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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gabriela Pimenta Martins (Categoria Crônica)

há 4 dias
3 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Gabriela Pimenta Martins é jornalista, professora e tradutora, com mestrado em Linguagens, Mídia e Arte pela PUC-Campinas e formação em Artes, Curadoria e Práticas Contemplativas. Sua trajetória transita entre a comunicação, a produção de conteúdo e a tradução, movida pelo interesse em arte, cultura, espiritualidade e comportamento. Com experiências no Brasil e no exterior, Gabriela encontra na escrita um espaço de expressão, explorando as relações entre linguagem, experiência humana e o mundo contemporâneo. 


O TEXTO:


Rapunzel


Eu costumava acordar com frases na cabeça. Agora eu acordo com notificações.

Hoje, por exemplo, acordei com a ideia perfeita para um conto sobre Rapunzel. Não aquela da torre, mas uma outra, presa não por bruxas, mas por tarefas. Uma mulher que deixa o cabelo crescer porque não tem tempo nem de marcar salão, sabe? Uma Rapunzel que não quer ser salva — quer só trinta minutos de silêncio.

A ideia veio inteira enquanto eu procurava a outra meia do uniforme. As meias e calcinhas também somem na casa de vocês?

Sou loira, de olhos escuros, e tenho olheiras que parecem sublinhar tudo o que eu não fiz. Eu devia ter feito uma escova no cabelo, ele é meu ponto principal no quesito beleza e está todo amassado. Entro no carro já atrasada, as crianças discutindo sobre quem pegou o estojo de quem. Ligo o motor, respiro fundo, e me jogo no trânsito caótico de São Paulo como quem entra numa guerra cotidiana.

Eu tenho medo de ser assaltada no carro. Sempre. Principalmente quando paro no farol da esquina da padaria. Olho pelos retrovisores como se fossem olhos extras. Aqui os níveis de cortisol devem se equivaler aos de um cervo fugindo de uma leoa. Penso na bolsa no banco do passageiro. Penso que devia ter deixado no porta-malas. Penso que devia ter escolhido morar em outro lugar. Penso que ainda não paguei o boleto da escola. Vence hoje?

Ou era ontem? Meu Deus, será que era ontem?

Dobro a esquina e um motoqueiro surge do nada, raspando no meu retrovisor.

— Filho de uma puta! — eu grito, já com o coração disparado.

— Mãe! — minha filha me repreende do banco de trás. — Que feio!

Respiro fundo. Peço desculpa para ela. Não para o motoqueiro. Para ela. Meu Deus,

que mãe horrível.

No rádio, quase inaudível, ecoa “APT.”, da Rosé com o Bruno Mars. A música entra e sai como se estivesse debaixo d’água, misturada ao barulho das buzinas. “Don’t you

know…” — eu não sei. Eu realmente não sei de nada às oito da manhã. Bel cantarola a música, já que tem aulas de inglês na escola. O inglês dela já já será melhor que o meu. Espero que a escola sirva ao menos para isso.

Meu filho resolve abrir a lancheira antes da hora. Eu vejo pelo retrovisor o momento exato em que o pote vira.

Os morangos cortados em formato de coração caem no banco. Eu acordei mais cedo para cortar aqueles morangos em forma de coração.

Sinto o choro subir como refluxo. Não é pelos morangos. É pelo gesto de delicadeza inútil.

A Rapunzel moderna dirigia também. Sim, ela dirigia. Ela não estava numa torre — estava num carro financiado em 48 vezes. Ela olhava o retrovisor como se esperasse que alguém a chamasse pelo nome verdadeiro. Qual era o nome dela mesmo? Não era Rapunzel.

Era…

“Preciso comprar papel higiênico.”

“Tem reunião às 14h.”

“Responder aquela editora.”

“Minha mãe mandou aquela mensagem estranha ontem… ‘Depois precisamos conversar sobre aquilo.’ Aquilo o quê? O que é aquilo? Será que aconteceu alguma coisa? Será que é sobre a herança da tia? Ou eu fiz alguma coisa errada? Eu sempre faço alguma coisa errada.”

O farol fecha. Eu penso na Rapunzel. Ela tinha medo também. Não da bruxa. Do silêncio depois que as crianças dormiam. Do eco dos próprios pensamentos. Ela sonhava em escrever sua própria história, mas sempre havia uma torre para limpar, uma trança para desembaraçar, um boleto para pagar.

Atrás de mim, uma buzina longa.

Eu avanço.

Minha filha fala sobre uma prova de matemática. Meu filho pergunta se pode levar o slime hoje. Eu digo não. Eu digo talvez. Eu digo depois a gente vê. Odeio slime, quem inventou isso?

A música sobe de novo, a voz da Rosé misturada ao timbre do Bruno Mars, e por um segundo eu quase lembro o final do conto. A Rapunzel moderna não jogava os cabelos pela janela.

Ela jogava—

Eu estaciono em frente à escola. As portas se abrem. Mochilas, beijos rápidos, “tchau mãe”, “te amo”, “pega os morangos que caíram”, “já vou”.

O sinal toca.

Eu fico sozinha no carro.

Silêncio.

Qual era mesmo a história?

Eu sei que tinha uma torre. Eu sei que tinha cabelo. Eu sei que tinha uma mulher que queria escrever.

Mas agora só consigo pensar que preciso passar no mercado.

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