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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gilberto de Almeida (Categoria Conto)

há 2 horas
21 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Gilberto de Almeida é médico formado pela Universidade de São Paulo (USP) e cultiva nas letras sua segunda vocação. Em 2012, deu voz pública à sua produção artística por meio do blog Poemas sem Pressa, onde exercita sua veia literária.

É autor do livro "Notícias de Além-Túmulo", obra em oitavas decassílabas premiada no 30º Concurso de Poesia da Arte Poética Castro Alves, e de "Trovas que Caíram do Vento", coletânea que une a brevidade da trova à temática espiritualista. Também escreveu "O Sermão da Montanha em Sonetos – Jesus e a Lei Cósmica de Amor", obra que interpreta em sonetos cada um dos 111 versículos do Sermão da Montanha (em fase de análise editorial). 

É ainda o criador da forma poética “Trissoneto”, publicada originalmente no repositório acadêmico Knowledge Commons.

Em 2025 recebeu menção honrosa no 1º Prêmio Brasileiro de Microcontos, classificou-se como semifinalista no Prêmio Nacional Poiesis de Literatura e obteve o 8º lugar no 35º Concurso da Arte Poética Castro Alves com o soneto "Imortal". 

Recentemente, tem contribuído para a produção literária da cidade de Franca, no interior paulista, município onde reside e colabora com as atividades da Academia Francana de Letras (AFL).


O TEXTO:


Senhor Feliz Natal



Naquela manhã de maio, na Praça do Descobrimento, os pombos estavam especialmente alvoroçados. Nessa época do ano as aroeiras-pimenta que ladeavam a alameda principal carregavam-se de frutos e de aves: bem-te-vis, sabiás e sanhaços banqueteavam-se com pimentas-rosa numa buliçosa cantoria. O chão estava atapetado de vermelho, com os frutos que caíam do arvoredo convidando uma comitiva de pombos para a comilança. A população local, alheia ao estardalhaço festivo das aves, caminhava de um lado a outro, apressada para as tarefas do cotidiano, aproveitando o comércio dos arredores.

Num canto afastado, contrastando com a animação do lado oposto, sentado em um banco sob a proteção da copa de uma murta-de-cheiro, Renato cultivava seu deserto particular de melancolia e rancor.

Aos sessenta anos de idade, não traduzia na aparência, contudo, o caráter amargo e impiedoso que a comunidade se comprazia em odiar. Costumava estar sempre bem vestido, barba aparada, perfumado. Se havia alguém de quem Renato gostava, era de si mesmo. Por isso, todos os dias, dedicava vaidosos minutos ao cuidado pessoal.

A sombra da velha murta-de-cheiro, árvore pequena, quase um arbusto, era seu refúgio perfeito há quase trinta anos, desde que conseguira sair vencedor em um processo de aposentadoria por uma invalidez questionável. A planta não tinha altura para impedir que, a golpes de bengala, o velho espantasse qualquer ave que ousasse invadir o seu recanto de isolamento. Além disso, aprendera, com o tempo, que antes do calor do meio dia ativar a produção de néctar, podia gozar da quietude de seu posto sem ser ofendido pela efervescência aromática da planta que, inevitavelmente, atraía uma multidão insuportável de insetos e borboletas.

Há anos vinha passando as manhãs entretido com as mazelas do mundo que adorava ruminar nas páginas do Sentinela da Manhã. Adquiria seu exemplar na Banca do Silva, que, conhecendo o cliente, já lhe entregava o jornal dobrado, com a manchete mais cruenta do dia virada para cima. Renato regateava, reclamava e, por fim pagava com algum dinheiro e muito mau humor. Em seguida, retirava-se para seu isolamento cativo, não sem antes qualificar o comerciante de avarento, muquirana e de quais impropérios lhe viessem à mente.

O Silva não dava crédito. Aprendera a tolerar o velho. O temperamento de Renato era por demais conhecido da vizinhança para que fosse levado a sério. Se alguém tivesse o

desprazer de cruzar com aquela figura mau humorada sentia a frieza cortante de sua alma: um bom dia era respondido com um rosnado ou um vociferar de palavrões; um pedido de pão, rechaçado com uma bengalada ou sob uma rajada de pedregulhos.

Sua vida familiar era um desastre: exceto pela irmã, Lucília, os parentes não o suportavam. Os outros irmãos, considerava-os uns néscios; e reciprocamente. Quando visitava Lucília para o almoço dos domingos, era como se uma das aroeiras da Praça do Descobrimento fosse transplantada para um jardim de margaridas e começasse a espalhar pimentas. Tinha prazer em apunhalar com sarcasmo as dores íntimas de quem encontrasse por vítima:

— E a memória, Maria, está melhor? — Dizia enquanto olhava fixamente nos olhos da cunhada, antes de devassar seu passado — Já lembrou de pagar os duzentos reais que pediu emprestado à prima Joana há mais de seis meses?

À mesa, não poupava a única que ainda lhe dedicava um pouco de afeto:

— Que droga de bife, Lucília! Nem todo mundo tem pressão alta. Custa colocar um pouco de sal?

Histórias sobre ele não faltavam.

Era famoso o caso do Dia das Crianças. O prefeito decidira fazer um evento na praça e distribuiu balões coloridos para alegria da meninada. Consta que Renato, irritado com a algazarra, saiu de sua trincheira sob a murta-de-cheiro, portando uma agulha metálica de tricô que surgiu sabe-se lá de onde e dirigiu-se ao grupo festivo como se fosse uma espécie de paladino do silêncio. Com a alma gelada como a agulha que empunhava, estourou um a um os balões da criançada, acabando por transformar a manhã de comemoração em um festival de lamentos. Conta-se que o azedume e a pimenta espalhados por Renato naquele dia cobriram a praça de desespero, formando um tapete de lágrimas de borracha colorida que, naquele mês de outubro, superou em muito a vivacidade das pimentas-rosa que costumavam forrar o solo no início do ano.

Depois disso, embora a choradeira fosse ainda mais ruidosa que a festa, dizem que Renato, retornando à sombra de onde saíra, permaneceu sentado com semblante contemplativo e, coisa rara, com um sorriso no rosto, como se agora finalmente estivesse escutando uma sinfonia digna de seus ouvidos morbidamente seletivos.

Outro caso bem conhecido era o de dona Joaquina. Recém-viúva, estava um desconsolo só. Véu negro, chorava o tempo todo. Todos sabiam quanto era devotada ao esposo e quanto sofria com a viuvez. Passou a frequentar a praça em companhia da filha, Bianca, na esperança de encontrar consolo no convívio com os pássaros e espairecer a mente.

Mas não é que de imediato, antes mesmo que o defunto esfriasse na sepultura, Renato atravessou a alameda somente para ir ter com ela? Apresentou-lhe uma carta de reclamações contra o falecido que fez questão de ler em voz alta, indiferente à presença da filha. Emendou a infâmia com a cobrança de uma série de notas promissórias que a pobre senhora deveria quitar em dois meses, já que o finado, evidentemente, havia negligenciado seus compromissos.

Os olhos das duas se encheram de lágrimas. Não havia palavras para descrever o martírio em seus corações.

Com o falecimento da viúva, uma semana depois, o veredito da vizinhança foi unânime: fora a arremetida de Renato que lhe precipitara o último suspiro. O mal-estar foi geral e a imagem do velho se cercou de ainda maior repulsa no seio da comunidade.

Estranhamente, Bianca, que, no entendimento geral, fora duplamente apunhalada pela maldade de Renato, era a única que não compartilhava da repulsa dominante. Mantinha um incompreensível silêncio sobre o ocorrido e, se diretamente interrogada, amenizava as circunstâncias: o homem devia ser doente da alma, coitado.

Certa vez, havia mais de trinta anos, Renato teve um romance. Ninguém sabe ao certo como e por que aconteceu. Foi um namoro curto com Taciana, do clube de filatelia, que na época ainda era jovem e cheia de energia. O relacionamento não durou mais do que uns dois meses, mas foi o suficiente para que a moça saísse dele irreconhecível: calada, deprimida, buscando isolamento de tudo e de todos. Sua face parecia ter perdido a cor e seus olhos, o brilho. Foi depois desse episódio que começou a crescer na cidade o boato de que conviver com Renato era como respirar em um tanque com reservas restritas de oxigênio; ele tinha o poder de exaurir a energia alheia com sua crítica incessante e seu desprezo por qualquer gesto de ternura.

Aos poucos esse comportamento foi sendo reconhecido como sua insígnia pessoal: se alguém puxava conversa, não escutava de volta nenhuma palavra agradável, nenhum comentário positivo. Era sempre o maldizer, a crítica, o escárnio. A prefeitura relapsa, as aroeiras que emporcalhavam a alameda com os frutos que caíam às mancheias, o coreto coberto pelos excrementos dos pombos. Os pombos, os malditos pombos.

Aliás, a cisma de Renato com as aroeiras tornou-se lenda. Um dia decidiu que não suportava mais aquela imundície que dizia atingi-lo por dentro. Foi visto de machado em mãos tentando derrubar as árvores, tarefa que sua condição física não permitia. Acabou indo parar no pronto-socorro, exausto, conduzido pelo Serviço de Urgência Municipal, aos brados de ira e indignação.

Noutra ocasião, o Centro Comunitário organizava um evento de conscientização sobre o Janeiro Branco. Na praça, espalhavam-se os profissionais do Centro em atividades animadas. Um rapaz aproximou-se de Renato, sorrindo. Usava no pescoço um cordão com um pingente: uma Pomba da Paz. Renato escorraçou-o com uma avalanche de impropérios e uma chuva de pedregulhos tão desproporcionais que o caso acabou entrando para as crônicas da cidade como mais uma das estroinices do velho rabugento. Infelizmente, o moço simbolizava o ódio que Renato nutria pelo mundo: sorria, trazia no pescoço a paz e a pomba. Nada disso ele tolerava.

Renato costumava conferir as notícias do Sentinela na tela trincada de um smartphone antigo. Seu espírito desconfiado não permitia que aceitasse sem verificação o que viesse de qualquer fonte que não fosse o seu próprio raciocínio. Era uma árvore de casca dura, onde nada penetrava com facilidade. Se alguém desejasse se aproximar do espírito desse homem, certamente não entraria através de portas exteriores; teria que atacá-lo por dentro, pela medula.

Ironicamente, Renato verificava as notícias do mundo pelo prisma defeituoso de um equipamento obsoleto. O visor do aparelho estava trincado porque certa vez uma pomba enlouquecida caíra de bico sobre ele. Novamente as pombas, as odiosas pombas!

Os bichos, aliás, pareciam persegui-lo. Naquela manhã de maio em que os pombos estavam especialmente alvoroçados, um deles saiu voando repentinamente da alameda das aroeiras e acabou por pousar sobre seu ombro esquerdo, exatamente sobre a clavícula, fincando-lhe as garras e provocando dor. A reação de Renato foi tão intensa que a ave foi lançada a uns cinquenta metros de distância. Ficou por alguns instantes estendida ao sol, pescoço estirado, como se estivesse morta. Renato notou, curioso, uma espécie de iridescência arroxeada, como uma mancha de óleo, que descia da região do pescoço ao peito, tornando o animal ainda mais abominável. Aproximou-se para examinar, antes movido por uma curiosidade mórbida que por qualquer sentimento de piedade. Ao aproximar-se, a pobre ave, como se fugindo do pior predador, aprumou-se imediatamente e bateu asas para longe. Renato acompanhou o voo com impertinência:

— Xô! Isso mesmo: foge, Nazarento! — arrematou, substituindo intencionalmente o ele pelo ene, de improviso, aproveitando a ocasião de disparar um impropério para, ao mesmo tempo, exteriorizavar ao mundo o seu desprezo religioso gnosiológico.

Depois desse dia, parecia que as pombas não davam mais sossego ao velho. Talvez em represália pelo que ele fizera com a companheira de pescoço iridescente, agora, volta e meia, o encurralavam à sombra da murta-de-cheiro. Também não era incomum aguardarem-

no diante da Banca do Silva. Se ia à padaria, frequentemente se deparava com as ditas. Tentava espantá-las aos brados ou a golpes de bengala, mas, cedo ou tarde, estavam de volta. Não importava em que contexto, no entanto, estava claro: elas eram as únicas criaturas da cidade dispostas a compartilhar-lhe alguns momentos da existência.

As únicas, mesmo. Renato era um solitário. Depois do ocorrido com Taciana, não se teve notícias de outro envolvimento afetivo por parte de Renato. Não tinha amigos, não recebia visitas, não havia quem o tolerasse.

O assédio das pombas a Renato durou pelo menos até o final do ano. Diziam que o velho mudava o comportamento na presença dos animais. O Silva notou:

— Se ele vem comprar o jornal e percebe as pombas no encalço, não regateia, não reclama. Sai caladinho, sem dizer um palavrão.

Também tinham notado na farmácia, na padaria e mesmo na praça. O velho parecia mais contido quando as pombas estavam por perto; parecia haver entre ele e as aves, desde o ocorrido na manhã de maio, uma delimitação mais justa de território, em que Renato não era mais o único a estabelecer limites.

Como se as aves infelizes lhe houvessem lançado algum tipo de maldição, o segundo semestre daquele ano assinalou o início de seus martírios. O corpo começou a traí-lo. Dores, que inicialmente tentara ignorar como desconfortos da idade, tornaram-se cada vez mais cruciantes e agora as sentia como facadas profundas nas costelas, na coluna e nos quadris. Seu corpo parecia mais frágil. Tinha uma sensação estranha: como se fosse feito de vidro, prestes a quebrar ao menor movimento. Havia dois meses, um nódulo surgira sobre a clavícula esquerda, exatamente onde pousara a maldita pomba oleosa. Agora esse nódulo crescera até atingir o tamanho de um limão, uma massa endurecida e arroxeada que saltava da clavícula, deformando e assustando. A fadiga era um peso absoluto, uma exaustão que parecia vir de dentro dos ossos. Sua tez, antes saudável, tingira-se de uma palidez mórbida. Pela primeira vez, o desprezo de Renato pelo mundo foi amortecido por um sentimento novo e desesperador: o medo.

Passara por consultas e mais consultas. A princípio, quando o quadro era mais brando, medicaram-no sem realizar exames. Os sintomas eram inespecíficos, podia ser uma gripe forte — era o que diziam. Depois conheceu o doutor Cláudio, já numa fase mais debilitante da doença: coletou sangue, fez radiografias, biópsia do tumor e da medula óssea. Os resultados sairiam no dia quatorze de janeiro.

Antes do diagnóstico, contudo, não conseguiu se furtar ao palco anual da encenação em família: o Natal. Renato jamais faltava ao Jantar de Natal: era sua ocasião predileta para

sabotar a alegria alheia. Aproveitava para destacar o desvio de caráter de um, a obesidade de outro, para criticar os pais pelo descontrole da criançada. Se recebia um presente, o fazia com desdém contábil, calculando o preço da retribuição antes mesmo de desamarrar o laço. Não era raro devolver a gentileza com um xingamento. Perfumado e elegante, alegrava-se em espalhar pelo ambiente o aroma da indignação e a deselegância das palavras.

Assim, Véspera de Natal, lá estava ele na casa de Lucília: como sempre, cara amarrada, alma gelada, mas, desta vez, visivelmente doente e deformado. Todos notaram o volume sob a camisa, mas disfarçavam com uma polidez irritante. Renato ruminava o ódio com discrição intolerável.

— E aí, cunhado? Feliz Natal! — Hmmm...

— Feliz Natal, tio Renato!

— ...

Aquele Feliz Natal repetido à exaustão soava como uma punhalada. Para Renato, aquelas pessoas — que o odiavam e ele bem sabia — apenas açucaravam as vozes, travestindo-se de uma hipocrisia sazonal, entregando-lhe veneno recoberto de chocolate.

Depois vieram os comentários: — Você viu o Renato? Parece que está apodrecendo em pé. — Dizem que vaso ruim não quebra, mas aquele ali está trincado. Você viu a cor da pele? Cinza! E aquele calombo no ombro... Deus me livre.

Os dias que antecederam o retorno com o doutor Cláudio foram de expectativa e dor; dor e medo.

— Mieloma múltiplo.

O diagnóstico veio sem hesitação. Era incurável. O velho compreendeu que o câncer brotava de dentro dos ossos. As células doentes expulsavam o próprio sangue, ocupando espaço, devorando sua estrutura e deixando em troca aquela palidez de cadáver.

Devido à anemia profunda, o início do tratamento foi imediato. Antes mesmo de absorver a sentença, o paciente já estava no setor de hemoterapia. Encarava com repulsa a bolsa rubra pendurada acima de sua cabeça. Não bastavam os azares da vida e a estupidez alheia? Agora estava reduzido a um caco humano, dependendo da caridade biológica de um estranho para continuar respirando. A visão daquele sangue anônimo gotejando para dentro de suas veias causava-lhe um asco insuportável.

Mas, mesmo a aroeira balança ao vento.

O tratamento foi avassalador. Seções de quimioterapia, exames sem fim, múltiplas transfusões. Nomes de medicamentos como bortezomibe e dexametasona passaram a fazer

parte de seu vocabulário; o hospital, os laboratórios, o departamento de hematologia tornaram-se seu novo bairro. Preparava-se para o transplante de medula óssea.

Renato transformou-se em um estudioso da própria ruína. Através da tela trincada do smartphone, procurava compreender porque seu próprio corpo estava se fragmentando. Pesquisava cada termo contido nos laudos que acumulava. Aprendeu a ler as entrelinhas da eletroforese de proteínas e a monitorar a curva dos plasmócitos como quem vigia um inimigo pelo buraco da fechadura. Não confiava plenamente no doutor Cláudio — não pelo médico em si. É que não confiava em ninguém. Queria ele mesmo decifrar os números que ditavam quanto tempo de vida ainda lhe restava.

Mas, o que a dor e a doença não são capazes de fazer? A gentileza dos enfermeiros e o desprendimento dos doadores eram, de início, como ofensas ao seu cinismo. Depois, tornaram-se um mistério que o espantava; e, finalmente, uma aceitação que ele já não tinha forças para combater.

Certa tarde, foi visitá-lo uma voluntária bondosa que trabalhava no hospital aos finais de semana. Seu nome: Bianca. Sim, aquela mesma filha de dona Joaquina que, há décadas, Renato humilhara em praça pública. Mais um golpe amargo do destino: no auge de sua doença, ele era obrigado a encarar os fantasmas do passado. Bianca foi recebida com constrangimento e repulsa. Ainda assim, talvez por haver sido forjada, durante todos esses anos, na chama transformadora de quem luta contra o sofrimento alheio, insistia, com uma doçura incompreensível, em perguntar por sua saúde e em ser gentil.

Aos poucos, o constrangimento inicial foi cedendo. Renato já nem tinha forças para resistir ou para se impor. Passou a aceitar-lhe a companhia nos dias em que permanecia internado, para a leitura do jornal matinal.

O tempo foi passando e, Renato, se fortalecendo. Aos poucos, as punhaladas nos ossos haviam se transformado em um eco suportável.

Semanas antes do transplante de medula óssea, enquanto observava o concentrado de hemácias penetrar-lhe o antebraço, endereçou, sem perceber, um olhar de reconhecimento ao enfermeiro do setor. Foi um instante — um relance! —, mas com intensidade suficiente para causar-lhe estranha consternação.

Noutra ocasião, para sua surpresa, flagrou-se pensando com gratidão no desconhecido que havia doado aquele sangue. Eram glóbulos que invadiam seu corpo de forma intrusa, mas que, ironicamente, lhe devolviam a dignidade de estar vivo.

Doutor Cláudio não era mais um estranho que lhe injetava diretrizes farmacológicas veias adentro. Começou a perceber no médico uma pessoa dedicada e sincera.

Bianca fora um achado. Como ela podia estender aquele véu de silêncio sobre sua história de covardia e crueza? Como podia tolerá-lo depois do que havia feito a ela e à sua mãe? Começava a encontrar em sua companhia desinteressada e zelosa um conforto que não conseguia compreender: algo que estava para além de toda a sua experiência de vida, algo humano...

O ano corria célere. Era final de novembro. Mais um Natal se aproximava. Chegou o dia zero. Renato recebeu a infusão de melfalano, a química implacável que “zeraria” sua medula óssea para abrir caminho para o transplante. Começava então o período de maior vulnerabilidade: vinte e um dias num isolamento que espelhava sua própria vida. Mas, agora, não se tratava de um isolamento voluntário. Nada mais estava sob seu controle: filtros de ar especiais, visitas restritas, inúmeros cuidados para evitar infecção eram uma prisão de assombros num vácuo biológico. Com a medula zerada, o homem que cuspia pedregulhos em praça pública agora temia até as impurezas que carregava na intimidade do próprio pensamento.

Apenas Lucília e Bianca mantiveram-se presentes. A irmã, dissimulando a tristeza por trás de jalecos, gorros e máscaras, comparecia com assiduidade silenciosa. Entristecia-se pelo irmão, enxergando, contudo, esperança por trás da carapaça de homem difícil. Sabia que a cura era impossível, mas sua luta era para que ele não atravessasse sozinho aquele pesadelo.

Bianca desenvolvera um carinho especial pelo paciente. Jamais vira, em todos os seus anos de hospital, alguém lutar com tanto empenho contra a doença do corpo e da alma. Aquele em quem, em outros tempos, notara apenas dureza de coração, agora era uma pessoa da qual se compadecia profundamente e que lhe inspirava singular afeição.

No passado Renato teria celebrado o isolamento. Pessoas sempre haviam sido um fardo em sua vida: Lucília fora a única exceção tolerável. Mas os meses de doença e fragilidade, a quimioterapia, o recinto asséptico, a atenção desinteressada que recebia de todos, tudo isso parecia ter alterado a bioquímica de suas veias espirituais. A seiva que corria na aroeira começava a fazê-la balançar.

Gradualmente foi deixando de ver o ser humano como inimigo. Precisara viver no vácuo biológico para perceber seu vácuo interior. O que sempre desejara — a solidão absoluta — agora era fonte de angústia. Lucília e Bianca eram as suas bases de humanidade e transformação.

Passados alguns dias, a doença deu sinal de trégua. O nódulo na clavícula murchou com rapidez espantosa. Com quinze dias de transplante, no lugar daquela protuberância restava apenas uma depressão.

Doutor Cláudio entrou no quarto:

— Foi um sucesso! O transplante pegou!

Os exames eram promissores. Leucócitos e plaquetas subiam como uma maré de vida; a biópsia era favorável. A biologia, enfim, sinalizava o êxito do tratamento.

Ao receber alta, Renato foi surpreendido por um corredor de despedidas. Técnicos de enfermagem, nutricionista, Bianca, o pessoal da limpeza e da hemoterapia. Eles, que haviam testemunhado sua agonia, agora se despediam com alegria: “Vá com Deus, seu Renato! Feliz Natal! Estamos muito felizes pelo senhor!”

Feliz Natal daqui, Feliz Natal dali... e dessa vez, Renato não se irritava ao ouvir. O som daquelas palavras agora era mais leve. O famigerado Feliz Natal não mais soava como um voto de hipocrisia sazonal, mas como a celebração de um renascimento. A doença era incurável? Que fosse! Mas aquele dia era o seu dia de vitória. Feliz Natal, disse ele para si mesmo. E apreciou o sabor das palavras reverberando em seu íntimo.

***

Faltava uma semana para o Natal. Renato ainda vivia sob um isolamento cautelar; sua liberdade resumia-se ao trajeto entre o hospital e a farmácia. Máscara e álcool gel eram seus escudos.

Começava a fazer as pazes com o mundo e, agora, redescobria o próprio corpo. Tinha um novo prazer matinal: fazer a barba com cuidado e observar-se no espelho. A pele não parecia mais tão cinzenta. No lugar onde antes vivia um limão azedo, agora restava uma pequena depressão que Renato contemplava com reverência: um berço ósseo à espera do nascimento de um homem melhor. Não era mais um ritual de narcisismo e soberba; era um momento de celebração.

Dois dias depois, foi inevitável: teve que ir à farmácia. Com a sobrecarga de medicamentos, o estômago se ressentia. Precisava de um protetor gástrico: pantoprazol era o que lia na receita. Máscara, álcool gel no bolso, cumpriu o protocolo. Foi atendido com empatia. O pessoal do estabelecimento se acostumara com Renato durante o ano. Na despedida, o voto de boas festas:

— Feliz Natal!

— Feliz Natal! — Respondeu. Não pensou ao falar. A frase escapou. Sem filtro. Mas, ao dizer, sentiu-se bem. Era estranho. Não soava falso; soava como um alívio.

Véspera de Natal, Bianca deu um telefonema:

— Feliz Natal!

— Feliz Natal!

Conversaram um pouco. Surgia uma amizade?

Lucília foi visitá-lo.

— Feliz Natal!

— Feliz Natal!

Era impressionante a transformação do irmão. Não só fisicamente: estava mais corado, mais disposto, mas, acima de tudo, mais manso. Pela primeira vez em décadas, a conversa não tinha espinhos. Foi uma visita memorável. Será que a alma de uma pessoa fica na medula óssea?

***

O que antes era motivo de irritação, agora se transformou em fonte de contentamento. O Feliz Natal tornou-se o hábito de um homem que começava a descobrir a suavidade de viver.

No início, Lucília estranhou. Ao visitá-lo em pleno janeiro e ser recebida com o voto natalino, sorria com uma ponta de preocupação:

— Meu amado, o Natal já passou. Deve ser o estresse da quarentena, mas não importa. Feliz Natal para você também, meu querido.

Passou-se o tempo, terminou a quarentena e logo a mania de Renato rompeu os limites do apartamento. Voltou a frequentar a Praça do Descobrimento, porém, com outro comportamento: dava atenção às pessoas, auxiliava quanto podia. Já não se debruçava com amargura sobre o Sentinela da Manhã. Comprou um aparelho celular novo, começou a experimentar as redes sociais. Mesmo fora de data, não esquecia a saudação:

— Feliz Natal!

Passou a alimentar os pombos e, no auge de sua felicidade, dirigia-se às aves em alvoroço:

— Feliz Natal!

Vez por outra, Bianca arranjava um tempo para dois minutos de prosa com o amigo sob a sombra da murta-de-cheiro. Às vezes, dez minutos, meia hora... Sempre a recebia com um Feliz Natal.

As pessoas estranhavam, comentavam: “Doidinho esse seu Renato. Dizer Feliz Natal a todo momento, assim, fora de época...” Devia ser a doença dele. Diziam que era muito grave.

Na padaria, no ponto de ônibus, entre as gôndolas do supermercado, passou a distribuir a saudação natalina com a mesma generosidade com que antes distribuía insultos.

Sua lógica era límpida e pessoal: dizer Feliz Natal o fazia feliz, e ser feliz o mantinha vivo. E, vivo, em janeiro, em fevereiro, não importava em qual época do ano, quando cumprimentava alguém, Renato disparava:

— Feliz Natal!

O bairro capitulou. O povo, que antes desviava o caminho para não cruzar com ele, agora o aguardava: “Lá vem o Senhor Feliz Natal!”, diziam, já sem ironia.

A transformação virou notícia. O jornal do bairro narrou a saga do mieloma e o renascimento do homem que decidiu viver um vinte e cinco de dezembro permanente. Criaram-se grupos, redes sociais, uma corrente de votos matinais. A Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente, em parceria com o Clube de Filatelia e sob a liderança de Taciana, conseguiu que os Correios produzissem, para o Dia das Crianças, um belíssimo selo em que se viam duas agulhas de tricô tecendo o fio de um balão que se erguia aos céus. Abaixo, os dizeres anacrônicos: “Feliz Dia das Crianças — Feliz Natal”.

Quando Renato caminhava, recebia o Feliz Natal de volta com um coro de bênçãos. Foram meses de uma vida plena. Se soubesse antes que a felicidade cabia em apenas duas palavras, não teria desperdiçado tantas décadas em azedume e irritação.

Mas a felicidade caberia mesmo em duas palavras?

Talvez não.

Certa manhã, diante do espelho, Renato sentiu o golpe: o bercinho na clavícula desaparecera. Em uma semana, um caroço do tamanho de um grão de feijão ressurgiu no local. Tocou e sentiu dor.

Voltou ao doutor Cláudio. A sentença se repetia e atravessou-o como uma flecha:

— Sinto muito, meu amigo. O mieloma voltou.

A perspectiva era sombria. Quando a doença retorna antes do primeiro aniversário do transplante, esclareceu o doutor Cláudio, ela é refratária: “É como um inimigo que aprendeu a resistir às armas usadas.” As chances de uma nova remissão eram mínimas. Era preciso apelar para o tudo ou nada. Doses massivas de corticoides e infusões semanais de anticorpos monoclonais eram necessárias.

A rotina de tratamento estendeu-se pelo próximo mês.

As mudanças físicas vieram rapidamente: o tumor na clavícula retornou como um fantasma materializado, o rosto se tornava pálido e as dores cruciantes voltaram a castigá-lo; a cortisona em doses altíssimas arredondou-lhe o rosto, deixando-o inchado e irreconhecível. As pessoas se assustaram. Renato via a própria decadência no espelho, mas, estranhamente, não se apavorou: não havia mais revolta contra Deus, contra o médico ou contra o destino.

Tentava, quando conseguia, dar uma volta pelo quarteirão.

— Feliz Natal! — sussurrava com a voz enfraquecida, ao cruzar com um vizinho.

A comunidade se comoveu. O Senhor Feliz Natal sofria. Precisavam ajudá-lo.

Quantas mensagens de Feliz Natal chegavam ao celular todos os dias não era possível contar. A pedido do jornal do bairro, organizaram-se correntes de oração e seu nome era lembrado nas missas. Os amigos evangélicos iam à sua casa, liam a Bíblia, oravam por ele. Nos centros espíritas, não faltavam as vibrações fraternais. Na comunidade, o protocolo social fora abolido: não se dizia mais bom dia, boa tarde ou boa noite. Feliz Natal era a senha que colocara o velho Renato na ordem do dia e no centro dos corações. Lucília, Bianca, Maria, Joana, os familiares e amigos davam-se as mãos em oração.

Doutor Cláudio tentou novidades: drogas de última geração como uma tal de pomalidomida. Esperança vinha; resultados, não. Quando o médico convocou os mais próximos para falar em cuidados paliativos, Lucília desabou em prantos. Bianca ficou desconsolada. As crianças pareciam ter levado uma surra. E até o cunhado — com quem Renato antes trocava apenas grunhidos — não continha as lágrimas.

As mensagens de conforto chegavam de todos os cantos. Renato percebia que a hora derradeira estava próxima, mas sentia-se sustentado por aquela rede de mãos invisíveis que decidiu carregá-lo com amor. Se seu momento chegasse, encontraria um homem em paz, erguido pela gratidão.

Embora enfraquecido, continuava encontrando forças para seus pequenos passeios. O quarteirão tornara-se seu santuário:

— Feliz Natal!

— Feliz Natal, seu Renato. Que Deus o abençoe!

Passado algum tempo, pareceu ganhar um pouco mais de viço no rosto e a dor recuou. A visita da saúde antes da morte, pensou, sem medo.

O calendário marcava a chegada de mais um Natal. Renato ansiava por esse momento derradeiro: não mais para sabotar a alegria alheia, mas para viver um legítimo e feliz Natal. Depois, poderia partir. Não guardava mágoas; a essa altura, ele era feito apenas de agradecimento. A aroeira vergara.

Renato passou pela última bateria de exames. Radiografias, sangue, biópsias — o inventário completo de suas luzes e sombras.

Parecia, no entanto, que a proximidade do Natal lhe soprava um vigor desconhecido pulmões adentro. Apesar de sua fragilidade, sentia-se vitalizado. Deus era bom. Conceder- lhe-ia um último Natal com a saúde possível. Poderia abraçar os seus e pedir perdão.

***

Renato despertou mais tarde naquela manhã. Era novamente Véspera de Natal. O sol de dezembro entrou pela janela com uma suavidade calmante. Como poucas vezes nas últimas semanas, o silêncio matinal não era preenchido pela dor. Sentia-se agradavelmente leve, como se a lei da gravidade tivesse se esquecido de sua existência. O tumor em sua clavícula esquerda marcava presença, mas já não era uma presença assustadora. Ali estava como quem não quer estar, como entidade onírica, na proximidade do despertar. Caminhou até a Praça do Descobrimento com uma desenvoltura que desafiava os prognósticos.

O frescor matinal já encontrava na praça o burburinho agitado das pessoas que buscavam cumprir os últimos compromissos antes das festas. Os pombos aguardavam, fiéis, ao homem que aprendera a amá-los. Sentou-se no banco que outrora fora seu posto de vigia contra a felicidade do mundo e começou a distribuir-lhes alimento.

As aves, em uma algazarra de penas e bicos, cobriram-no como de costume, subindo- lhe pelos braços, pernas e ombros. Foi então que um pombo mais audaz pousou, por sobre a camisa fina, exatamente em sua clavícula esquerda.

Num reflexo, Renato levou a mão ao local para afastar a ave. O toque não encontrou o inconveniente da dor. Seus dedos procuraram o nódulo, a protuberância, o berço da doença. Não encontraram nada. Palpou com força, respiração suspensa, coração em descompasso. A pele estava lisa; o osso, íntegro. O tumor que ali estava ao despertar simplesmente desaparecera.

Olhou para a ave em fuga no instante em que um raio de sol bateu em cheio sobre o animal. O reflexo iridescente no pescoço e no peito da pomba assustada, antes arroxeado e sombrio, agora explodia em verde esmeraldino, mas era inconfundível:

— Nazarento...! — Disse para si mesmo, espantado.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Com as mãos trêmulas, procurou, na tela cristalina do novo smartphone, os resultados recentes de seus exames. O laudo do laboratório era uma sucessão de impossibilidades: radiografias sem sinais de erosão, ossos

refeitos como por encanto, eletroforese limpa. O percentual de plasmócitos no mielograma era insignificante. Seria o efeito da pomalidomida?

Ainda atônito e incrédulo, sentiu o celular vibrar em sua mão. Era o doutor Cláudio, com a voz tomada por uma energia contagiante e desconcertada. — Meu amigo, você não vai acreditar! Eu mesmo não consigo entender... você já viu os resultados dos seus exames?

Mas Renato já não precisava de laudos. Tudo o que ele queria naquele instante era acreditar — e acreditou com uma força que parecia capaz de mover o mundo. Deixou o médico falando sozinho e disparou pela Praça do Descobrimento, as pernas agora leves, a alma transbordando. Ele era uma fênix ressurgindo; era Lázaro abandonando a tumba de agonia ancestral.

— Feliz Natal! — bradou para as pombas em alvoroço.

— Feliz Natal! — gritava ele, abraçando um homem que passava com pressa.

— Feliz Natal! — exclamava para uma senhora, que retribuía com um sorriso.

Renato era todo movimento, pura luz.

— Feliz Natal! — dirigiu-se a alguém que estava de costas.

Virou-se um rapaz de bela aparência, com cabelos castanhos e ondulados que caíam suavemente por sobre os ombros. A barba era bem-feita, repartida discretamente na altura do queixo. Seu sorriso parecia abraçar o mundo.

O moço encarou Renato com amor, como se já o conhecesse há muito tempo, e endereçou-lhe um olhar que transbordava bondade, devolvendo com doçura infinita:

— Feliz Natal, meu amigo.

Trazia no pescoço um pingente: a Pomba da Paz.

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