3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Heldio Pereira Villar (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Heldio Villar nasceu no Rio de Janeiro em 1952. Formou-se em Engenharia Civil em 1974 na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. Fez mestrado em Tecnologia Nuclear entre 1979 e 1981 na UFPE e na Universidade de Saskatchewan (Canadá) e doutorado em Engenharia entre 1989 e 1993 na Universidade de Manchester (Inglaterra). Foi operador de computador no Serpro, engenheiro da Prefeitura do Recife e tecnologista da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Durante quase meio século foi professor de física na Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco-UPE. Ele e sua esposa, Mércia, têm duas filhas e quatro netas. Tem a música clássica, a leitura, as palavras cruzadas e a fotografia entre seus principais passatempos. Mora no Recife.
O TEXTO:
“Meu nome não é Inaldo!”
Qualquer pessoa irá colocar o telefone entre as grandes invenções. (As mulheres especialmente, pois são as grandes usuárias do aparelho criado por Graham Bell e dramaticamente aperfeiçoado e ampliado por Steve Jobs.) Eu também acho que o telefone foi uma grande invenção, que com o tempo passou de interessante para útil, de útil para indispensável e de indispensável para crucial. Ao mesmo tempo, tenho uma série de restrições contra o aparelhinho. As pessoas abusam dele, ele incomoda bastante e por aí vai. Em consequência, reconheço que não tenho “traquejo” para usar o telefone, o que será reconhecido por muitos daqueles que me tiveram como interlocutor.
Essa característica eu certamente herdei do meu pai, que era outro lacônico usuário do telefone. O que, por outro lado, não mexeu com sua proverbial presença de espírito.
Os da minha geração (já passei dos 70) vão lembrar-se de que, no Brasil, os telefones só se tornaram realmente populares com a privatização, ao final dos anos 1990. Nós só tivemos telefone próprio em casa em 1967, quando morávamos no Rio de Janeiro e adquirimos, por Cr$ 1.500,00 (uma pequena fortuna, equivalente a mais de um salário do meu pai, que era major do Exército) a linha 26-01-72. No prédio em que morávamos, éramos dos raros (talvez 10%) que tinham telefone em casa.
Logo depois que compramos esse telefone, que ficava no quarto em que meu pai e minha mãe dormiam, o aparelho tocou de madrugada. Meu pai acordou, meio zonzo, e atendeu.
– Alô?
– Olha – alguém falou – prenderam o Zé!
Meu pai, aí, acordou de vez. Afinal, seu cunhado, José de Medeiros, era, obviamente, conhecido como Zé.
– Meu Deus! O que foi que ele fez?
– Sabe como é, – foi a resposta – o de sempre. Eu já tinha avisado pra ele que um
dia a polícia ia pegar. Ele deu moleza, e não deu outra.
Aí meu pai percebeu que, evidentemente, tratava-se de outro Zé.
– Onde é que você está? – ele perguntou.
– Naquele lugar de sempre, na Lapa.
– Perfeito. Espere aí que eu chego em menos de meia hora.
– ‘Tá legal – o homem respondeu, mais tranquilo. Meu pai desligou, virou-se para o outro lado e voltou a dormir.
Mais de uma década e meia depois, já no Recife, o alvo de um engano semelhante fui eu. Na época, meu telefone era o 326-7098. Numa tarde, o telefone tocou. Eu estava exatamente ao lado e atendi.
– Quem fala é Inaldo...
Achei esquisita essa introdução, mas respondi:
– Pois não, pode falar.
– Eu estou com um cheque sem fundos seu – meu interlocutor anunciou.
Aí eu fiquei sobressaltado. Àquela altura dos acontecimentos, tendo sido correntista bancário havia mais de 20 anos, orgulhava-me de nunca ter passado um cheque sem fundos.
– Cheque sem fundos? Meu?
– Exatamente – o homem respondeu. – E nós já pensamos em executar, mas antes queríamos falar com você.
Eu estava estarrecido.
– Você trabalha onde? – perguntei.
– No Supermercado Bompreço – foi a resposta. Aí o caso se tornava mais
complicado. Era muito raro eu pagar alguma coisa no Bompreço com cheque.
– Podia aguardar um instante? – inquiri.
– Perfeitamente – foi a resposta. Peguei meu talão de cheques e conferi os canhotos. Pelo menos até uns bons dois meses antes eu não tinha pagado qualquer cheque ao Bompreço.
– Meu amigo, esse cheque é de que banco? – perguntei.
– Do Banco Itaú.
– Rapaz, isso me deixa mais aliviado. Não tenho nem nunca tive conta no Banco
Itaú. Logo, o cheque não é meu.
– Inaldo, eu já vi que não temos acordo – o homem retrucou, já mal-humorado. Foi aí que eu percebi que quando ele começou nossa conversação, ao invés de afirmar “quem fala é Inaldo”, ele tinha questionado “quem fala, é Inaldo?” O que aconteceu foi que sua intonação tinha sido tão ruim que eu entendera a pergunta como uma afirmativa.
– Meu rapaz, meu nome não é Inaldo – declarei.
– Inaldo, das outras vezes você demorava a fazer acordo, mas não negava que era
você. O que está acontecendo agora?
– Cara, eu nunca passei cheques sem fundos na minha vida e, de uma vez por todas, meu nome não é Inaldo!
– Inaldo, eu acho que desta vez nós vamos ter de cobrar judicialmente, já que você não quer colaborar.
– Meu amigo, eu já disse que meu nome não é Inaldo. A propósito, você ligou para que telefone?
O homem respondeu com um número que começava com 326, mas cuja terminação era ligeiramente diferente de 7098.
– Eis aí! – respondi. – Meu número é 326-7098, e não esse que você falou!
– Inaldo – meu interlocutor insistiu – eu não liguei errado.
– Claro que ligou. Eu já disse que meu número é 326-7098. Faça o seguinte, ligue
326-7098 e você vai ver que eu vou atender.
– Inaldo, eu não vou ligar de novo. Já que não temos acordo, vou fazer a cobrança
judicial.
– Você pode fazer o que você quiser – respondi, desta feita falando alto. – Mas eu
quero que você saiba que meu nome não é Inaldo!
– Bem, Inaldo, você é testemunha de que eu tentei de tudo e você não quis colaborar. Prepare-se para receber o oficial de justiça.
– Perfeito. Mas antes você podia me fazer um favor?
– Pois não?
– Ligue pra Inaldo!
O homem bateu o telefone.





Comentários