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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Francisco Zerwes (Categoria Conto)

há 11 minutos
6 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Francisco Zerwes é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e escreve tanto por trabalho quanto nas horas vagas. Apesar de prezar pela escrita factual, também aprecia cultivar a ficção.

O TEXTO:


O velório de Roberto Faria


Memento Mori. Dizem os estoicos que devemos nos lembrar de que morreremos. Mas e depois de morrermos, do que devemos nos lembrar? Lembro-me de muita coisa, e a maioria parece insignificante agora que estou em meu próprio velório. De que adiantou tudo que fiz? Os dias em que acordei cedo, os boletos que paguei, as louças que lavei, os dias em que trabalhei… tudo para acabar no caixão mais barato da funerária.

Meu nome é Roberto Faria. E de fato, Roberto faria muitas coisas, mas não as fez. Por quê? Falta de tempo, falta de dinheiro, falta de habilidade… mais faltas do que em uma final de campeonato de futebol. Mas no fim, compreendo que a única falta real foi de vontade.

Antes de presumirem que isto é uma autobiografia póstuma, fiquem tranquilos. Não serei presunçoso a ponto de me considerar um defunto autor. Diria que não passo de um defunto contemplador: com estas palavras, venho sem qualquer objetivo além da contemplação do que fui (ou deixei de ser). Não as dirijo a ninguém, exceto a mim mesmo em minha consciência pós-vida.

Quarenta e cinco anos de idade. Não me achava novo, mas com certeza era novo demais para morrer. Achava que tinha décadas pela frente! Não tive esposa nem filhos. E agora, quem chora ao meu lado? Um irmão e uma irmã, que logo voltarão para suas casas e famílias. Em dois meses, nem mencionarão mais meu nome, exceto pelas raras ocasiões em

que algo os lembre de mim. Mas o que o faria? Nunca fui excepcional em nada. Emprego comum de escritório em uma agência e nenhum hobby digno de nota. Passava minhas noites sozinho, imerso em leituras ou em filmes. O que fiz para que as pessoas se lembrem de mim? Ter lido Machado de Assis e visto a filmografia de Stanley Kubrick certamente não o fará. Deixo o mundo dos vivos sem legado que registre a minha passagem por ele.

Apesar de meus olhos estarem fechados, vejo velhos conhecidos passarem por mim. Param do meu lado por uns instantes, seguram as lágrimas ou apenas libertam algumas e, depois, vão socializar com os demais. Enquanto isso eu permaneço sozinho, assim como em

vida. As pessoas vão aos velórios mais pelos vivos do que pelos mortos, notei. Saber das novidades, prestar condolências, seguir em frente. Agora que estou para ser enterrado, minha opinião não tem mais importância e tampouco sou impressionável.

Pelo menos estou bem vestido, apesar de que preferiria outra camisa por baixo do paletó. Dois enormes arranjos de flores flanqueiam a frieza de meu cadáver, enviados por parentes de outras cidades, já que encomendar flores era mais barato do que pagar pela viagem.

Observando de meu leito definitivo, através de pálpebras pétreas, vejo um antigo amigo da época do colégio. Ele baixa os olhos, franze o cenho e contorce os lábios, como se uma memória nossa antes esquecida por ele regressasse da tumba. Gostaria de saber qual. Uma tia distante também passa por mim, seguida por primos que eu não via desde a juventude, todos casados e com filhos. Vejo outros conhecidos também, que não encontrava há anos e nem mantinha contato, enquanto pessoas bem mais próximas não chegaram nem a ver a cor do meu simplório sarcófago. No total, conto vinte e cinco pessoas. Imaginei que viriam mais, mas poderia ser pior. Entre tantas decepções com as quais me deparo com a finitude da vida, esta é uma das que menos me fazem desejar me contorcer no caixão.

É inegável que minha vida tenha sido pacata e desinteressante, mas pelo menos minha morte não foi, embora tenha sido estúpida. Fui atropelado por uma moto enquanto atravessava a rua, uma moto que furou o sinal vermelho e eu não ouvi porque estava escutando música com fones de ouvido. Quando caí, bati a cabeça, sangrando ao som de Beethoven. A visão ficou turva; gente por todo lado, ambulância, maca, hospital… fim. Ao menos em meus últimos suspiros consegui chamar atenção.

Poderia ter aprendido a andar de bicicleta… Se tivesse, talvez não estivesse a pé naquele dia, atravessando a faixa de pedestre no momento errado e não teria sido atropelado. Mas de nada adiantam os “se tivesses”, mesmo sendo muitos. Eles são tão úteis quanto os “farias”. Que tolo foi Roberto Faria. Gostaria de ter sido o Roberto Fez, mas assim como os “se tivesses” e os “farias”, tampouco me servem os “gostarias”.

Memento Mori. Talvez essas palavras em latim, embora direcionadas aos vivos, também

sirvam aos mortos. “Lembre-se de que vai morrer”, mas há um significado maior por trás disso. É a lembrança de que, se não podemos alterar algo inevitável, devemos encontrar paz

nessa ausência de autonomia. De nada adianta nos torturarmos por algo se é impossível evitálo ou alterá-lo. Assim como os vivos não podem evitar a morte para sempre, os mortos não podem mudar o que fizeram em vida. Não há nada que eu possa fazer para desfazer a insignificância da minha pífia existência.

Fiz o que fiz, vivi como vivi. Para os vivos, deixo de herança poucos bens materiais, sem nem testamento. Morava de aluguel, portanto, aos meus herdeiros restam apenas uma pequena poupança, um relógio e minhas coleções de livros e filmes. Depois de pagarem os devidos impostos, sobrará menos ainda, o que certamente deixará o governo contente. Ao menos alguém ficará feliz por minha causa. Já quanto ao resto do que deixo, além do que pertence ao âmbito material… acredito que nem valha comentar.

Nunca fui carismático ou sequer alguém que poderia ser considerado uma boa companhia. Sempre fui mais recluso, apegado a uma rotina repetitivamente solitária. O silêncio me trazia conforto, assim como permanecer em silêncio. A música era meu escape dos barulhos das ruas e a única coisa que me trazia certo conforto no trânsito até o trabalho diariamente. Justamente a causa da minha morte. Quando estava em casa, preferia deixar o ambiente quieto. Filmes eram a única exceção à regra. Outros sons, como vozes e chiados misturados uns aos outros, irritavam-me a alma e me faziam clamar pela quietude.

Mas agora que mergulharei no silêncio eterno, sinto falta dos pequenos barulhos, do soar das palavras lapidadas pelos lábios. O silêncio absoluto parece aterrador até para quem

abominava os incômodos sons da civilização, por menores que fossem.

Enquanto rumino estas reflexões póstumas, chega o momento da cerimônia. O padre, que nem me conhecia, faz um breve discurso sobre mortalidade e amor. Gostaria eu mesmo de ter discursado, pois falaria por experiência. Esse padre nunca morreu para ter autoridade para falar sobre o assunto. Ele menciona os “apesares” da morte, mas a morte não inclui “apesares”. Ela é um ponto final.

Encerradas as reflexões (errôneas, ao meu ver) do sacerdote, ele pergunta se alguém deseja falar algo. Sinto um profundo silêncio no salão, um silêncio sepulcral demais até para um defunto. Ninguém se manifesta. O que diriam sobre alguém que nunca fez nada importante, que morreu sem deixar marca alguma? Não havia nada digno de nota, nem sequer de rodapé.

Com algumas palavras finais do padre, funcionários da funerária se aproximam e tampam meu caixão, abafando e lacrando todas as minhas memórias, sonhos, afetos e vontades. Todos os meus “gostarias”, “tivesses” e “farias”. Meus olhos fechados já não enxergam mais nada.

O mundo dos vivos é como a lembrança de um sonho dias depois de ele ter ocorrido. Não há escuridão, nem sequer o silêncio que eu esperava, apenas o absoluto nada, que dispensa todos os sentidos.

Mas então, começo a notar algo. Escuto murmúrios, mas não com meus ouvidos — estes já não existem mais. Ouço com a alma, que detém todos os sentidos embutidos, mas ao mesmo tempo nenhum. Não são sons que escuto; são resquícios, fragmentos deixados pela música das almas, vibrações que agitam os cordões que atravessam o espaço-tempo. Percebo que essas sensações sempre existiram, mas nunca fui capaz de senti-las até agora, até a minha inexistência física. Agora eu as compreendo em sua totalidade absoluta. Eu escuto sem escutar lágrimas derramadas, mas também sorrisos repletos de riso. São memórias gravadas na conjuntura universal, distantes, próximas, recentes, presentes e futuras. Memórias de que, em algum momento, fui importante para alguém.

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