3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gabriela Soutello (Categoria Conto)

SOBRE A AUTORA:
Gabriela Soutello é escritora e jornalista. Forbes Under 30, é autora dos livros “Trapaceira” (2026) e “Ninguém vai lembrar de mim” (2019) - vencedor do Prêmio Mix Literário, do Festival Mix Brasil. Psicanalista em formação, é curadora da antologia “Antes que eu me esqueça - 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje” (2021), e possui contos em diversas coletâneas, revistas e portais literários. Já trabalhou para a Revista Cult, para a Quatro Cinco Um, para a Deutsche Welle Brasil, na Alemanha, para a Netflix e para a Deezer, sempre imersa no universo da palavra, da arte e da cultura.
O TEXTO:
Fagulha espasmo incêndio convulsão
Jogo de corpo, eu e ela, combinamos: do outro lado do Elevado, próximo ali onde ficam as putas e os bichos e as bichas e as butches, vamo?, os corpos em trânsito, todos andróginos e bastante desgastados, tipo a gente assim quando rasga no dedo e molha e lambe, depois ri, lembra daquele velho que falou alto: deviam morrer, e lembra do Caio, que apanhou na semana passada, ri de novo maior, porque só assim, só no risco, senão nada, né, senão nem sai de casa, vamo?, a cidade toda poros, prelúdio de chuva, neblina névoa de ressaca constante, mesmos tons de sujo, mas sempre um vento novo: hoje mais frio, quatro graus abaixo, hoje as nuvens quatro camadas mais perto, hoje nós quatro, derrapando paralelos na arquitetura espaço asfalto quente do centro de São Paulo, suburbanas nossas solas, queimando os passos, habilidade de quem sabe que correr é sempre destino certo; vamo? os carros mais apressados, cientes: choveria, e nossos braços peitos pernas tornozelos em fluxo incontível, vibrando em febre, existindo em bando; mais quanto tempo na cidade?, ela me perguntou, rindo um riso desesperado, e eu sei lá, eu sei lá, eu respondi enquanto olhava seu cabelo e seu colo e a curva da sua bochecha num filtro misto de repulsa e apego, ela inteira metrópole, eu toda sustos, e nós duas nos olhando dentro do olho, invasivas, mas não com força demais, para não aumentar o grau das nossas lentes, já definidas, já sabidas da distância exata necessária, o suficiente exato perto e o suficiente exato longe; o Caio começou a explicar por que é que a dobra logo abaixo da glande era a sua parte preferida de passar a língua e o Raul derrubou dois copos seguidos de cerveja; eu já não ouvia barulho externo, o oco inteiro da minha cabeça derramado na esquina mais insolente da República: um zunido de nada, vácuo preciso da mente, existia, ali, só a gente, os ponteiros do mundo uma mentira e a ideia de morar em um aparthotel um alívio - sempre em trânsito, lésbicas, sempre prontas a não ficar; flat, ela disse, e eu o que, a casa, eu?, e ríamos, despreparadas, absolutamente expostas no dentro, transparentes ensimesmadas, o ego uma britadeira, a pré-conquista o auge do flerte e os copos e os dedos e lábios e todos os dentes; nós quatro, aterrorizadamente sendo, a madrugada vingando todos os nossos escuros: pertencimento; eu fui mijar no banheiro masculino e voltei exuberante por ter sangrado, eu menstruei na privada deles, eu disse, e o Caio e o Raul, aprendidos a não achar nojo, pelo menos não eles, pelo menos não ali, ovacionaram; meus óvulos todos desfalecendo, e eu toda já entregue, o ponto de virada quando é perceptível: as artérias estão implodindo; ela me puxou pela cintura, cirúrgica, e disse: vamo?, mas, menstruada?, vamo?, mas, já?, e Caio e Raul: vão!, e fomos, tortas as pernas andando rápido olhando sempre pra trás, mas é que tão perto tudo, tão nosso esse bairro, essa noite e esses postes todos onde paramos com a desculpa-convenção do semáforo; demorou uma era, demoramos, deitamos inteiras, em todas as pontas, no imenso do que propunha o encontro: jogo de corpo, combinamos; as escadas, infinitas como as roupas, desaparecidas como as travas; o som inciso da música lá na sala e a luz neon que piscava irrefreável na varanda; eu tremia: fagulha (susto) que vira espasmo (desconforto) que vira incêndio (rendição) que vira convulsão (gozo). Todos os telhados da Santa Cecília conhecem o meu corpo - grande, infértil, insustentável - mas inteiro exposto. O avesso do controle: sempre sei, posso ser descoberta, seja pelo rosto do vizinho, seja pela arma do velho, seja pelos óculos dela. Escancaradas nossas respirações, os cílios pretos grudados, suor gelado. É a minha última noite aqui, eu disse, e ela me olhou, os braços envoltos no meu corpo primário, a boca seca semiaberta, um cansaço enorme do mundo, a retina desconcentrada em um segundo e, no seguinte, o encontro: vamo?





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