3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Douglas Lobo (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Douglas Lobo nasceu no interior do Piauí em 1977. É formado em Comunicação (Jornalismo) pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (edição do autor, 2015), "O Último Natal de um Homem Rico" (edição do autor, 2018), "Areia Movediça" (Editora Danúbio, 2021) e "Dentes de Ouro" (Editora Danúbio).
Já foi semifinalista do Prêmio Pena de Ouro e de uma edição anterior do Prêmio Prata da Casa (ambas as premiações promovidas pela Casa Brasileira de Livros.)
O TEXTO:
A entrevista do século
Joelson se ergueu da cadeira de presidente e, mãos espalmadas sobre a mesa de jacarandá, olhos em mim como os de um gato em uma lagartixa, disse (em voz tão alta que toda a redação do jornal deve ter ouvido):
— Desculpas não vão colar dessa vez.
Seu rosto, de pele parda bronzeada, tornara-se cor de cereja. As mãos pressionavam a superfície da mesa como um animal prestes a atacar. As veias do pescoço se contraíam, o pomo-de-adão se protuberava.
— É a terceira vez, só nesse ano, que a direção reclama do caderno de cultura, Lúcio.
“Reclamam porque cultura é algo além deles” — tive vontade de dizer. Mas me calei. Há cinco anos no Diário do Ceará, dois deles como editor, eu já aprendera os limites: a família Alencar, controladora do jornal (e de um sem-número de empresas de vários setores) —, tinha laços de longa data com os Freitas, uma das linhagens mais tradicionais do Estado — e cujo representante ainda vivo de maior visibilidade pública era o próprio Joelson.
— Acho que nem preciso dizer que o motivo dessa reclamação de agora foi o mesmo
das outras vezes.
Medi as palavras, ao dizer:
— Um caderno de cultura tem o dever de—
— Eu pedi sua opinião?
— …
Joelson se retesou. Tirou de uma carteira sobre a mesa um cigarro Malboro, que acendeu com um isqueiro que pegara no bolso da calça social cinza. (O jornal se engajava na campanha antifumo que tomava o país; seu diretor, não.) Tragou e, olhos entrecerrados, acalmou-se — ou assim eu pensava, até ele baforar e, rosto envolto em fumaça, dizer:
— Não vai se defender?
Respirei fundo. Ao falar, tentei manter a voz calma (Joelson era um pitbull: cheirava medo, partia para estraçalhar):
— Um caderno de cultura tem o dever de levantar questões, provocar o leitor, discutir tabus.
— O mesmo papo de novo…
— Não é “papo”… é uma convicção, que tento trazer para a linha editorial do caderno.
Joelson suspirou, sentou-se e deu outra tragada no cigarro. Expeliu a fumaça e ficou a contemplar os fios tênues que subiam até o teto, onde se desvaneciam na penumbra, como um fantasma engolido pela escuridão. Pôs a vista em mim e correu a mão livre pelos cabelos
grisalhos.
—A linha editorial do periódico se sobrepõe à de qualquer caderno, Lúcio.
— Não vejo choque entre a cobertura de cultura e a do jornal.
— O Diário do Ceará é um veículo católico.
Entrelacei as mãos à frente do corpo.
— Nem no manual de redação, nem no projeto editorial está dito que o jornal
endossa alguma religião.
— Em uma redação, o que não está dito é tão importante quanto o que está. — Ele apontou a brasa do cigarro para mim: — Não… é mais importante.
— Infelizmente, não posso trabalhar com premissas subjetivas.
Joelson virou a cadeira para sua esquerda e baforou. A fumaça subiu rumo a um quadro na parede à frente dele. Na pintura, a última ceia de Cristo com os apóstolos.
Embora o cigarro ainda estivesse na metade, Joelson esmagou a guimba em um cinzeiro de mármore na mesa e virou a cadeira para mim.
— A cultura corporativa é uma cultura de entrelinhas. — Com um gesto, ele me impediu de interrompê-lo. — E ao contrário do que vocês jovens pensam, um jornal é antes de tudo uma empresa.
— Sim, mas—
— Não finja que não sabe que os Alencar são donos de um dos mais prestigiados colégios católicos aqui de Fortaleza. Que Eric é sócio emérito do Rotary Club, que tem como um dos maiores parceiros em suas ações de caridade a arquidiocese. Que Brígida já se encontrou com o próprio Papa João Paulo II!
— Mas—
— Eu posso ignorar quando você traduz e publica um trecho de livro daquele americano ateu…
— Richard Dawkins.
— … mas não quando você vem com essa…
Joelson se ergueu, pegou um exemplar do Diário da Manhã sobre a mesa, destacou dele o caderno de cultura e, uma mão a segurá-lo, pôs o dedo indicador da outra na manchete:
Wicca é nova onda entre as garotas da geração X
— Joelson, é só uma matéria sobre uma tendência dessa última década do século XX.
Ele pôs o caderno sobre a mesa.
— Para os Alencar, é uma celebração da bruxaria.
— Sinto que pensem assim…
Joelson sentou-se, apoiou os cotovelos nos braços da cadeira e percorreu o teto com os olhos.
Eu já o conhecia o suficiente para desconfiar que a próxima etapa da conversa seria de apaziguamento — e tive certeza quando ele disse:
— Eu consigo acalmar o Rubens. O velho gritava no telefone, pra você ter uma ideia. Queria te demitir. — Minhas costas gelaram, mas disfarcei. — Eu o demovi.
— Eu agradeço.
— Não corra mais um risco desses. Não vale a pena.
Ele afastou a cadeira, tirou uma caneta de prata do bolso da camisa e voltou a escrever em um papel, como fazia quando eu entrara. Era sua deixa para eu sair, e assim o fiz.
Tão logo fechei atrás de mim a porta de vidro, Nágila, secretária de Joelson, sentada em sua baia na antessala, parou de rabiscar em um calendário de mesa.
— Então? — os olhos castanhos dela se agitavam por trás das lentes dos óculos sem aro, em cujas asas caíam mechas laterais de seu cabelo liso longo escuro, que lhe emoldurava o rosto, de pele viçosa e queixo fino.
— Me safei.
— Por que se queimar assim? — O tom dela era de preocupação sincera.
— Jornalismo é pra incomodar os acomodados.
— É isso mesmo? — ela deu um meio sorriso. — Ou sua namorada nova ‘tá te levando pro lado sombrio?
Contive minha irritação. Nos últimos meses eu já me acostumara com gozações e deboches em torno de Lili — mas ainda era difícil segurar o ímpeto de mandar ao inferno quem julgava meu relacionamento pelos princípios convencionais dessa metrópole provinciana chamada Fortaleza.
Forcei-me a sorrir, saí pela porta aberta da antessala e segui à esquerda para a última ala da redação, onde funcionava minha editoria.
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Lili acendeu a última vela e se sentou no tatame, à minha frente. Estávamos no meio de um círculo de cinco pontas, cada uma delas marcada por uma vela acesa.
— Consegue sentir? — Ela me perguntou. — A energia?
Assenti com a cabeça.
Por um segundo, Lili sorriu. Uma brisa entrou pela única janela e empurrou para sua testa larga um fio de seu longo cabelo liso, o fiapo ruivo a lhe cortar a tez branca como sangue na neve.
Então, os lábios dela se contraíram e ela meneou a cabeça.
— Dessa vez eu quase acreditei…
Ergui-me.
— Lili, eu tento, juro… — eu dizia a verdade —… mas nada acontece.
Ela se levantou e passou a apagar e recolher as velas, jogando-as em seguida em uma
lixeira de metal inox a um canto.
Estávamos em uma antiga dependência de empregada, que Lili transformara em estúdio assim que alugara o apartamento, há dois anos.
— Talvez nada aconteça, Lúcio, porque você não se dá a chance.
— Acabei de dizer que tento.
— Tua cabeça ‘tava longe daqui.
— Lá vem você…
Ela tinha razão. Minha mente vagueara durante todo o ritual. Não conseguia esquecer
o confronto com Joelson, na manhã daquele dia.
— A energia espiritual não está lá fora, Lúcio. Está aqui — ela jogou a última vela na lixeira e levou as mãos aos seios, cobertos por um vestido negro decotado que lhe ia até os
pés—, dentro de nós.
— Então pra que toda essa parafernália? — apontei para os utensílios no tapete, os quais ela começara a recolher em uma caixa de papelão: um cálice, uma varinha de madeira, um turíbulo...
— Só pra canalizar.
— Canalizar…
— Canalizar o ambiente, para que em vez de atrapalhar ele nos ajude a achar essa energia interior.
— Claro…
Ela pôs a última bugiganga na caixa e abriu os braços:
— Não sei por que ainda perco tempo contigo.
— Eu tenho interesse. Eu—
— Como fui tola de tentar converter um ateu.
Ela deu um passo rumo à porta aberta.
— Como assim? — Ela não fez menção de parar, daí aumentei a voz: — Como assim, “converter um ateu”?
Ela parou na soleira da porta e se virou.
— Eu me expressei mal…
Ela saiu. Segui-a.
— Lili — cruzávamos a área de serviço —, você disse pra mim que não tinha nada de religioso nesses rituais. Que eram só manipulações de elementos da natureza.
— E são…
— Então — chegávamos à cozinha —, que problema um ateu teria com a wicca? se, como você diz, a “mágica” é só uma coisa a que a ciência ainda não deu nome.
Lili estacou, eu em frente a ela.
— Que importa se é algo religioso ou não? se para você nada disso tem poder real?
— Eu não gosto de ser trouxa.
— Ninguém está te fazendo de—
— Participar de missas, cultos ou qualquer outro ritual religioso é alimentar a massa
de alienados que padres, pastores e pais-de-santo exploram.
Ela olhou para os lados, antes de dizer:
— A wicca é, sim, baseada na manipulação dos elementos da natureza.
— Então por que—
— Mas só a wicca é assim.
Ergui as mãos e gesticulei.
— Eu continuo sem enten—
— Só a moderna feitiçaria consiste no uso sutil das forças naturais. A antiga, não.
— Você me disse que a bruxaria clássica nada tinha a ver com a moderna.
— Elas têm o mesmo tronco comum.
— Então… — cruzei os braços à minha frente… — você mentiu pra mim.
— Eu… me expressei mal.
Dei-lhe as costas e, as mãos sobre a mesa de jantar, olhei em torno.
— “Me expressei mal”…
— Os rituais da wicca evocam em segundo nível feitiços ancestrais, que não celebram a natureza, mas… — ela hesitou; por uma fração de segundo, a cozinha pareceu ficar gelada —… entidades.
Virei-me para Lili. Sorri.
— E que entidade eu celebrei sem saber? — Ergui uma mão espalmada: — A deusa Gaia? — Ergui a outra: — Odin? — Balancei o dedo indicador em riste: — Não, não… — antes de apontá-lo para ela:
— Satan—
— Não diga esse nome!
A voz dela explodira. Fitava-me com olhos atemorizados.
No silêncio que se seguiu, uma tensão percorreu o ar. Nas paredes bruxuleavam sombras, formadas pelos faróis dos carros nas ruas, dez andares abaixo. Por um instante, uma delas pareceu assumir a forma de um grande pássaro. Um calafrio percorreu meu corpo.
Quebrei o silêncio (sem saber o motivo, com voz baixa):
— O que deu em ti?
Ela me respondeu em sussurro:
— Palavras têm poder.
Ri, a voz alta de novo:
— Poder de evocar o quê?
Ela hesitou.
— As velhas bruxas não tiravam seu poder da natureza.
— Você me disse que—
— Elas manipulavam os elementos naturais, mas o poder originário que lhes permitia
fazer isso vinha da… da…
— Da…?
— Da evocação do anjo caído.
Demorou um segundo para eu compreender a que ela se referia.
— Então esses rituais que fazemos—
— Não! — Assustei-me com o tom de voz dela; como a percebê-lo, ela emendou em timbre normal: — São limpos. Mas os rituais da wicca podem, em alguns casos, involuntariamente, evocar… evocar aquele que dava poder às antigas bruxas.
Uma ideia me surgiu. Peguei em minhas mãos as dela.
— Uma feiticeira wicca então consegue evocar o…? — deixei o nome no ar, receoso de outra reação histérica dela.
— Por que ela faria isso? — a pergunta trazia uma desconfiança. Já devia ter percebido que meu questionamento não tinha sido casual.
— Se quisesse, ela conseguiria?
Ela se desvencilhou de minhas mãos.
— Os velhos encantamentos são conhecidos de poucos hoje em dia.
— Alguém em Fortaleza?
Ela perscrutou meu rosto com os olhos.
— O que está tramando, Lúcio?
— Nada, eu só—
— Não se brinca com isso.
— Quem falou em brincar? Eu só—
— Não quero mais falar sobre isso.
Ela saiu, rumo à sala.
Eu fiquei. Recostei-me junto à geladeira e repassei para mim a ideia que tivera.
Decidi que seguiria em frente com ela. Mesmo que Joelson — e todos na cidade — me chamassem de louco.
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— Ficou louco?
Joelson se ergueu da cadeira, foi até a porta que levava à antessala, abriu-a e disse à
Nágila:
— Chame o serviço médico. — Ela ensaiou levar a mão ao telefone, mas Joelson completou: — O editor de cultura precisa ser internado.
Nágila se deu conta da gozação e sorriu. Joelson fechou a porta, voltou à mesa e sentou-se em sua cadeira — olhos em mim, de pé à frente dele.
— Deixa ver se eu entendi: você quer entrevistar o Diabo.
— Isso é uma simplificação.
— Me esclareça, então.
— Minha ideia é provar que o Diabo não existe.
Joelson entrelaçou as mãos sobre a barriga, cotovelos nos braços da cadeira.
— Você percebe que das duas uma? ou você entrevista o Diabo… ou ele não existe?
— Mas é isso. — Apontei-lhe o dedo indicador. — Eu irei evocar o Diabo, para uma entrevista. Se ele não aparecer, é porque não existe.
Joelson desentrelaçou as mãos, que passaram a segurar a quina dos braços da cadeira.
— Pensa que o leitor é tolo? “Chamei o Diabo, ele não apareceu e por isso ele não existe”?
Joguei meu grande trunfo:
— Vou usar uma evocação real. A mesma que as bruxas usaram ao longo da história.
Joelson recuou com a nuca.
— E como vai ter acesso a um feitiço assim?
— Tenho meus recursos.
Dei um passo à frente e, mãos a gesticular:
— Vou descrever o ritual em detalhes. Deixar claro a origem. Ao fim, irei desmascarar todos esses grupos e seitas que acreditam no Satanás.
Joelson meneou a cabeça.
— Você devia ter cuidado.
— Com o quê?
— Com quem.
— ?
— Tome cuidado com quem irá conversar para ter acesso a esses rituais. Tem muita
gente doida por aí.
Por um segundo, a surpresa me calou. Joelson nunca demonstrara nenhuma preocupação comigo.
— Me autorize a fazer a matéria. Acho que dá manchete de primeira página. — Pus as mãos no bolso da calça jeans. — Na verdade, vai ser a entrevista do século.
—Você só se esquece de uma coisinha.
— O quê?
— Os Alencar. Eles querem sua cabeça por causa das últimas matérias. Imagine quando lerem essa.
— Eles vão adorar.
Joelson tirou dos braços da cadeira as mãos, que ergueu à altura do rosto, palmas para cima.
— Vão adorar?
— Uma matéria mostrando com fortes evidências que o Diabo não existe?
Ele pôs as mãos em lâmina sobre a mesa, palmas para baixo.
— Se o Diabo não existe, Lúcio, significa que Deus também não. Afinal, a fonte de veracidade deles é a mesma: a Bíblia.
Fui pego de surpresa. Esse era meu trunfo secreto, que ia guardar para mim: ao demonstrar que o Diabo não existe, ia pôr no leitor a mensagem subliminar de que Deus tampouco. Jamais imaginei que Joelson seria vivo o suficiente para perceber isso.
Tive de improvisar:
— Somos jornalistas. Fomos treinados pra perceber essas conexões. Os Alencar, não. Mesmo se forem espertos para associar… — Tirei as mãos dos bolsos e as pus na borda da mesa. — O cérebro humano sempre tenta racionalizar; dizer a nós o que queremos ouvir. A mensagem da matéria será no fim a que todo cristão quer ouvir, por mais contraditório que
pareça.
— E que mensagem seria essa?
— Que o Diabo é só uma história pra assustar crianças.
Por alguns segundos, Joelson pareceu refletir sobre tudo que ouvira.
Enquanto esperava, eu tentava esconder a ansiedade. Será que ele iria autorizar a matéria? E, se autorizasse, faria isso sem impor restrições? Eu teria plena liberdade de trabalho?
Joelson já ia falar, quando—
Crás!
A pintura da última ceia caíra da parede.
Entreolhamo-nos, sem nada dizer.
Joelson apertou um botão no painel do telefone e chamou por Nágila. Ergueu-se.
— Vá em frente com a matéria.
Saí rumo à porta — por onde entrava naquele instante Nágila — e, radiante com a vitória, fui até as baias da minha editoria.
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Por acreditar no Satanás, Lili jamais iria me dizer o ritual de convocação. Teria de ser criativo para extrai-lo dela.
Tentei primeiro me informar de modo casual, como se por mera curiosidade. Sempre que saíamos — a restaurantes, cinema, shows de música —, eu tentava inserir na conversa os antigos rituais de bruxaria.
— Como se evoca? — perguntei enquanto caminhávamos no calçadão da Beira-Mar, as ondas de encontro às rochas a nos respingar de água salgada e espuma.
— Melhor não saber…
Após duas semanas, mudei de estratégia.
Nas noites em que ficava no apartamento dela, eu a esperava dormir e me esgueirava até o estúdio.
Ali, folheei livros e papéis soltos que descreviam um sem-número de feitiços. Nenhum, no entanto, era o que eu precisava.
Minha sorte mudou quando certa noite encontrei um diário, onde Lili anotava dúvidas, reflexões, memórias etc.
Uma das anotações informava que as feiticeiras wicca precisavam, uma vez por ano, às onze da noite, praticar com uma bruxa antiga um ritual de convocação. Só assim, por esse retorno isolado às raízes satânicas da bruxaria, mantinham em equilíbrio sua comunhão com a natureza.
Não tive de esperar muito: alguns dias depois, Lili me informou que precisaria da noite seguinte para o ritual mais importante do ano no calendário da wicca.
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Na noite seguinte, despedi-me de Lili às nove, desci para a rua em frente a seu prédio, entrei no carro e… ali fiquei, à espera; no banco de passageiros, uma máquina fotográfica
digital Canon, uma caneta esferográfica e um bloco de notas.
Às dez, o portão automático da garagem do edifício se abriu. Da rampa emergiu um Fiat Palio de cor negra, a silhueta de Lili discernível pelo vidro fumê.
Ela seguiu pela esquerda. Liguei o carro e fui atrás.
O Palio acessou à direita uma rua, seguiu por dois quarteirões, fez um quadrado e pegou uma avenida, rumo ao sul.
Eu a seguia de longe, as ruas quase desertas àquela hora. Às vezes acelerava, para não ser pego na luz vermelha de um semáforo.
Após cerca de dez minutos de viagem, Lili pegou à esquerda em uma avenida e depois à direita em uma rua. Alguns quarteirões depois, chegávamos a uma das favelas mais perigosas da cidade.
Lili dobrou à direita em uma ruela e parou.
Sem dobrar, passei pela viela e freei o carro.
Pelos retrovisores, vi que Lili estacara em frente a um barraco, junto a cuja parede frontal uma tabuleta de madeira anunciava, em letras escritas à mão:
Produtos místicos
Velas - Incensos - Banhos
Artigos de magia
Lili desceu do carro e, sem temor aparente, bateu duas vezes na porta do barraco e entrou.
Remexi-me no banco. Eu deveria temer pela segurança de minha namorada, à solta em um lugar daqueles; mas só me deixava assolar por um estranhamento: a Lili que eu conhecia jamais entraria por vontade própria, e sem medo, em um barracão de favela.
Sem que eu conseguisse barrá-la, a dúvida me atingiu:
“Será que a conheço mesmo?”
Tive de deixar os pensamentos de lado, ao perceber que tanto meus carros quanto o de Lili chamavam atenção dos moradores. Cabeças apareciam às janelas. Na frente dos barracões, pessoas sentadas em cadeiras tinham parado de conversar, olhos nos dois automóveis — ambos de categoria popular, mas de luxo para os padrões dali. Um rapaz em uma bicicleta estacou do outro lado da rua em que eu estacionara e, cigarro de rolo na boca,
ficou a me prescrutar.
Tentei manter a calma. Olhos por todos os lados, limitei-me a esperar.
Rápido, Lili, rápido…
Após alguns segundos, para meu alívio, Lili saiu do barracão, entrou no carro e partiu. Fiz um balão e a segui.
Cerca de vinte minutos depois, circulávamos no centro da cidade. Àquela hora, sem viv’alma nas ruas, exceto um ou outro mendigo em farrapos, a catar comida nos montículos de dejetos nas calçadas ou zanzar em transe de cola de sapateiro. Por quinas e recantos escuros, saíam e entravam ratazanas. Aqui e ali, sob ameaça dos pneus de meu carro, um pombo revoava.
Após dobrar em uma esquina, Lili estacionou em uma rua, desceu e, sem bater, entrou em uma casa.
Sem muro, com paredes brancas descarnadas, a residência tinha uma porta da frente de madeira maciça flanqueada por uma janela fechada, ao lado de uma caixa de correio metálica, de modelo antigo. Na calçada, vasos de concreto, sem terra nem plantas.
Parei o carro na esquina oposta e, virando-me no banco, examinei o local.
Ao ver janela e portas fechadas, praguejei em voz baixa. O que eu pensara, que o ritual de magia negra ocorria em um jardim aberto? O que quer que acontecesse ali, seria longe de meus olhos.
Pensei no que fazer. Tentar entrar na casa? Como? Mil ideias mirabolantes de invasão
flamejaram em minha cabeça, vindas de filmes a que eu já assistira e thrillers que já lera.
Nada prático, viável...
… até eu pensar:
A janela.
Rua deserta, casa pequena. Se o ritual fosse na sala, talvez eu conseguisse ouvir algo da janela. Lili já me falara de que como na wicca (e, imaginei, na bruxaria de verdade) as palavras tinham poder encantatório.
Botei a câmera fotográfica em meu bolso, peguei o bloco e a caneta e saí do carro. Atravessei a rua e, de cócoras junto à parede (de modo que minha silhueta não fosse vista ao
cortar a luz que saía dos postes e atravessava as frestas das venezianas horizontais cerradas), pus-me no lado da janela mais afastado da porta.
Nesse momento, reparei: tratava-se de uma casa de esquina, a parte lateral mais distante de mim a dar com a outra rua.
Anotei: encruzilhada.
Abeirei o ouvido perto da madeira da janela — a tempo de escutar, a duas vozes:
“Lúcifer, nós te invocamos, em nome do poder da escuridão, para que…”
Anotei o horário (onze) e depois me pus a escrever as palavras. Minha caligrafia nunca fora bonita, mas naquela noite saiu pior, as letras como garranchos borrados. Com o canto da mente (a atenção no ritual), compreendi logo o motivo: minha mão tremia.
O frio, talvez…
À medida que o encantamento prosseguia (“dê-nos uma fração de seu poder, tu que és o Príncipe das Trevas, o— “), um enjoo me invadiu. Refluxo subiu por minha garganta e jogou em minha língua sabor quente de vômito. Notei que minha barriga estufara. Esforceime para ignorar tudo e continuar as anotações.
“… glorificado sejas vós, Príncipe das Trevas, como era no princípio, agora e sempre.”
Escrevi “sempre” e fiquei com a caneta no ar.
Nenhuma outra palavra se fez ouvir. A evocação acabara.
A chave da porta girou no trinco. Corri e me refugiei na viela lateral à esquerda, por trás de umas das paredes da casa.
Escutei, vindas da porta, a voz de Lili e uma outra — uma voz rasgada, como a de uma cantora de blues.
Devido à distância, não conseguia distinguir o que diziam.
Vupt!
Tomei um susto e só por sorte não gritei.
Algo cortara o ar.
Um gato preto. Pulara no parapeito de uma janela a meu lado, de onde me examinava.
Os olhos dele refulgiam no escuro e algo neles (o quê?) me fez estremecer. Desviei os meus.
Nisso, notei que a janela tinha uma laceração, do tamanho de um punho cerrado, nas
persianas de madeira da banda mais perto de mim.
Inclinei-me e olhei dentro da casa.
Na sala, estendiam-se pelo chão de concreto cinco velas acesas, em círculo. Dentro deste, um tapete cor de musgo, onde se espalhavam uma garrafa de cachaça, rolos de fumo, fitas vermelhas, três charutos, um montículo de pó escuro (pólvora, me parecia), um ovo cru e uma pena preta (ambos, pelo tamanho, de galinha).
Tirei a máquina do bolso e, após desabilitar a função flash e tirei algumas fotos. (enquanto o fazia, tentava ignorar o gato, que ainda tinha em mim os olhos)
Da rua em frente à casa veio o ronco de um motor a ligar. Esgueirei-me até o canto da parede, a tempo de ver Lili partir em seu automóvel. A porta da frente da casa se fechou com um bam!
Acabara. Eu já tinha tudo de que precisava: os itens do ritual e as palavras de evocação. Só me restava sair dali.
Não conseguia. Perturbava-me uma curiosidade, tão intensa que parecia grudar meus pés à calçada: queria ver a mulher com quem Lili fizera a evocação.
Sem conseguir me conter, voltei até a janela lateral e espiei pelo oco.
Ela recolhia os itens do ritual. Na penumbra, só lhe via o corpo largo e os cabelos longos. Quando ficava ereta, para pôr em um saco de lixo os objetos que recolhia — as pelancas dos braços a fremir —, sobressaía-se às suas costas uma corcova. Esforcei-me para divisar-lhe o rosto; inútil, ainda mais depois que começou a pegar as velas uma a uma, apagálas com um sopro e jogá-las em uma lixeira a um canto — a cada chama que sumia, maior a escuridão.
De costas para mim, ela se preparava para soprar a última vela, quando se retesou — e se virou rumo à janela.
Sobre a luz da cera a queimar, resplandecia um rosto velho, repleto de rugas e manchas escuras. Tinha as bochechas cavadas, a pele como que sugada para dentro. De seus lábios rachados escorria um filete de saliva. Encimados por sobrancelhas espessas, olhos negros rodeados por olheiras punham-se em mim com uma frieza que eu jamais vira. A chama da vela bruxuleou (de onde vinha o vento?) e a parede atrás viu-se tomada por um
amontoado de formas — só uma das quais consegui distinguir: três pontas de flecha apontadas para cima, a do centro sendo a maior.
Um tridente.
Minhas pernas tremeram. Minha respiração travou. Meus dedos impregnaram de suor o parapeito da janela.
Sem olhar para trás, corri, cruzei a rua, entrei em meu carro e parti.
Pelo vidro retrovisor — minhas mãos a tremer no volante —, vi quando a bruxa saiu e, na calçada, o gato preto a seus pés, ficou a perlustrar meu carro.
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No outro dia, eu estava pronto para o ritual — só para descobrir, ao chegar na redação, que eu não teria motorista.
— Nenhum dos meus homens quer ir pra esse trabalho — disse para mim ao telefone o chefe do setor de transportes do jornal.
— Por que não? — perguntei, sentado à minha baia.
— Primeiro, porque vai ser tarde da noite e o jornal não paga extra.
— Vou falar com o Joelson, pra abrir exceção.
— Mesmo com dinheiro, eles não vão.
Recostei-me na cadeira e suspirei.
— Por que não?
Uma pausa.
— Eles têm medo.
Afastei o telefone da boca e, mais para mim do que para ele:
— Ótimo…
— Eles dizem que com o capeta não se brinca.
Retesei-me, a mão livre sobre a baia:
— Sabe, é por causa de gente assim que eu ‘tô fazendo essa matéria.
— Gente temente a Deus?
— Alienados. Que se deixam iludir por crenças medievais.
— A não ser que a ordem venha direto dos Alencar, meus homens ‘tão fora dessa pauta.
Desferi algum impropério de que não me recordo e bati o telefone no gancho.
Nos minutos seguintes, tentei me acalmar. Disse a mim mesmo para ser mais compreensivo com as fantasias alheias irracionais. Afinal, não fora eu próprio vítima delas, na noite anterior? Não fora afetado pelo ritual a ponto de imaginar um vulto demoníaco dentro da casa? — de tomar por bruxa uma velha corcunda? — de me assustar com um gato
em uma janela?
Eu estava pronto para seguir com a matéria. Não tinha sido difícil conseguir os itens utilizados no ritual: garrafa de cachaça, velas, ovo e pólvora, comprara-os em uma mercearia de rua; fitas vermelhas, em uma papelaria; charuto e rolos de fumo, em uma conveniência de posto de gasolina; e um tapete verde-musgo, em uma loja de itens de decoração.
(Difícil mesmo só a pena preta: após rodar duas horas por bairros afastados, sem nada encontrar, tivera de tomar medidas drásticas: atropelei uma galinha, desci do carro e, sob olhar perplexo dos locais, peguei o animal e parti.)
Eu tinha tudo pronto — e não iria parar por causa de funcionários covardes.
Ergui-me e fui até a sala dos fotógrafos.
Com o horário de almoço já próximo, a maioria deles estava por ali, preparando-se para encaminhar à Chefia de Reportagem os rolos de filme das pautas da manhã.
Localizei entre eles o editor, Josué, sentado sobre uma mesa.
— Tenho que conversar contigo.
— Nem perde teu tempo. Ninguém aqui vai participar dessa pauta.
— Ótimo! — abri os braços. — Um bando de adultos que acredita em histórias de assustar crianças.
Josué deu de ombros.
— Vocês, ateus, pensam que são espertos… mas são os mais despreparados pra lidar com o demônio.
Saí, decidido: iria no meu carro e tiraria eu mesmo as fotos.
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Naquela noite, por volta das dez e meia, estacionei meu carro junto a um matagal, em uma rua secundária à rodovia BR-040.
A escolha foi proposital: por ser um lugar ermo e sombrio, fornecia a atmosfera tétrica que eu pretendia dar à reportagem.
Desci do carro, os itens do ritual em uma sacola e, no bolso da calça jeans, o bloco de notas com a evocação.
Fui até uma encruzilhada, a alguns passos do carro. Deixei ali a sacola e voltei ao automóvel. No retorno, armei a câmera sobre um tripé e programei o disparo automático para começar às onze.
Após nova viagem ao carro, estendi na encruzilhada o tapete verde-musgo, sobre o qual espalhei os itens do ritual. Acendi cinco velas, que dispus em círculo, eu como uma das pontas. Tirei do bolso o bloco de notas, abri na página em que começava a evocação — e esperei, sentado, olhos no relógio de pulso, à espera das onze horas.
Fazia frio. Um vento forte trazia do mato cheiro de carniça. Às vezes um ou outro caminhão troava na rodovia.
Quando meu relógio indicou onze, comecei a ler em meu bloco:
“Lúcifer, nós te invocamos, em nome do poder da escuridão, para que…”
Enquanto lia, pipocavam à minha frente visões, tão vívidas que me assustavam.
Minhas axilas se impregnavam de suor, grudando-se à minha camisa. Meus pés se mexiam,
o resto do corpo a tremer com o movimento.
“… dê-nos uma fração de seu poder, tu que és o Príncipe das Trevas, o—”
Com os cantos dos olhos, eu imaginava ver coisas: sombras a meu lado, o vulto de uma mulher de preto a chorar, algum réptil (?) a se agitar entre as folhas… De algum lugar vinha o choro de uma criança, o pio de uma coruja, o rosnado de um cão…
“… a ti te adoramos, a ti que não se curvou a Deus, a ti que…”
Minha mente se via assolada por lampejos de visão que me enrijeciam o dorso, drenavam-me a saliva e faziam tremer meus lábios. Via à minha frente (e sentia o fedor de) nacos de carne putrefata sendo roídos por vermes e larvas; bueiros e sarjetas por onde escorria água impregnada de fezes; moscas a revoar sobre um rato morto…
“… glorificado sejas vós, Príncipe das Trevas, como era no princípio, agora e
sempre.”
Após dizer a última linha, fechei os olhos, para me livrar das visões.
Quando os abri, as imagens tinham sumido.
Claro, tolo, só existiam na sua cabeça.
Ergui-me e, a girar meu corpo:
— Onde ‘tá você, capiroto? Apareça, se existe!
Nada.
Parei. Livre dos efeitos psicológicos do ritual de há pouco, tudo parecia normal. E como não estaria? Deus e o Diabo, afinal, eram só ilusões, criadas pelos poderosos para manter o povo sob seu controle.
Recolhi tudo, entrei em meu carro e parti.
Dominava-me uma sensação de triunfo: a matéria talvez tivesse repercussão nacional.
Enquanto dirigia, pensava no chefe dos transportes e em Josué.
Idiotas. Tinham inveja de mim… da visibilidade que a reportagem me daria.
Pensava em Joelson.
Arrogante. Não estava à altura do cargo de diretor. Eu é que deveria sentar naquela cadeira!
Pensava em Lili.
Dissimulada. Todo aquele papo de wicca, de feitiçaria branca… enquanto, às minhas costas, frequentava favelas, praticava magia negra!
O que mais? — pensei. O que Lili fazia sem que eu soubesse?
(será que me trai?)
O que farei com eles? — me perguntava. — O que farei com os que me invejam, me sabotam, me traem?
Enquanto acelerava o carro, sem respeitar limite de velocidade, semáforos, placas de trânsito — sem ligar para essas e outras regras que tinham me prendido por toda a vida —, enquanto pisava fundo, a resposta me veio súbita como uma chama de isqueiro:
Vou matar todos.
FIM





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