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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Elton Danana (Categoria Conto)

há 3 minutos
4 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Elton Danana (da Nana) nasceu em São Paulo, mas radicou-se no Ceará. Escreve desde os 16 anos.

Autor dos livros “Vila sem Muros” (2015) e “­Enquanto Quaravam os Lençóis” (2019); é membro da jovem Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará. Em 2025, lançou a obra de poemas “Ilha Contra o Mar”, durante a Bienal Internacional do Livro no Ceará. Em 2026, lançou “O Grito das Pequenas Coisas”, pela Editora Minimalismos. Atualmente, reside em Fortaleza – CE.


O TEXTO:


O centauro de Messejana


Nazaré não vendia comida; ela orquestrava a logística. No final da linha do Terminal de Messejana, entre o vapor dos escapamentos e o grito dos fiscais, sua caixa de isopor era um posto avançado de civilização.

 Ela tinha olho clínico. Sabia quem queria o baião com ovo (o pedreiro com pressa) e quem pagaria extra pela carne de sol (o estudante bolsista no dia do pagamento). Mas seus olhos, acostumados a escanear a multidão, só brilhavam para uma direção: o alto.

 Givonildo não era um homem; era uma engrenagem.

 Quando o Mercedes-Benz articulado apontava na curva, rugindo como um leviatã de metal azul, o chão tremia sob as sandálias de Nazaré. O freio a ar soltava aquele suspiro longo e sibilante — tsssss — como uma besta acalmando a respiração. E lá no alto, protegido pelo vidro fumê, estava ele.

 Sentado no trono de napa, com a toalhinha branca no pescoço e os óculos escuros de aviador, Givonildo não dirigia; ele pilotava o mundo. Com um leve toque de dedos, abria as portas traseiras, despejando a humanidade na calçada. Com outro toque, guiava destinos.

 Nazaré aproximava-se da janela do motorista como quem faz uma oferenda ao altar.

 — O de sempre, Seu Givonildo? — perguntava, esticando o pescoço para olhá-lo de baixo para cima.

 Ele sorria, um dente de ouro faiscando na sombra da cabine. — Capricha na pimenta, Naza. Hoje a linha tá pesada.

 A troca de dinheiro e marmita era o flerte possível. As mãos se tocavam brevemente. Nazaré sentia o cheiro dele: uma mistura de lavanda barata e óleo diesel queimado. Era o cheiro da autoridade.

 O convite veio numa terça-feira chuvosa. — Tem Roberta Miranda no Pau de Arara sábado — ele disse, a voz grossa competindo com o motor em ponto morto. — Tu vai comigo?

 Nazaré sentiu um calor subir pelo pescoço. — Vou. — Passo na tua casa às oito. Esteja pronta.

 E a porta se fechou. O ônibus partiu, levando seu centauro de aço para a batalha da BR-116.

 Sábado chegou. Nazaré gastou metade do lucro da semana no salão. O cabelo estava armado, erguido como um escudo contra a umidade. O vestido vermelho, justo, marcava o corpo que ela alimentava com as sobras do isopor. Ela sentou-se na calçada de casa, o coração acelerado.

 Imaginou a chegada. Não esperava que ele viesse com o ônibus da empresa, claro. Mas Givonildo era um homem de máquinas grandes. Imaginou talvez uma D-20 robusta, coisa de fazer tremer rua. Qualquer coisa que mantivesse a escala, a grandiosidade.

 Às oito em ponto, ouviu-se o som.

 Não era um rugido. Não era um trovão. Era um zumbido. Um nhééééé agudo, asmático, arrastado, como um mosquito gigante agonizando.

 Nazaré levantou-se, procurando a origem. O zumbido aumentou, engasgou, tossiu fumaça branca e morreu na frente do seu portão.

 Era uma mobilete Caloi. Vermelha. Com o escapamento furado e pedais de bicicleta para ajudar na subida.

 Givonildo desembarcou. Ou melhor, ergueu-se. Desprovido da moldura de toneladas de metal ao redor, sem o trono elevado, ele parecia ter encolhido meio metro. Os óculos de aviador pareciam grandes demais para o rosto. A camisa aberta no peito, exposta ao vento, revelava um tórax magro, vulnerável.

 — Vamos, princesa? — disse, dando uma tapinha no banco de vinil rasgado da motinha.

 Nazaré olhou para a mobilete. Olhou para Givonildo. Olhou para o próprio vestido vermelho.

 O monarca fora descoroado. O centauro fora amputado de sua metade cavalo. Ali estava apenas o homem, um simples civil sujeito aos buracos da rua e à humilhação do asfalto.

 — Vamos — disse, a voz murcha como um pneu furado.

 A viagem foi um calvário. Nazaré teve que segurar na cintura fina de Givonildo, sentindo as costelas dele em vez da vibração poderosa do motor a diesel. A mobilete gemia a cada quebra-molas. As pessoas na rua olhavam. Não olhavam com respeito, como olhavam para o ônibus. Olhavam com pena.

 No show, Roberta Miranda cantou sobre amores desencontrados, e Nazaré chorou. Givonildo achou que era emoção pela música. Abraçou-a, beijou-a. O beijo era o mesmo, o cheiro de lavanda estava lá. Mas faltava o diesel. Faltava a altura.

 Na volta, a corrente da mobilete caiu duas vezes na Avenida Frei Cirilo. Givonildo sujou as mãos para consertar. Graxa rala, não a graxa nobre e espessa dos eixos pesados. Nazaré esperou na calçada, abraçando os próprios braços contra o vento úmido, olhando para ele agachado no meio-fio, pequeno, vencido por uma mecânica de quintal.

 Nesse instante, um biarticulado noturno passou roncando rasgado pela avenida. O chão tremeu sob as sandálias de Nazaré, e uma lufada de vento quente bateu no seu rosto. Ela não olhou para o homem com as mãos sujas aos seus pés; seus olhos seguiram a fera de metal sumindo na escuridão.

 Na segunda-feira, o sol quente fritava o concreto do Terminal de Messejana. Nazaré estava no posto de sempre, arrumando as quentinhas. Quando o Mercedes-Benz apontou na curva, o rugido espantou as pombas do teto de zinco e fez o sangue dela correr mais rápido. O chão voltou a tremer.

 O monstro parou. O suspiro do freio a ar — tsssss — varreu a calçada, a música mais erótica que ela já ouvira. A porta sanfonada abriu.

 Lá em cima, no alto do trono de napa, inalcançável e blindado pelo vidro fumê, Givonildo sorriu, o dente de ouro faiscando na penumbra da cabine. Ele era um deus novamente.

 — O de sempre, Naza? — a voz desceu grave, amplificada pela acústica do painel.

 Nazaré ficou na ponta dos pés, esticando a marmita de isopor até o limite dos braços para alcançar a janela. Os dedos se roçaram. O calor do motor e o cheiro cru de óleo diesel invadiram suas narinas, embriagando-a.

 — O de sempre, Comandante — respondeu ela, olhando para cima, sem piscar.

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