3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gilberto Arsiolli (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Gilberto Arsiolli (Três Lagoas, MS) é escritor e graduado em Direito pela USP. Atuou no ensino de línguas e trabalhou em Manaus (5 anos) e Macapá (1 ano e meio). Atualmente, cursa Letras na UnB. É autor dos romances "Volte Quando o Eco Acabar" e "Capitolina - Memórias Pervertidas" e do livro "Poemas para Assistir ao Fim do Mundo".
O TEXTO:
1867
Nunca vi rastro de cobra
nem couro de lobisomem
Se correr, o bicho pega,
se ficar, o bicho come
Porque eu sou é homi
porque eu sou é homi
Menino, eu sou é homi,
menino, eu sou é homi
E como sou
8 de maio de 1867
Laguna não é vila. Forno, matadouro, casa de moer gente — chame do que quiser. Vista de dentro, sob cerco, ela se dobra sobre si mesma, bicho acuado. As casas vazias viraram posto; porta arrancada virou barricada; telha quebrada, estilhaço. O cheiro é de pólvora, couro velho e água parada.
O terreno, que parecia favorável quando entramos, agora se mostra enganoso. Baixo demais para dominar, aberto demais para esconder. A rua principal vira corredor de tiro; os fundos das casas, trincheira curta. Fizemos parapeito com o que havia: sacos rasgados, móveis quebrados, adobe esfarelando na mão. Cavamos covas rasas para deitar homem e esperança.
Encostado na parede grossa de uma casa sem dono, enquanto a artilharia insistia — Laguna já estava sitiada — comecei a escrever. Entre um estampido e outro, conferi o cantil, contei cartuchos, reaprendi onde cabia o corpo. Do lado de fora, rodavam as sentinelas em turno curto: duas horas e troca, porque o olho também cansa e, cansado, trai.
As balas vinham de todos os lados, mas o pior vinha de dentro: o intervalo mudo entre um disparo e outro, o momento em que a gente percebe que ainda respira e isso dá trabalho. Quando caem as primeiras telhas, ninguém filosofa: empurra o ferido para trás daparede, recalca o reboco com a palma, muda de cômodo.
O coronel não gritava. Nunca vi Camisão gritar. Dava ordem curta, como quem raciona fôlego e autoridade: “fecha as portas”, “abre as janelas”, “ferva água”, “queima trapo”, “tira o doente do canto”. Mandou separar os febris, improvisar latrina longe da cisterna, queimar o que parecia apenas sujeira.
Acreditamos.
No começo, Camisão também acreditava. Não falo de fé religiosa — falo de uma crença mais dura, quase seca: a de que o Império podia organizar qualquer coisa com mapa, postura e disciplina. Vi-o riscar no chão, com carvão, um desenho tosco de ruas e pontos: ali guarnição, ali recuo, ali depósito de pólvora. O gesto era simples, mas vinha com a teimosia de quem tenta manter o mundo em linha reta.
Naquela hora, vi nele algo difícil de nomear sem errar: não era vaidade, mas também não era humildade. Era um orgulho que se manifesta em pequenos procedimentos — conferir uma porta, ajustar uma sentinela, recolher um saqueador pelo colarinho. Quando o medo cresce, ele respondia com método.
Às vezes penso que Camisão se parecia com aqueles homens antigos que avançavam pelo mato sem saber se voltariam, certos de que a vontade sustenta o corpo. Aqui, a vontade sustenta por minutos. Depois, o corpo cobra em febre, diarreia, tremor, olho perdido.
Quando Laguna caiu fácil demais, houve um silêncio estranho entre nós. Alguns riram. Outros saquearam. Camisão mandou cessar. Recolheu armas, fechou armazéns, proibiu bebida fora de hora — tentou separar guerra de desordem. Hoje vejo: aquele “cessar” era a última sombra de controle.
Agora, cercados, vejo Camisão de outro modo. Ele anda menos. Quando desmonta, demora um segundo a mais para firmar o pé. O corpo começa a cobrar aquilo que o dever não negocia. Mesmo assim, ele continua se movendo de posto em posto, olhando o reboco, a munição, o rosto dos homens — como se cada verificação segurasse um pedaço da linha.
Nós sete — aos quais ele mais recorria, não por preferência, mas por necessidade — ficávamos mais perto. Um rodava água, outro munição, outro recado; dois vigiavam; um carregava ferido; eu anotava quando dava. Entre nós havia uma confiança pobre, feita de repetição e falta de escolha.
Camisão não via os paraguaios como homens. Via-os como obstáculo histórico. Talvez esse tenha sido seu erro mais humano. Aqui, porém, o obstáculo aprende o seu nome e o pronuncia com bala.
A artilharia recomeça. Camisão está lá fora, de pé, insistindo na postura como se postura segurasse parede. A cada impacto, o adobe cospe pó; a cada pausa, alguém corre, leva água, puxa um corpo para trás. Olho para ele e não sei se é coragem ou apenas continuidade.
Fecho o caderno. Se eu morrer, que alguém leia. Se eu viver, continuo.
9 de maio de 1867
A artilharia não cessou a noite inteira. Rabisco encostado na mesma parede de adobe, agora mais rachada, com a tinta tremendo ao ritmo do estampido. Fizemos vigia em revezamento; quem saía voltava com a cara branca de pó e cansaço. De madrugada, dividimos um resto de farinha e água morna. Ninguém comentou o gosto.
Aramirã é o primeiro. Alto, largo, peito em forma de escudo, barba cerrada que nunca conheceu lâmina mansa. Carrega o que pesa sem reclamar: caixa de munição, saco de farinha, homem desacordado. Quando fala, é para cortar: “agora”, “anda”, “não”.
Borba Ava’ẽ, o segundo, traz o nome cristão como herança distante e o apelido como verdade presente. Olho miúdo, mão inquieta. Conta tudo: cartucho, passo, minuto. Quando falta, ele não lamenta — ele redistribui. À noite, dorme pouco; de manhã, parece que já estava acordado há horas.
Jaguaretê é o terceiro. Baixo e compacto, músculos curtos e densos, troncudinho, de sela e mato. Some e reaparece com informação curta: “tem movimento”, “tem fogo”, “tem água adiante”. Não gosta de ficar parado. Nem ele, nem seu cavalo Naurú.
Francisco Kuaray, o quarto, é pequeno e ágil, de pernas fortes e passo leve. O rosto fechado engana: é ele quem vai e volta com recado, quem acha passagem onde não há, quem atravessa rua aberta correndo no momento certo. Quando chega, não narra. Entrega. E pronto.
Morotĩ é o quinto. Claro de pele, cabelo ralo, bigode fino que ele alisa quando está nervoso. Guarda no bolso um punhado de sal e um rosário sem contas completas. Fala pouco. Quando fala, costuma ser tarde — e, ainda assim, ajuda. É o que fica perto dos febris sem fazer cena.
Joaquim Pitanga, o sexto, tem o rosto queimado de sol e um riso fácil demais para o lugar onde estamos. O riso dele não é alegria; é defesa. Ajuda a manter o fogo baixo, faz a água ferver quando há lenha, corta couro para virar sopa. Quando alguém cai, ele xinga e puxa pelo braço — como se o insulto fosse corda.
O sétimo sou eu. Chamo-me Quincas. O apelido, Ñe’ẽ, veio depois — os outros dormem, a palavra fica acordada. Escrevo porque não sei carregar de outro jeito. Às vezes, quando falta papel, escrevo na cabeça e espero não esquecer.
O cerco aperta. A fome começa a escolher rostos. E aquilo que viemos buscar — tecido antigo, guardado por povos que sabiam mais do que diziam — passa a parecer menos objeto e mais isca. O que está lá fora não é só inimigo: é tempo, é lama, é doença rondando a ordem.
Se eu sair daqui, estas páginas ficam. Se não sair, que se saiba: não foi só o inimigo que nos cercou. Foi uma ideia grande demais para caber em corpo pequeno.
12 de maio de 1867
Preciso registrar o que até ontem eu empurrava para o canto do pensamento. A ordem não nasceu aqui. Nunca nasceu. Veio de longe, em papel dobrado, lacre apressado, mão suja de viagem. Chegou antes do amanhecer com um mensageiro exausto e uma assinatura que ninguém ousa discutir.
Chamavam-no entre nós por vários nomes – Arandu, Capuz Dourado, Anka-Açú, Capa de Pomo. Nomear servia para domesticar. Mas o objeto não se deixou: tecido antigo, custo antigo, promessa antiga. Não era só peça. Era chamado.
Camisão recebeu a ordem e ganhou um peso novo. Dobrou o papel com cuidado excessivo e guardou junto ao peito. Mandou separar homens e função: quem carrega, quem vigia, quem corre, quem volta. Contaram cantis, contaram cartuchos, escolheram duas mantas para ferido e um saco de farinha que já não era inteiro. Desde então, a retirada começou dentro da cabeça antes de começar no chão.
O primeiro desvio aconteceu sem cerimônia, e talvez por isso tenha sido tão perigoso. Uma patrulha voltou trazendo água de um poço que ninguém conhecia direito. Vieram com o balde cheio e a pressa nos olhos. Não ferveram. Não esperaram. Distribuíram como se fosse salvação.
A água tinha gosto de barro velho e culpa nova. Ninguém comentou. Mas algo se quebrou ali: pela primeira vez sobrevivemos fora do método. O corpo aceitou, a disciplina não.
Desde então, Camisão mudou. Não no físico — no olhar. Os olhos, antes atentos ao terreno, passaram a procurar sinais onde não havia. Começou a conferir lacre, a cheirar pano, a guardar o papel mais perto do coração do que a medalha. Dormia sentado, com a mão na cintura, como se o que ameaçava fosse roubo invisível.
Vi-o uma noite ajoelhado sobre o mapa, riscando com carvão linhas que não levavam a lugar nenhum. Murmurava nomes, datas, distâncias em léguas — e depois apagava com o polegar sujo, recomeçando. A manobra já não era só contra o inimigo: era contra o acaso.
Entre nós, os sete, o clima não se manteve. Aramirã ficou mais brusco e passou a afiar a faca como quem faz oração. Borba contava e recontava, como se o número pudesse impedir a falta. Jaguaretê sorria menos e sumia mais. Francisco voltou mancando de uma ida curta. Morotĩ rezava em voz baixa para ninguém ouvir. Pitanga fez uma piada e ninguém respondeu. Eu escrevo e sinto a palavra pesar.
Não sei mais se cercamos Laguna ou se fomos cercados por aquilo que viemos buscar. Sei apenas que a ordem imperial, brilhando limpa no bolso de Camisão, não parecia mais comando: parecia dívida.
18 de maio de 1867
A doença entrou antes de bater. Veio sem bandeira, sem tiro, sem aviso. Veio pelo ar parado, pela água parada, pelo tempo parado. Primeiro foi a sede que não passava com a água — a boca molhada e o resto seco. Depois, a água passou a doer. Em seguida, as entranhas começaram a se esvaziar, como se tivessem esquecido para que servia reter.
Laguna se dividiu em espaços, e cada espaço ganhou sua cor. Não por escolha — por causalidade.
A casa do fundo, onde a sombra não alcança, ficou amarela: ali os febris tremiam até perder o nome. A sala estreita, sem janela, ficou verde: vômito, bile, o cheiro ácido da vida tentando sair. O corredor virou branco de cal e pano sujo: ali se limpava o que não se limpa. O quarto da frente, onde ainda se conversava, era violeta — cansaço profundo, sem dor, sem esperança. Do lado de fora, o pátio ficou negro: os que não voltavam.
A cólera ensinou rápido. A diarreia não pedia licença; a disenteria roubava o sangue; o mal do charco chegava febre baixa e saía sentença. A fome não gritava — convencia. A sede ensinava a engolir qualquer coisa. Aprendemos a beber o que antes recusávamos. Aprendemos a dividir o que não tínhamos. Aprendemos, sobretudo, que a matéria viva não negocia com ideias.
Camisão tentou organizar o inevitável. Estabeleceu turnos, isolamentos, ordens curtas. Mandou isolar, ferver e descartar tudo: até a última lenha. Pensamos, por instantes, ser possível conter a peste.
Depois, a doença atravessou a ordem, sem pedir explicação.
Vi Aramirã tremer criança. Vi Borba falar com o chão, pedindo trilhas que não existiam. Jaguaretê ficou quieto demais. Kuaray trouxe água uma vez e voltou com os olhos vazios. Morotĩ parou de explicar. Pitanga não riu. Eu tive a sensação clara de que palavra também adoece quando tenta abarcar o que não cabe.
A doença não escolheu. Não respeitou patente, força, astúcia. Entrava num homem e saía de outro, mudando de quarto. À noite, o intervalo era cortado por gemidos secos, passos apressados, um respirar que falhava e depois cessava. Ninguém usava máscara; a própria noite era a máscara.
Camisão passou a evitar o centro da vila. Caminhava pelos limites, tentando empurrar a peste para fora com a postura. Os olhos, antes presos ao mapa, agora miravam o vazio. Falava pouco. Quando falava, era para manter o ritmo — qualquer ritmo — porque acreditava que andar impede o colapso. Mas a doença não anda; espera.
E, nesse buraco de vigilância — aberto pela febre e pelo cansaço —, o inimigo voltou a lembrar que nossa miséria não tinha ido embora.
Naurú foi atingido por duas balas e caiu. Os soldados queriam comer sua carne, mas desistiram quando viram Jaguaretê deitar-se junto do corpo de Naurú, a Winchester atravessada nas costas. Não temiam exatamente o rifle. Recuaram.
Na madrugada, a febre atingiu o número que não se esconde mais. Os mortos ocupavam o pátio negro. A lenha acabou. A água ferveu pela última vez. O Qori Unku — esse nome que pesava promessa — calou-se entre nós. Já não justificava nada. Já não explicava nada. O Império, distante, não sentia sede.
Camisão chamou os sete. Não havia voz de comando; havia fadiga lúcida. Disse apenas o que tinha que ser ouvido. Disse que a vila não nos protegia; nos consumia. Disse que ficar era morrer em quartos de cores diferentes, mas com o mesmo fim. Disse que marchar seria morrer andando — e que, mesmo assim, andar era escolha.
Ninguém discutiu. Não houve discurso. A decisão foi aceita do jeito que se aceita a chuva quando já se está molhado.
A retirada não nasceu do medo do inimigo, mas do reconhecimento da matéria. Não foi estratégia; foi instinto tardio. Fecho o caderno com as mãos fracas, sabendo que a doença ficou. Sabendo que ela vai conosco. Mas sabendo também que o primeiro passo para fora daquele labirinto colorido foi o primeiro gesto que ainda nos pertenceu. Amanhã, ao amanhecer, partimos.
24 de maio de 1867
Saímos antes do sol. Não houve toque, nem palavra maior. Cada um juntou o que restava e amarrou do jeito que deu. O que não cabia no corpo foi para as carretas: munição de boca, pólvora embrulhada em couro, panela amassada. A vila ficou para trás sem protesto. Laguna não pediu despedida. Parecia satisfeita em nos ver ir. E o que se ouvia era o rangido das cangas no escuro.
Marchamos em fila curta. Os que ainda tinham força iam à frente. Os outros vinham atrás, regulando o passo pela respiração — e pelo dos bois, que puxavam o peso e marcavam o ritmo. O chão estava duro de seco por cima e mole por baixo. O pé afundava sem aviso. Quem caía, levantava se pudesse. Quem não podia, ficava olhando. Ninguém tinha ordem para parar; atrás, as carretas não paravam por ninguém.
O inimigo não atacou de imediato. Observava. A retirada é espetáculo paciente. Vi nisso uma lógica de tabuleiro: sacrificar peça miúda para ganhar terreno no centro. O Paraguai nos jogava com paciência. Quando o campo abria, a cavalaria aparecia na borda, rondava, sumia. E a coluna, por instinto, encolhia: baionetas para fora, carretas e gado no miolo, feridos no meio.
Camisão seguiu montado no início, depois passou a andar. O cavalo cansou antes que ele. Caminhava ereto, mesmo quando a postura já não ajudava. Dava ordens curtas precisas: Direita. Água. Esperar. Seguir. Falava pouco porque o fôlego também é munição. Às vezes parava, erguia a luneta, e o horizonte virava relatório. O rosto estava fechado, a barba suja, os olhos fundos. Mantinha o ritmo, argumento sustentado por pernas e teimosia.
A fome veio cedo. Não a grande, mas a pequena — a que belisca e distrai. Depois veio a outra, a que pesa. A ração já vinha contada: um punhado de farinha na palma, um naco de charque, e o resto era invenção. Comemos o que havia. Raízes arrancadas à pressa. Um pedaço de couro fervido. Um peixe pequeno demais para dividir, mas dividido. A água era pouca. Quando achávamos, bebíamos mesmo assim. Pureza deixou de ser assunto.
O terreno se abriu em descampado e se fechou em mato ralo. O sol subiu rápido. O suor secava antes de cair. As moscas aprenderam o caminho. Os urubus também. Vi um pousar perto demais e ninguém espantar. O bicho nos olhou, conferindo agenda.
Aramirã seguia calado, respirando pesado. Borba perdeu o rumo duas vezes e depois acertou sem explicar. Jaguaretê carregou um ferido até onde pôde e depois largou, sem palavra. Francisco trouxe água uma vez e voltou mancando. Morotĩ caminhava repetindo números, talvez contas, talvez preces. Pitanga ainda fez uma piada curta, sem riso. Eu registrava quando dava, mais na cabeça do que no papel.
A tropa foi se desfazendo em partes. Primeiro o fundo atrasou. Depois o meio se esticou demais. Tinhoso foi o próximo a nos deixar. Morotĩ foi tomado pela desmedida e parou. A frente teve de parar. Esperar custava caro. Votamos. Morotĩ não aceitou o resultado e foi deixado pra trás.
À tarde, o chão começou a subir. Pequena elevação. Não era morro, mas parecia promessa. A terra ali era vermelha e quebradiça. Barro seco que vira pó. O vento levantava aquilo e jogava nos olhos. Pisávamos em pegadas antigas, humanas e de bicho, misturadas. A paisagem não ajudava nem atrapalhava. Apenas não se importava.
Camisão parou uma vez. Olhou para trás. Não contou. Contar não mudaria nada. Apenas assentiu. Mandou seguir.
À noite, fizemos fogo baixo. Pouca lenha. Pouca fala. Dormir era favor raro. Alguns deliravam. Outros ficaram acordados sem motivo. O céu estava limpo demais. As estrelas pareciam indiferentes, bem arrumadas. A terra respirava quente. Um inseto caminhou sobre meu caderno e deixei. Ele também marchava. Pensei, por um instante, que retirar-se era apenas continuar andando com outro nome. E que o que nos empurrava já não era a ordem, nem o objeto, nem o inimigo: era a vida tentando não cair antes da hora.
Ao amanhecer, retomamos. A coluna estava menor. A retirada seguia. Camisão insistia, irretornável. E enquanto ele insistia, o restante irretornava com ele.
29 de maio de 1867
Camisão morreu andando. Não foi de tiro, não foi de lâmina. Morreu do que já vinha nele havia dias: febre baixa que não cedia, água que não ficava, força que não voltava. O homem foi ficando curto para o dever. Ainda assim, continuava.
Naquela manhã, levantou-se antes dos outros. Amarrou o cinturão com cuidado — mais para segurar a farda folgada do que para sustentar o corpo. Ajustou o chapéu. Mandou seguir. A voz ainda saiu firme, embora diminuindo de tom. Caminhou alguns passos e parou. Não caiu. Parou, conferindo se o chão ainda estava ali. Estava.
O sol já batia. A poeira subia pouca. O vento não ajudava. Camisão tentou avançar mais uma vez. Deu dois passos. Falhou. Ajoelhou-se. Não pediu ajuda. Olhou para o horizonte, ainda tentando decidir alguma coisa. Chegamos perto. Ninguém falou.
Ele respirava curto. O suor frio escorria pela testa e se perdia na barba. Os olhos, antes atentos, agora estavam fundos e claros, olhando sem procurar. Tentou falar. Não saiu. Tentou de novo. Saiu pouco.
Disse para não parar. Disse para seguir o rumo marcado. Disse que a coluna não podia quebrar. Disse que o Imperador… Disse também que canhões e bandeiras não podiam ficar.
A mão direita afundou no chão. A esquerda segurou o mapa dobrado dentro da camisa, num estojo de couro. Não soltou. O peito parou sem aviso. Não houve espasmo. Não houve grito. A morte foi seca. Do feitio dele.
Ficamos ali um instante a mais do que o necessário. Aramirã fechou-lhe os olhos. Borba murmurou alguma coisa que não entendi. Jaguaretê ficou de pé, olhando para longe. Francisco fez o sinal da cruz rápido. Pitanga não riu. Minha mão não obedecia. Um dos cabos da coluna foi atrás de Morotĩ, que voltou o mais rápido que pôde, olhos vermelhos e mareados, dividido entre o luto por Tinhoso e Camisão.
Enterramos Camisão ali mesmo. Terra dura. Pouca profundidade. Pedra e barro. Não havia cerimônia. Não havia madeira. Não havia discurso. Colocamos o corpo de lado, deitando alguém cansado. Nossas mãos amassaram nacos de terra antes de jogá-la sobre nosso coronel. A terra caiu pesada. O chão recebeu sem reclamar.
Alguém perguntou quem assumia. Ninguém respondeu. A pergunta não ajudava. Seguimos. A coluna andou mais leve e mais pesada ao mesmo tempo. Leve porque o corpo de Camisão ficou. Pesada porque o fardo que ele carregava passou para nós sem escolha. O mapa já não mandava. Ainda assim, o passo obedecia.
Pensei, enquanto caminhava, que Camisão foi um homem inteiro até onde a matéria permitiu. Não foi herói. Não foi mártir. Foi comandante. Cumpriu até não caber mais. A morte não o desmentiu; interrompeu. O chão fechou sobre ele. O vento passou. Um urubu desceu longe. A marcha continuou. A mão treme. Ainda contorno as letras. Mas fomos adiante. Porque agora, mais do que nunca, parar seria mentir.
11 de junho de 1867
A guerra já não precisa de mim para continuar sendo guerra: depois do barulho, depois da febre, depois da pressa, o que restou foi um entendimento lento, desses que não se impõem — insistem.
A guerra não é um acontecimento; é um estado. Começa antes do primeiro tiro e persiste depois do último. Ela entra nos hábitos, no modo de olhar, no modo de calar. Não termina quando os homens voltam; termina quando já não sabem voltar.
Penso em Camisão agora sem a urgência do comando. Ele acreditou numa ideia grande demais para um só homem. Não foi exceção; foi regra. A batalha pede gente assim: inteiro por dentro e gasto por fora, disposto a sustentar uma coerência quando o mundo já desistiu.
Camisão não enlouqueceu de repente. Foi se estreitando; a obstinação virou modo de manter o sentido. Quando o sentido falha, o organismo cobra. O destino dele não foi singular: apenas ficou visível. Muitos morrem do mesmo jeito: não no choque, mas no prolongamento. A guerra tira primeiro o sono, depois o apetite, depois a coragem de imaginar; só então a carne. O erro é chamar isso de sacrifício. Sacrifício pressupõe escolha. Aqui houve continuidade.
O Pantanal e o Chaco não nos odiaram. Tampouco nos acolheram. Fizeram o que sempre fazem: existiram. Terra plana, água enganosa, calor que não discute. O chão não julga o invasor; cobra. Cobra água, cobra força, cobra tempo. O resto passa mancando, levando o que aprendeu sem querer.
A guerra não cria homens novos; revela os que já estavam ali. Uns endurecem. Outros quebram. Alguns escrevem. Heroísmo é adjetivo tardio, inventado longe do cheiro. Aqui, a coragem foi dividir água ruim. A lealdade foi esperar quem não voltaria. A covardia foi não virar a cabeça quando o outro caiu. E sobreviver, descobri, também pesa.
Penso nos que ficaram. Não como mortos, mas como interrupções. Vidas, planos, ideias. A guerra interrompe. Camisão foi interrompido no gesto de seguir. Nós, no gesto de acreditar. O Império, distante, continuou inteiro, e seguiu sem sentir nossa sede. Aqui, ficamos menores e mais exatos.
Se algo aprendi, foi isto: não há glória que atravesse a matéria viva sem deformá-la. As palavras grandes não passam pelo intestino, não aliviam a sede, não seguram o tremor. Servem depois, para organizar o esquecimento. O Pantanal continua. O Chaco continua. A água sobe e desce. A terra racha e fecha. Os bichos retomam os caminhos. A guerra passa como febre: deixa marca que aparece quando a gente tenta dormir.
Escrevo para que não se diga que não sabíamos. Vou fechar o caderno. Não por ter acabado o que dizer, mas porque prolongar seria amarrar a guerra dentro da palavra. E contra isso, não vou lutar com essas armas.
Nota: embrulhei os cadernos em pano cru, um a um, e enfiei na pasta de couro escuro. Derreti a cera com a ponta da faca; a gota ficou grossa, malfeita, mas pegou. Apertei o barbante até ele ranger, como nervo esticado. Desconfie se o lacre estiver rompido, ou se houver marca de unha.
Os diários devem ser entregues em mãos apenas ao Senhor Taunay e/ou ao próprio MSS Nabuco de Araújo. Fecho a tampa e torno a lacrar. Sobe um cheiro de tinta ferrogálica.
Quincas (Ñe’ẽ)





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