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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Ivar César Oliveira de Vasconcelos (Categoria Crônica)

há 4 dias
8 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Doutor em Educação pela Universidade Católica de Brasília e Universidade de Lisboa, tendo inúmeras publicações científicas. Atualmente, escreve também contos, crônicas e poemas, além de biografias romanceadas.


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O TEXTO:


Olhinhos


Olho ao redor da sala de estar, e a mala pronta sobre o sofá, encostado na parede que dá para a janela da rua semiescura, parece maior do que realmente é. Em pé, de costas e a um passo da porta da frente da casa — por onde sairei —, vejo, à esquerda, os três cômodos que guardam o sono desprevenido dos meus seis irmãos, do meu pai e da minha prima. Eles dormem fácil, mas esta madrugada pesa mais que todas as outras sobre mim.

Mais adiante, abre-se a passagem para a copa e a cozinha; à direita, quase escondido na penumbra, fica o único banheiro. Ao fundo, uma porta estreita conduz ao pequeno quintal — um retângulo de céu aprisionado entre paredes.

No canto da sala, meu gatinho Guto dorme — um olho aberto, acompanhando meus movimentos; o outro perdido noutro mundo. Acima dele, dependurada na parede, repousa a espingarda do papai, calibre 32, dois canos alinhados como uma promessa silenciosa. Ele é bom de tiro. Gosta tanto dela que a trouxe da nossa cidade — aquela que até hoje me faz lembrar um castelo erguido de carnaúbas, tantas eram as que havia nos campos — quando viemos morar aqui, na capital.

Por que meu pai escolheu uma arma de dois canos? Talvez seja o seu jeito de mostrar que não admite hesitação. Já a minha batalha, minha jornada de foco, veio quando estudei para o concurso do banco. Meses de silêncio, de cadernos abertos pela madrugada, de renúncias que ninguém viu. A aprovação me trouxe a este momento em que vou partir em viagem para uma cidade longe — minha chance de apertar o gatilho e não olhar para trás.

A bagagem agora está no porta-malas do táxi, contratado ontem à noite por telefone. Sento-me no banco da frente e, na penumbra do bairro — sob a luz fraca dos postes da quadra de esportes em frente —, vejo mamãe de pé à porta.

Seu olhar parece me dizer que deseja me carregar nos braços — o menino-homem que agora se afasta da casa onde vivemos os últimos seis anos. Eu vou partir; ela vai ficar. Cada instante pesa: a luz amarelada vinda da quadra e um silêncio espesso ampliam a distância entre nós dois. O vento que sopra fininho pela rua sussurra despedidas que não ousamos pronunciar. Olha-me nos olhos; depois, fita o motorista, como se quisesse dizer algo que ficou preso na garganta — um último gesto de cuidado que ela não se atreveu a transformar em palavras.

Não serão palavras para mim. Ontem à noite, ela já me fez recomendações e até me mostrou o conteúdo da mala que preparou — e ali parecia que eu também estava: um corpo de dezenove anos e apenas cinquenta e oito quilos; um rosto imberbe, sem sinais de mudança iminente na fisionomia.

Talvez queira falar com o homem ao volante, pedir que cuide de mim até a rodoviária e que providencie o embarque. Quem sabe esteja se lembrando do tempo em que me colocava num ônibus, lá na nossa cidade, e eu, aos dez anos, seguia sozinho para a capital distante, a fim de pagar as contas na loja que abastecia a nossa quitanda.

Mas não há mais tempo. O motor do Opala treme e ronca sob o peso do pé decidido do homem grande, e o carro arranca. Para trás restam aqueles olhinhos miúdos, que passarão a conversar apenas com o vento assobiando, com a quadra e com as árvores ao redor.

Mais algumas horas, e o bairro ficará quente. Quente também é o olhar que, certamente, ela lança sobre a rua vazia que sobe em direção à avenida que leva à rodoviária.

Chegamos; desço do táxi e pego a mala.

Entro no ônibus — antigo, malcheiroso — que vai arrastar-se por duzentos e sessenta quilômetros. Terei de me arrastar junto, preso ao banco duro em que acabo de me sentar.

São cinco horas da manhã. O ar cheira a mofo e ao suor de viajantes que dormem; o mundo lá fora é escuro e indiferente. Lá vou eu, sozinho comigo mesmo, pouco ou nada sabendo sobre o que me espera.

Dentro da lata velha, passageiros conversam alto, ignorando quem tenta dormir, enquanto se remexem nas poltronas, procurando um lugar para apoiar a cabeça. Um sujeito pequeno, de rosto largo e adornado por um bigodinho fino dá ordens ao motorista, pegando passageiros pelo caminho e cobrando-lhes cada centavo da passagem. Parece o dono de tudo enquanto continua a receber viajantes, indiferente ao cansaço alheio e à pressa de chegarmos ao destino.

Nas paradas, galinhas cacarejam alto, misturando-se aos gritos de garotos e garotas que vendem produtos de toda espécie à gente que passa.

— Óia a cocada! Espiga de miii! Laranja doce!

O barulho invade o veículo, entra pelas janelas recém-abertas e me empurra ainda mais para dentro do assento.

Em meio àquele estrupício, vamos nós, abandonando a estrada de asfalto para entrar numa de terra. Aos sacolejos que maltratam e entortam a coluna, aproximamo-nos de L. A cada parada, aumenta a poeira, que antes se agarrava ao rabo do transporte e agora sobe, sugada pelo vácuo deixado pelo monstro de ferro quando o motorista pisa no freio.

O corpo já pesa, os ossos reclamam. E, enfim, chegamos.

Tudo é estranho, diferente do que deixei há algumas horas. Uma sensação de abandono me invade, enquanto o bafafá da viagem — o ônibus chacoalhando, os passageiros, a poeira — permanece comigo. Parece que um ciclo de vida se fecha para mim, e outro se abre, como a concretizar a fala da minha mãe:

— Pra frente, meu filho!

Minha mãe, por um lado, é a energia que, somada à do meu pai, me impulsiona a enfrentar o mundo; por outro, é a força silenciosa que me ancora ao lar — embora não seja daquelas que passam horas afagando a cabeça do filho. Seu carinho é diferente: atento, cuidadoso, voltado à saúde e ao futuro dos filhos.

Desço na rodoviária às dez horas, com pensamentos e sensações tumultuados. O barulho deste novo lugar mistura-se à zoada que ainda carrego de casa. Meus pais e irmãos, imersos na luta diária, parecem sobrevoar-me em fios invisíveis, prendendo-me a eles enquanto caminho entre rostos desconhecidos. Volto a lembrar-me do olhar de despedida da minha mãe e percebo, ao mesmo tempo, que a oportunidade de seu colo se torna cada vez mais distante.

— Moço, onde fica o banco?

Lá vou eu, caminhando em direção à agência. Os rastros que deixo nas calçadas se assemelham a garatujas — mas já não sou mais criança. Nesta caminhada solitária, desenho movimentos com cheiros diferentes, cores desconformes e gestos deslocados do lugar de onde venho. Ainda bem que as coisas se movem; se permanecessem paradas, que histórias haveria para contar?

Chego ao destino em menos de cinco minutos, mas cada passo me custou pelo menos o dobro do que parecia. O prédio, bonito e imponente, ergue-se diante de uma praça redonda que o separa da prefeitura municipal. Passo por uma calçada larga, sentindo a irregularidade de cada pedra, e subo os degraus que parecem reclamar sob meus pés.

O ambiente interno é pesado, quase opressor — assim como a mala que carrego, cujo peso me arrasta e me faz tropeçar. Levo comigo, além de roupas e objetos, todas as lutas da vida, as expectativas, os medos e as lembranças da morada que deixei.

A primeira pessoa a quem me dirijo — o subgerente — não tem dentes na arcada superior. Ele me encaminha a um funcionário magrinho, de camisa branca e calça azulescura, sentado à mesa talvez destinada ao atendimento imediato dos clientes.

Ao comando do superior, ele deixa seu trabalho e me conduz até a pensão onde mora, a poucos metros dali. Seguimos caminhando pela avenida principal, com todos os sons ao redor se emaranhando nos meus pensamentos inquietos. Lá na frente, dobramos à direita e chegamos.

Instalo-me, e Dona D. já diz como será:

— Vocês têm de dormir no mesmo quarto!

Volto à agência com o novo colega, sentindo o prenúncio de uma rotina que, por ora, ainda não é minha. No restante da manhã, trabalho; e, no intervalo, almoçamos juntos na pensão.

— O que é que você não come?

— Fígado, panelada e…

— Minina, estrala um ovo aí pra ele…

Que falta de sorte a minha! Nem tive tempo de dizer-lhe sobre meu desgosto por ovos. Mas, faminto, engulo o primeiro recado forte da cidade: acostume-se.

Depois da refeição, retornamos à agência, seguindo pela avenida central. De ambos os lados da via, lares silenciosos nos observam. Cruzamos mais três esquinas e chegamos à praça em frente ao banco. Os jardins ao redor do prédio são bonitos, com flores coloridas, mas parecem não pertencer ao meu mundo.

Infelizmente, algo desse sentimento foi registrado num papel que assinei em branco — nada estava escrito, e eu confiei no colega que o colocou em minhas mãos.

Durante o expediente, inventaram uma farra no clube ligado ao banco, marcada para depois do trabalho. Lá estávamos todos, e eu, meio apavorado com tantos contatos e rostos diferentes, tentava me manter discreto. De repente, houve a leitura de uma carta que, segundo o leitor, teria sido escrita por mim naquele papel assinado.

O conteúdo foi lido em voz alta, num clima solene:

— Peço demissão do emprego, pois não gostei das cores do prédio, que não tem florezinhas na calçada; muito menos gostei do subgerente, que não tem dentes na boca.

Os minutos seguintes foram de silêncio absoluto; fiquei apavorado, perguntando-me como pude ter escrito aquilo.

O riso contido e os olhares fixos me fizeram perceber que, ali, tudo podia se transformar em espetáculo. Tinha caído no golpe da assinatura do jornal de circulação interna — gratuito; portanto, sem necessidade de assinatura pelos funcionários e muito menos de colocar rubrica em papel em branco. Percebi que também havia sido vítima de outros dois trotes: a máquina de procurar diferenças e o curso de caixa em Brasília. Não havia máquina alguma, e jamais teria conseguido um curso com apenas um dia de trabalho.

Quanta ingenuidade…

Após a farra — paga por mim — segui para a pensão. Jantei em silêncio, cada garfada lembrando-me da minha vulnerabilidade e do quanto havia para eu decifrar.

Assisti a um pouco de tevê na sala — a parte em nível mais baixo que o restante da pensão. O piso rebaixado me trouxe à memória a cozinha da casa dos meus pais, quando eu era menino, e senti uma pontada de nostalgia misturada a estranhamento.

O cansaço me venceu; o dia tinha sido longo e cheio de tensão.

Fui para o quarto dormir.

As paredes abrigavam duas redes, e, em uma delas, estiquei-me. Antes de adormecer, uma pergunta surgiu na minha mente:

— A espingarda do papai ficará na sala por muito tempo?

O pensamento me fez estremecer, e percebi que meu passado ainda podia me prender por algum tempo ao ambiente da minha casa, como um lembrete do que deixara.

Antes de dormir, mantive os olhos fixos no teto do quarto.

O burburinho de vozes — alguém passando na calçada da pensão? — entrava pelas frestas da janela, esfriando o quarto, e me chegava como uma canção de acalento, suave e envolvente, como um carinho na cabeça.

Então vi dois olhinhos me sorrindo, pequenos faróis de ternura no escuro.

— Boa noite, meu filho!

Fiquei aquecido. O mundo desapareceu, restando apenas a presença dela, silencioso e firme, a lembrar-me de que, mesmo longe, ainda havia um lar para mim.

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