xícaras de café. Notavam que a notícia se espalhava mais rápida do que o intervalo entre as duas badaladas lentas do sino da igreja — lá estava ela, de preto, com passos firmes que cumpriam um ritual implacável. Não era uma dessas penetras de luto; carregava consigo, ao menos, uma lembrança frouxa que justificasse a presença: um rosto cruzado na feira ou um nome ouvido por acaso. Afinal, se o sino dobrava, o luto deixava de ser um privilégio dos íntimos para se tornar uma convocação inadiável.

Ela não buscava o choro ou a tristeza, mas a anatomia da carência; buscava gente. Enquanto a capela mergulhava em lamentos, Aurora estudava os vivos com o rigor de uma perita de fragilidades, sabendo que velórios produzem sons específicos, como o tilintar da colher no copo até o cochicho sobre heranças. Observava como o luto desarmava as defesas — o atrito das pérolas falsas no pescoço suado da viúva ou o alívio escondido sob o lenço engomado do herdeiro — apenas para mapear os pontos cegos da vaidade alheia. No fundo da bolsa, o caderno de capa dura, engordurado de batom pelo manuseio constante, servia para anotar os fiados de gratidão. Ali, não catalogava mortos, mas ativos: nomes e favores eram somados em uma contabilidade silenciosa, onde ela investia em presenças para garantir, com juros, o volume do seu futuro quórum.

Gostava, sobretudo, de fazer número. Para ela, a medida da alma não estava nos atos em vida, mas no volume de sombras amontoadas na despedida. Sentada no banco de madeira, com a coluna ereta de uma examinadora, Aurora contava cabeças e atribuía uma nota íntima ao defunto. Velório ralo, com quatro ou cinco gatos pingados, era fracasso retumbante; capela cheia, com o burburinho transbordando para a calçada, era consagração. Enquanto fingia uma oração, seus olhos perscrutavam o recinto, separando choros sinceros de soluços protocolares, catalogando cada presença como um ativo que precisava, a qualquer custo, transferir para si.

A obsessão tinha raiz e cheiro. Vinha de um domingo de chuva ácida na infância, quando o som seco da pá do coveiro batendo na terra foi o único aplauso que sua avó recebeu. Naquela vastidão imensa de terra morta, os passarinhos não cantaram; o único som que Aurorinha recordava, além da pá, eram os pingos de chuva miúda batendo na sombrinha. A velha fora uma criatura murcha, cheia de espinhos, com um coração que parara sem fazer falta, como se o sangue tivesse sido substituído por suco de limão galego.

Aurorinha recordava-se de uma tarde em que encontrara a avó chorando um pranto ralo na cozinha; o ambiente cheirava a alho frito e desamparo. Mesmo criança, sentia que aquela mulher colhia a amargura que plantara com esmero. Ainda assim, Aurorinha aproximou-se e perguntou se ela queria um abraço. O olhar que recebeu foi uma lâmina de gelo. A avó disparou um "não" seco, reverberando nas paredes nuas de cal aguado. Naquele instante, a menina entendeu que a sinceridade era uma cova rasa, o seu pior defeito. Compreendeu que a verdade pura era um jazigo frio e que, para não sucumbir à mesma necrose da velha, precisaria aprender a arquitetar os afetos, preferindo o brilho de uma máscara bem polida ao vazio de uma face nua.

Foi assim que Aurora passou a lotar o necrotério do futuro. Edificou uma família numerosa como quem ergue um mausoléu imponente. Batia ponto em apresentações escolares e formaturas com a mesma precisão com que se vela um corpo, garantindo que nenhuma cadeira ficasse vazia. Cada abraço dado em sobrinhos e afilhados era, na verdade, uma reserva de quórum. Jamais pronunciava o "não" que a matara na infância. Tornou-se a "santa" do bairro, mas sua caridade era um depósito funerário. Sabia exatamente qual máscara vestir para cada desgraça. Diante da senhora Virgínia, ao notar o peso da idade nos ombros da vizinha, Aurora destilava o seu veneno adocicado, afirmando que aquele corte de cabelo realçava um brilho divino nos olhos dela. Ela não apenas mentia; operava uma necropsia na realidade, cobrindo o rosto nu da verdade com o verniz de uma adoração impecável.

Nem mesmo a morte alheia escapava ao cálculo. Quando o velho Onofre infartou em seus braços, a prioridade de Aurora não foi a prece, mas a cifra. Ao arrastá-lo escada abaixo, ela sentia o peso daquele corpo como se carregasse uma lápide bruta sobre o peito; o cheiro azedo do suor frio misturava-se ao som seco das solas dos sapatos — clac, clac, clac — batendo no granito como a pá do coveiro da sua infância. Cada baque era uma cláusula: ela calculava que, se ele sobrevivesse, a família ficaria algemada pela gratidão; se morresse, aquele esforço seria o selo definitivo no passaporte deles para o funeral dela.

Mas a vida cobra juros. Certa noite, a amiga Eunice encontrou o caderninho sob a Bíblia. Aurora ouviu o som das páginas — um farfalhar seco, como patas de inseto em papel velho — e soube que a máscara havia rachado. Viu Eunice com o rosto pálido e o dedo trêmulo apontado para o próprio nome. O silêncio que se seguiu teve o peso de um sarcófago de chumbo, enquanto a amiga abria a boca para desmascarar a santa. O pensamento foi um relâmpago: o degrau, o fim. O empurrão foi curto, quase um gesto de misericórdia para manter a encenação viva. O barulho do corpo rolando foi rítmico, um impacto seguido de outro, até o estalo final, o eco exato daquela pá do coveiro que encerrava todos os seus diálogos. Ao descer, Aurora notou que o sangue da amiga tinha um brilho escuro de amora, mas aquele aroma de notas secas ainda flutuava no ar. Percebeu que a morte também tinha cheiro de perfume importado — ninguém gritou.

No velório minguado de Eunice, ela chorou pelo prejuízo e pela ironia de gastar uma tarde que não lhe renderia juros. Entre soluços ensaiados, Aurora sussurrava que era uma pena que o chinelo dela tivesse deslizado, enquanto riscava o nome com o grafite áspero no papel pardo.

Anos depois, o café ainda fumegava quando Maria Aurora sentiu o aperto final no peito. Ao ver a chuva fustigando o vidro com unhas de felino, seu último temor era a tempestade: o medo de que ninguém viesse no frio para quitar a última nota promissória.

Mas a cidade submeteu-se ao seu inventário. Cada guarda-chuva erguido naquela tarde parecia um pagamento silencioso da dívida. A capela transbordou em uma massa de credores de afeto. Maria Aurora estava, enfim, salva do silêncio que engolira sua avó.

Quando tudo terminou, o calor das velas permaneceu no ar estagnado. O vapor dos hálitos e o perfume das flores mortas condensavam-se em pequenas gotas no teto, que logo começaram a cair sobre a tampa de madeira, imitando o ritmo daquela chuva miúda na sombrinha de sua infância. Sob as luzes pálidas, a última camada de verniz cedeu; sua máscara enfim craquelou, revelando a face nua por baixo da tinta — ninguém percebeu. Mas Maria Aurora já não precisava dela, pois havia finalmente quitado a sua maior obsessão: o seu Quórum Fúnebre.

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