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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gustavo Maia Gomes (Categoria Conto)

há 3 horas
10 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


GUSTAVO MAIA GOMES é Ph. D. em Economia pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA, 1985); mestre pela Universidade de São Paulo (1976) e bacharel pela Universidade Católica de Pernambuco (1970). Todos os graus em Economia. Foi pesquisador visitante convidado na Universidade de Cambridge (Inglaterra, 1987-88). Lecionou nas Universidades de Campinas (Unicamp, 1972-73), São Paulo (USP, 1973-76) e Federal de Pernambuco (UFPE, 1977-2009).

Ocupou os cargos de secretário de estado de Planejamento, Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (1991); diretor de Estudos Regionais e Urbanos do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, Brasília), órgão federal, então, vinculado ao Ministério do Planejamento e Gestão (1995-2003); diretor Geral da Escola de Administração Fazendária (Ministério da Fazenda, Brasília, 2006). Foi repórter político do Jornal do Commercio (Recife, 1967-70) e economista da Copersucar (Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (1973-76).

Escreveu As últimas notícias de um país andino (Curitiba, 2025, seu primeiro livro de ficção), O anatomista das artes alagoanas (Maceió, 2025), Uma noite em Anhumas (Recife, 2024), As palavras (2023, inédito), O trem para Branquinha (Recife, 2018), Conflito e conciliação (Fortaleza, 2011); Velhas secas em novos Sertões (Brasília, 2001); The roots of state intervention in the Brazilian economy (New York, 1986); sendo coautor de Política agrícola no Nordeste (Brasília, 1979). Publicou mais de 50 artigos técnicos em revistas nacionais e internacionais como Estudos Econômicos (São Paulo), Revista Brasileira de Economia (Rio de Janeiro), Pesquisa e Planejamento Econômico (Brasília), Revista Pernambucana de Desenvolvimento (Recife), Revista Econômica do Nordeste (Fortaleza), Journal of Post-Keynesian Economics (EUA), El Trimestre Económico (México) e Pensamiento Iberoamericano (Espanha). Desde 2000, colabora com a revista Insight Inteligência (Rio de Janeiro).

É pai de Marília (nascida em 1976), Claudia (1978), Pedro (1990), Daniel (1990) e Gabriela (1996); avô de Lara (2011), Luca (2013) e Théo (2018) e, desde 2001, marido da professora-doutora da Universidade Federal de Pernambuco (aposentada em 2019) Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa.




O TEXTO:


As idas sem vindas de Antimônio Ferreira


Tudo começou com um menino, dois porcos e uma estrada indo e voltando do norte ao sul, do leste ao oeste, de cima a baixo, do passado ao futuro – e vice-versa. A estrada foi feita pela inteligência artificial dos pioneiros que construíram Brasília. O menino chama-se Antimônio Ferreira. Ele caminha na estrada com os porcos que serão comidos pelos leões. Não sabem disso, mas serão comidos pelos leões. Daqui a pouco eu falo da galinha.

Os porcos estão felizes, embora tenham fome e calor. Ser feliz assim, sonhando com hortaliças e pegando uma brisa fresca, de vez em quando, sem saber que serão comidos pelos leões, qualquer um pode ser. O menino não é feliz. Na verdade, ele nem sabe o que é ser ou não ser feliz. Quando descobrir, vamos ver pra que lado ele pende. Por ora, Antimônio só se ocupa em caminhar e buscar comida. Comida e água. Passa fome, às vezes, mas tem sobrevivido.

Há quanto tempo Antimônio Ferreira caminha por aquela estrada? Quando ele começou, tinha seis anos de idade. Agora tem oito. A seca braba e a barragem rompida mataram seus pais e irmãos e tios e avós e primos. Sem comida em casa, sem ter por perto

outros ouvidos que não os seus, ao menino só lhe restou ir embora. Para onde? Para onde a

estrada o levasse. Daqui a pouco eu falo da galinha.

Onde ela se inicia, a estrada? Antimônio não sabe. Onde termina? Antimônio não sabe. Que cidades ela cruza? Quão distantes umas das outras ficam essas cidades? Conseguirá ele achar comida ou quem lhe dê comida todos os dias durante a viagem para onde a estrada o levar? Comida e água? Lugares seguros para dormir? Antimônio não sabe. Ele não sabe de nada. Na verdade, fora eu, Frigdiano Carlos, ninguém aqui sabe de nada. Até o autor da história, Esperaldo Grudes, está perdido: escreve uma coisa pela manhã e outra que não tem nada a ver com a primeira à tarde. Muda tudo, outra vez, à noite.

Os donos dos porcos e os seus parentes próximos não morreram, como os pais de Antimônio, mas se mudaram para Guaratinguetá. Existe uma lei que proíbe quem se muda para Guaratinguetá de levar porcos. Mário e Suzano são os seus nomes. Não têm sobrenomes, são porcos, já é muito que tenham nomes. Se fossem porcas, seriam Maria e Suzana e, aí, a nossa história teria velhíssimos segredos de alcova sendo, afinal, revelados. Porcas dominantes, posições sexuais inusitadas, beijos gregos, abraços troianos, troca de casais, farras homéricas ...

No começo da viagem, caminhando com o menino e os porcos, havia a galinha Clotilde, de quem eu prometi falar. Ela morreu após ter lido a obra completa de um filósofo francês contemporâneo. Foucault? Deleuze? Althusser? Um desses, provavelmente. Galinhas não leem, com poucas exceções. Ou, se leem, não entendem o que leram. Nesse ponto, são como nós. Antimônio também não lê. Nem ele, nem os porcos. Os leões, sim, são leitores vorazes de uma carne crua ou mal passada.

A galinha tem uma história triste. Não por ter morrido. Todo mundo morre. Ela tem uma história triste porque foi traída pelo namorado, o galinho Teócrito. Bicho safado, trocou Clotilde por uma caixa de giz. Ser trocada por uma caixa de giz, nos dias de hoje, é pau. Pra que serve uma caixa de giz, Teócrito? Ninguém mais usa giz pra coisa nenhuma.

Antigamente, sim. Os professores terminavam as aulas brancos de giz. Quanto mais sujos, mais reconhecidos no mundo acadêmico eles seriam. Alguns conseguiram virar doutores só por apagar com gestos bruscos o que tinham acabado de escrever no quadro negro. Hoje, isso não acontece. Se Teócrito tivesse ficado com a galinha Clotilde, todos estariam falando bem dele. Turrão, preferiu a caixa de giz.

Mas, não só de descrever personagens vive um conto bem contado. Até aqui, é como se nada tivesse havido na viagem de Antimônio. Não foi assim: muitas coisas aconteceram com o menino que se tornaria rapaz antes de terminar esta jornada. Por exemplo, num dia de verão, aí pelo terceiro ano, houve episódios notáveis, que eu relembro agora.

Meio dia em ponto. Sol forte. Uma árvore frondosa à beira da estrada. Antimônio para de caminhar. Dorme um pouco, à sombra. Ele e os porcos. Todos têm fome. Dormir é bom, quando se tem fome, mas o sono não dura muito. Logo, Antimônio acorda. A árvore é uma mangueira. É época de mangas. Há algumas caídas no chão. Os porcos as comem, Antimônio faz o mesmo. Então, aparece o dono da terra e manda todos irem embora. O homem tem uma espingarda. Depois de defender as suas mangas derrubadas no chão, ele vai invadir a Venezuela. Ou Cuba. Ou o Ondequistão. O menino pega de novo a estrada. Ele, agora, tem nove anos. Veja como esta história corre rápido.

Nesse mesmo dia, pela primeira vez, os leões sentiram o cheiro dos porcos. De Mário, principalmente, que se tornara mais gordo do que Suzano, por causa da alimentação desbalanceada deste último. (Era uma gordura relativa.) O cheiro vinha de longe. Não existem leões nas redondezas, exceto na imaginação de um escritor alucinado que precisa deles para tirar o sossego dos porcos. As feras importadas tinham acabado de sair do cinema, onde comeram pipoca e assistiram a um filme sobre a monarquia leonina. Acharam horrível.

Dez léguas à frente do lugar onde dormira e comera mangas, Antimônio comemorou dois aniversários de uma só vez. Então, com a idade de onze anos, ele chegou a uma bifurcação na estrada. “Vou para a direita ou para a esquerda?”, pensou. Apesar de ainda ser

tão novo, já possuía boas noções de Geometria. Teria preferido ir pelo centro. Só não foi porque não havia estrada nessa direção. Onde já se viu isso? As estradas deviam servir às pessoas, não o contrário.

Nem eu sei qual escolha o menino fez, pois o voto é secreto. Os porcos o seguiram. Um porco chateia muita gente; dois porcos chateiam muito mais. Antimônio, contudo, os tolerava bem. Os três conversavam, às vezes. A galinha não os seguiu, pois já tinha morrido, embora fosse sempre lembrada. Todos os dias, ele e os porcos rezavam por sua alma, a alma da galinha. Faziam-lhe promessas, pediam a Clotilde que lhes mandasse pelo delivery um frango assado para eles comerem. Não os porcos, claro. Esses queriam um tonel de alface podre.

Instalada na ouvidoria do céu das galinhas, Clotilde ouvia e anotava os pedidos. Ouvia e anotava, mas não podia fazer nada. Fazer era com a fazedoria. E a fazedoria estava em greve há seis meses. Sabe quantas semanas isso dá? Clotilde não sabe. Ela continua a ouvir e a enviar para as instâncias superiores os pedidos vindos da estrada. Coisíssima nenhuma acontece depois disso. A burocracia no céu das galinhas é infernal.

Quando a noite caía (e ela caía de tão alto que, se fosse mais velha, teria quebrado a perna), Antimônio e os porcos se deitavam para dormir, sem temer os leões. Mesmo porque, não havendo feras terríveis conhecidas naquelas bandas, por que diabos eles iam ter medo de leões? Tudo bem, portanto, que Antimônio e os porcos dormissem ao relento, sem aomenos acender uma fogueira. Se esse era o gosto deles, temos de aceitar.

Enquanto isso, os leões seguiam o menino e os porcos. Agora, estavam tão próximos que podiam ver a caravana dos três. Mas, ainda não tinham esquecido o cheiro das pipocas no cinema. Nem o enjoo que o cheiro lhes causara. Tomaram Buscopan em gotas, que é melhor do que em comprimidos. (Acho que o efeito vem mais rápido.) Quando o enjoopassou, era tarde. Antimônio e os porcos já tinham voltado a caminhar na estrada e estavamfora do alcance dos leões.

No dia seguinte, ou seis meses depois, os três caminhantes avistaram um homem mal vestido vindo ao seu encontro. “Sou o oráculo de Delfos”, ele disse, dirigindo-se a Suzano. “Decifra-me ou eu te devoro”, falou. O porco não entendeu. Ele conhecia outra história, na qual o oráculo prevê que Édipo vai matar o pai e dormir com a mãe, a mãe de Édipo, quero dizer. Isso, séculos antes de Segismundo Freud ter ganhado fama difundindo essas mentiras.

“Não teria sido a esfinge de Gizé quem disse decifra-me ou eu te devoro”? Suzano perguntou ao homem mal vestido. O oráculo de Delfos maneou a cabeça, ou seja, disse não. Antimônio apoiou o porco em sua pergunta, com o que se formou uma maioria simples no

Parlamento. Nesse instante, a sessão na Câmara dos Deputados foi interrompida pela notícia de que os cuscuz com ovos tinham ficado prontos na cozinha. (Eu nem sabia que alguém estava preparando cuscuz com ovos na cozinha. Na verdade, não há cozinhas naquela estrada.)

Interrompida ela foi, a sessão, mas logo retomada, em meio à maior balbúrdia. Eram tantas assertivas e negativas que ninguém se entendia. Nesse ponto, Suzano interrompeu a

conversa, pois os leões tinham chegado e estavam pondo a mesa para comer o outro porco. Antimônio tentou negociar com os felinos. Não houve acordo, mas houve reação e os leões se retraíram. Mas, não foram embora.

À noite, a estrada adormeceu enquanto os cuscuz com ovos cruzavam os ares e o oráculo de Delfos devorava o leão tabelião que tinha acabado de reconhecer a firma de Antimônio Ferreira, menor de idade, mas já crescidinho. Depois do que, cada um tomou o seu caminho: o oráculo foi para o leste, Antimônio e os porcos para o oeste; os leões disseramnque iriam para o norte, mas estavam mentindo. A galinha Clotilde ficou onde estava, pois já tinha morrido.

Três anos mais tarde, em meio à maior seca, choveu muito no caminho do menino e dos porcos. Antimônio viu a água subindo, subindo e os peixes chegando, chegando: pirarucus com suas balanças, para mostrar que pesavam 300 quilos; surubins, pescadas, ciobas, cavalas, albacoras, filhotes, atuns ... todos exibindo as etiquetas com os preços tabelados pelo governo; milhões e milhões de águas-vivas mortas; o barquinho vai, a tardinha cai; caranguejos, siris moles, reclamações generalizadas contra a carestia, a água subindo, os peixes chegando. Não era, ainda, o Oceano Atlântico, que Antimônio só conheceria muito depois, mas já era um bocado de água.

Nessa mesma cheia, o menino aprendeu o nado borboleta. Não lhe foi difícil, pois havia tantos peixes naquele rio que Antimônio cruzou-o em tempo recorde, simplesmente se escorando nos pirarucus, nas piraíbas, nos siris moles e nos cogumelos flutuantes. Por sorte sua, milhares de borboletas acompanharam-no desde o alto, incentivando-o a continuar e lhe corrigindo as braçadas, quando ele mudava de estilo e passava a nadar cachorrinho. Quando as águas finalmente baixaram, Tonho achou difícil reencontrar a estrada por onde ele continuaria a seguir seu rumo.

O tempo passou. Agora, Antimônio tem 15 anos. Dezesseis, para ser mais preciso. Tornou-se um rapaz pensativo. Na verdade, desde quando tinha sete anos de idade, ele se perguntava se o mundo todo era só aquilo: ele mesmo, a estrada sem fim, dois porcos, a lembrança da galinha Clotilde, leões querendo comer os porcos, o oráculo de Delfos, a fome, a viagem para onde a estrada o levasse, a sombra das mangueiras cujos donos tinham

espingardas. É claro que ele havia visto preás, tatus e formigas, um ou outro cavalo baio, cabras e bodes, o sol escorchante matando-o de calor, a lua, a chuva ... Também imaginava como seria o céu das galinhas. (Antimônio sabia rezar Ave Maria que estás no céu das galinhas.) Mesmo assim, era um mundo pequeno e fácil demais para ser verdadeiro.

Nisso tudo ele pensava, o menino, sem nem saber que estava pensando, quando aconteceu algo muito sério: fui surpreendido por uma mensagem de Esperaldo Grudes avisando que tinha desistido de terminar esta história. “Está uma merda e eu não sei como salvá-la”, ele disse. Fiquei perplexo. Instei-lhe a mudar de ideia, pois, àquela altura, muita gente queria saber como Antimônio terminou as suas idas sem vindas. Eu quero. Dois ou três leitores que a gente encontre por aí também querem. Grudes não cedeu. Ameacei-o, então, de ir à Justiça cobrar meus direitos. E os esquerdos, também. Multa rescisória, 40 por

cento do FGTS, aviso prévio, adicional de periculosidade, horas extras, desvio de função, três meses sem ver minha mulher. É batata: ficarei rico.

Quando fez as contas, Esperaldo viu que ia se lascar e completou a história, embora de um jeito mal alinhavado. Arranjou um emprego para Antimônio Ferreira, livrando-o daquela estrada sem fim. E a namorada com quem o ex-menino, talvez, venha um dia ou uma noite a se casar. Obrigou os leões a comerem os porcos, conforme sempre disse que eles fariam. Mandou a galinha Clotilde fazer o concurso para juíza de Direito, na cota dos candidatos mortos de origem avícola. Se ela passar, vai ter um bom salário, acrescido daqueles enfeites todos. Quem sabe, um pouco dessa abundância não sobra para mim, Frigdiano Carlos? Sempre gostei de galinhas.

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