3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Luísa Martinis Sombra (Categoria Conto)

SOBRE A AUTORA:
Luísa Martinis Sombra é carioca, tradutora e professora de língua portuguesa. Leitora assídua, dedica-se ao estudo da linguagem e encontra na ficção um espaço para explorar as complexidades e nuances da psique humana. Com o conto selecionado, concilia a rotina da sala de aula com a sua estreia no circuito dos concursos literários.
O TEXTO:
Na hora
Estava chovendo quando o telefone tocou pela primeira vez. Quarta-feira. Não, quinta. Terça! Na verdade, eu teria que olhar no calendário. Enquanto escrevia a introdução do relatório semanal, ergui os olhos acima da linha dos óculos ao som do segundo toque. Um gesto irrefletido; a órbita, deslocada.
Encarei o ambiente. A sala ainda estava ali – preenchida por excessos, e ainda assim vazia. Sobre a estante, a luz pálida da janela atravessava um peixe de cristal e projetava sombras na parede. Encarei o nada e, por lampejos errantes, realmente não pensei em nada. Mas então minha mente percebeu que não pensava. Isso tem se tornado frequente — no meio de uma conversa, ao contar uma história. Quando volto, nunca sei quanto tempo se passou. É por isso que peço desculpas como quem respira. A palavra já sai sem ar. Mais um assunto para a terapia. “Oi? O que você disse? Desculpe, estou com uma otite” – mentira. Se eu pudesse, viveria no mundo dos sonhos, sob a gravidade de verdades inventadas.
O toque da ligação segue atravessando o ar. Telemarketing, na certa. Deixo passar.
As cortinas, apenas semiabertas, deixavam escapar um recorte do céu, onde nuvens assumiam formas coléricas, tingidas de cores densamente escuras. Eu as queria completamente fechadas, é mais fácil para trabalhar. Mas a cordinha que deveria trancar o tecido se rompera — e, sabe como é, final de mês.
Ah! Nota mental: colocar na lista de conserto a parte de cima do ar-condicionado. Sempre que chove, as gotas grossas caem com força no aparelho, martelando um barulho insistente e ritmado, como o tictac de um relógio, sussurrando ecoando trovando golpeando devorando. Meu celular segue chamando.
A chuva? Nem se fala.
Trimtrimtrim aqui dentro, chhhhhhhh lá fora.
“Não vou atender, preciso trabalhar”, o pensamento me atravessou. Ando muito distraída, ouvi dizer que é o uso do celular, outros dizem que possivelmente é TDAH – o que é isso mesmo? Embaralho com outras siglas. Pode ser também falta de vitamina B12, escutei duas vezes falarem isso esta semana, ou seria falta de vontade de vencer?
O toque finalmente cessa.
Sacudo a cabeça. O relógio na estante acusa cinco minutos perdidos em pensamentos sem um definido dono. E o martelar no ar-condicionado insiste, um metrônomo que ecoa a lembrança da infância, na casa de papai, e sua obsessão por relógios. Um dos meus traços herdados; hábito impensado. O velho tinha um que marcava as horas com passarinhos — cada canto, uma espécie, cada espécie, uma cor. Era o meu favorito.
Com o tempo, as pilhas cediam. Os relógios passavam a discordar entre si.
A casa inteira marcava horas diferentes. Cada parede habitava um tempo próprio.
Nunca sabíamos se estávamos adiantados demais ou presos a algum passado.
A nuvem me encara, assumindo um semblante ainda mais enraivecido.
Curiosamente, meu ar-condicionado me informa que a chuva começa a se acovardar. Volte a trabalhar! Não pode se esquecer dos deadlines dentro dos pipelines — Deus me livre afetar alguma baseline.
“A estrutura sistêmica da empresa reforça a cultura organizacional definida por seus princípios e valores estab—”
TRIM!!!
“— elecidos…”
Volto a ser assombrada. Já experimentou deixar no silencioso? Dizem que ajuda a se concentrar. Mas então para que ter um celular? Dessa vez, não resisti; o visor explodia em um branco estéril, uma lâmina de luz atingindo o ambiente. Espiei o nome.
Viviane ligando.
Minha irmã não me ligava. Nunca. A essa altura, ela já deveria saber que nosso relacionamento sobrevivia num armistício tácito: datas comemorativas, respostas monossilábicas e silêncios longos o bastante para parecerem definitivos. E tudo isso por mensagem. Na certa, precisava de um documento urgente para alimentar alguma urgência pessoalíssima. Sua silhueta irrompeu na minha mente. Repreendi o fantasma: volte à distância onde nunca me toca.
Deixei tocar.
Cinco segundos. Seis. Sete.
Mais tarde mando mensagem dizendo que não vi a ligação.
Onde eu estava? Releio a última frase escrita. Ah, sim! Mas o que eu queria escrever mesmo? Prazo. Boleto. Reunião. Agenda.
É o mesmo hiato que me visita toda semana na sala de espera da Dra. Vânia, onde pairo, em silêncio, até a sessão anterior terminar. Paredes estreitas, pintadas de um bege desbotado, um rádio velho e rouco, revistas amareladas de anos anteriores espalhadas sobre a mesinha, cheiro de café esfriando e verniz antigo. Como companhia, apenas um peixe de cristal. Transparente, imóvel, fora d’água. Vê-se através dele: não há vísceras, apenas luz cativa. Ele não fala, mas ainda assim seu corpo refletido me responde numa língua que não entendo; o mundo lá fora se dissolve facilmente. Sua existência impõe-se, embora condensada. Não luta contra o vidro: ele é o vidro. Decidi comprar um igual para casa.
TRIM... Não é possível. Depois eu é que sou a mal-educada, claro. O toque vinha mais alto, mais perto, mais dentro — como se finalmente tivesse criado coragem para me preencher. Ou raiva. Raiva de ser ignorado.
Ok, ok. Vou atender. Contente?
A luz derramada no piso da sala indicava que a chuva não só enfraquecia, como o sol começava a desalojar as nuvens.
– Onde você estava? Liguei mil vezes. – Sua voz estava levemente trêmula, como costumava ficar quando éramos crianças e pregávamos sustos uma na outra mas tentávamos disfarçar o medo para evitar as broncas dos adultos.
– O que você quer?
– É sobre o velho... — a voz do outro lado da linha era um eco distante.
Eu já deveria saber. No fundo, ele era uma das poucas coisas que ainda nos unia. A barba rala e a calvície anunciada desenharam-se no vazio, sobrepondo-se à voz no telefone.
Eu havia me encontrado com papai há poucos dias, ele ficou animado quando contei que recebera uma promoção e agora poderia trabalhar de home office não mais apenas dois dias da semana, e sim três. “Seu chefe confia em você”, disse, com um orgulho discreto. Lembrei das suas viagens intermináveis às plataformas ao longo de nossas vidas, dos fusos que eu não entendia, do trabalho que eu nunca soube nomear. Não importava o país ou o oceano; quando éramos crianças, ele ligava todos os dias. Naquela época, eu sempre atendia.
Nas últimas vezes que nos encontramos, ele mencionou que, no bairro, falava-se de um abaixo-assinado para reformar o túnel — a drenagem falhava, e nas chuvas mais fortes a pista desaparecia sob a água turva. Quando finalmente fui assinar, o prazo havia vencido. Estranho; eu tinha a impressão de que ainda faltavam muitos dias. Ultimamente as horas parecem encolher. Ou talvez eu esteja me alongando demais dentro delas. Como alguém escorrega para fora do tempo?
A ausência de minha irmã contra o meu ouvido seguia dilatada, de modo a me fazer percebê-la. Os silêncios se tornavam mais estridentes justamente quando nos falávamos. Imediatamente, minha mente disparava frases soltas — qualquer coisa, menos dividir o silêncio com Viviane. “O trabalho vai bem? Suas roupas ainda estão aqui em casa. É dinheiro? Putz, também não tenho”. Ainda assim, nenhum som saía da minha boca. Até mesmo a chuva se recolheu. Eu só lembraria do ar-condicionado novamente no próximo temporal.
– Papai sofreu um acidente de carro saindo do túnel.
Não.
Não.
Não.
De súbito, vertigem. Um frio desceu pela espinha; no peito, um trovão contido. Uma fisgada breve me cerrou o estômago. Pensei nos nossos almoços de domingo, que já faziam parte da minha rotina.
Arroz madeira antiga farofa suco de maracujá o estalo do isqueiro risadas jarro boné doce de leite.
Viviane não ousou dizer ainda nenhuma outra palavra. Eu também não. As duas escondidas, esperando quem daria o próximo susto.
Tudo lá fora agora tinha apenas uma única cor: dourado opaco.
Não deve ser nada grave. “Notícia ruim corre rápido”.
– Bom...
Uma de nós começou, e nada mais veio.
Pela fresta da cortina, a claridade já feria os olhos.
Como minha irmã permanecia em silêncio, cheguei a olhar o visor para ver se a ligação havia caído.
Ainda estava ali.
Ainda.
Meu peixe de cristal me encara.
Sinto-me fisgada.
– Viviane?
Respiração;
– Ele está bem?
Nada.
– Em qual hospital?
Silêncio.
– Na verdade ...
Ele morreu na hora.





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