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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Gustavo Rossi (Categoria Conto)

há 3 dias
3 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


(João Gustavo Santos Marçal no documento, sendo o Rossi oriundo da família de minha avó paterna) 

Nasci em Maringá, em 1986, morei em outras cidades por algum tempo, incluindo Rio de Janeiro, e atualmente vivo em São Paulo; a literatura, entre as formas de arte, foi a primeira a me compor; escrever é ato fundamental de quem sou. 



O TEXTO:


Quarto



Tá podendo falar, Rose?; se for rápido tô, Marinez, é que tô aqui na casa daquele chato, o que fica o dia inteiro pintando quadro, ou diz que tá pintando, vai saber, ele saiu ali rapidinho, acho que foi comprar o removedor de mancha que eu pedi, mas deve tá pra voltar; o doidão que anda pelado pela casa, o da General Urquiza?; esse doido aí mermo, cada dia mais gordo o infeliz; eu hein, é cada uma, mas vem cá, deixa eu te perguntar: tu tá sabendo que o Claudemir voltou, né?; que Claudemir?; o Claudemir, Rose, o meu Claudemir; ah tá, teu exmarido, mas voltou de onde pra onde que eu nem tava sabendo que ele tinha ido pra lugar nenhum; voltou a morar em casa, menina, cê acredita?; ué, gente, mas como é que é isso?, e o Vanderley nessa história?; deixa eu te contar o fuzuê: o Claudemir já vinha fazia tempo querendo falar comigo, porque a irmã dele mora ali perto e vinha falar pra mim, “olha, Marinez, o Clau quer falar contigo, ele tá meio sem dinheiro, tá difícil arrumar um trabalho bom, aluguel tá cada vez mais caro, ele quer saber se não pode ficar um tempinho naquele quarto dos fundos da casa de vocês até arrumar um emprego legal”; gente, que isso, você casada com outro homem já faz o quê, Marinez, uns três anos?; quase isso já, Rose; mas e aí, como é que o encosto entrou lá na tua casa de novo?; aí eu falei pra irmã dele que antes de tudo a casa não era minha e dele, era só minha, e que não tinha muito cabimento ela me falar uma coisa daquela sabendo que eu já tava casada com outro; e mesmo assim ela pediu pra tu enfiar o sujeito lá?; menina, o cara-de-pau não me aparece num domingo à tarde, numa chuva do caramba, com mala na mão, lá na porta de casa?; e tu colocou o homem pra dentro, Marinez?; eu ia fazer o quê, meu Deus?; mas tu sabe que agora essa praga não vai sair de lá de jeito nenhum né, é igual gato de rua que tu põe leite na frente do portão, vai ter que te virar com isso; não dá, Rose, eu vou perder o Vanderley desse jeito, o homem tá uma fera comigo, só que o Claudemir, coitado, pra não atrapalhar e piorar a situação, tenta fingir pra gente que nem tá ali dentro de casa, não sai daquele quarto nem pra mijar, cê acredita numa coisa dessa?; sério?; sério, menina, peguei duas garrafas cheias de mijo esses dias, debaixo da cama do quarto; tá de brincadeira comigo; tô te falando sério, tudo pra não arrumar encrenca com o Vanderley e ter que ir embora dali, o homem daqui a pouco vai comer o próprio cocô pra não precisar sair de dentro daquele quarto e causar confusão; menina, que coisa; e o medo de acabar dormindo na rua?; ai, Marinez, tô dando risada aqui, que situação mais maluca; eu sei que é, Rose, concordo contigo, não dá pra continuar com isso; e o teu filho?; ah, pra ele tanto faz, agora vive na casa da namorada, vem me ver só no fim de semana, tá casado e não sabe; mas ele gosta do Claudemir, não gosta?; é, o Claudemir foi como um pai pra ele né, porque quando eu e o Valtão terminamo, o menino tinha o quê?, uns quatro, cinco anos; entendi, ai, Marinez, nem sei o que te dizer, mas vem cá, tá na diária de quem hoje?; tô na Santa Clara, no apartamento daquela senhora que mora com a filha divorciada, a dona Olívia, ela agora tá na hidro e a filha no escritório; mas viu, fazer o seguinte, a gente pega o metrô junto na Siqueira Campos, naquele horário que dá certo da gente se encontrar; então tá, mas deixa eu te adiantar uma coisa, que é pra você já ir pensando; que foi?, fala logo que eu acho que o chato tá voltando pra cá; ai, Rose, vê aí se você não aluga pro Claudemir, por um precinho bom, aquele quarto vago nos fundos do teu quintal, o que era da tua filha, não dá certo esse homem enfiado lá dentro de casa não; ai, Marinez; pensa com carinho, Rose, quebra essa pra mim, mais tarde a gente se fala; tá bom, menina, beijo.

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