3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Josueh de Jesus (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Meu nome é Josueh de Jesus e minha trajetória na escrita foi iniciada em 2026. Justamente o ano em que completo 60 anos de idade. No ano anterior, ao decidir cursar Pedagogia/Literatura, conheci a professora e escritora Viviane Ferreira Santyago. O presente de um de seus livros, "Espaços que contam histórias: Crônicas do Largo da Sé", foi para mim um verdadeiro espelho motivacional. Ao lê-lo, tive um start: despertou de vez o desejo de contar a minha própria história, que permanecia adormecido dentro de mim.
Desde então, a escrita ganhou um novo significado em minha vida. Hoje, tenho um livro autobiográfico concluído, outro sendo finalizado e outros três em processo, dando forma à antologia FORJADO PELO MEDO. A crônica “Metamorfose”, selecionada como semifinalista do concurso Prata da Casa deste ano, é justamente um trecho do segundo livro, FORJADO PELO MEDO 1977–1987. Ver uma parte dessa história sair das páginas do meu projeto e encontrar outros leitores tem sido uma experiência muito especial.
Aos 60, descobri que minha história não envelheceu, e Graças ao Senhor Jesus Cristo chegou no momento certo para ser contada.
JOSUEH TAMBÉM ENVIOU UM VÍDEO:
O TEXTO:
Metamorfose
“Quando eu era menino, falava como menino, pensava
como menino e raciocinava como menino. Quando me
tornei homem, deixei para trás as coisas de menino.”
— 1 Coríntios 13:11
Os dias de Educação Física eram os mais esperados da semana. Às seis da manhã já havia alunos na rua da escola.
As aulas começariam às sete horas, e aproveitávamos o tempo que tínhamos para jogar bola em frente ao Dezenove ou andar pelas ruas do bairro. Alguns preferiam apenas caminhar em grupo, conversando sobre coisas simples: o time do coração, a prova da semana, histórias que ouvíamos dos mais velhos. Havia uma sensação de liberdade, como se aquele pequeno pedaço da manhã nos pertencesse.
Saíamos eu, o Tibiriça e o Mané até a casa do Edi e do Marco Aurélio, que moravam ali perto e ainda não haviam chegado.
Íamos devagar, subindo e descendo ruas. Eu fazia questão de passar em frente à casa da Verinha e imaginava o que ela estaria fazendo àquela hora da manhã.
Diminuía o passo sem que os outros percebessem. Às vezes fingia amarrar o tênis; outras vezes apenas olhava de canto, esperando, quem sabe, vê-la na janela ou no portão. Bastava um vislumbre para que o dia ganhasse outro brilho.
Ela, obviamente, não sabia da importância que tinha na minha rotina. Mas, para mim, aquele pequeno desvio no caminho era indispensável.
Eu imaginava se ela já estava acordada, se iria para a escola mais tarde, se pensava em mim alguma vez, ainda que por um segundo. Eram pensamentos simples, ingênuos, mas intensos o suficiente para acelerar meu coração mais do que qualquer partida de futebol.
Os meninos seguiam conversando e brincando, alegres, enquanto eu caminhava um pouco distante, perdido em devaneios que só a juventude permite.
Antes de chegar à rua da casa do Edi, encontrávamos com ele na esquina, montado em sua bicicleta Monark amarela, equipada com santantônio.
A bike se destacava de longe. Alta, firme, mas sem o brilho próprio das coisas bem cuidadas. O amarelo já não era tão vivo; o tempo havia deixado suas marcas no quadro e nas rodas.
O Edi era um dos garotos mais humildes entre nós. Sua bicicleta era velha e já tinha enfrentado muitos caminhos antes daqueles. Uma corda servia para amarrar o santantônio ao cano, um improviso que revelava mais necessidade do que estilo.
Alguns viam apenas uma bicicleta simples. Eu enxergava esforço.
Aquela Monark carregava sinais de uso, de cuidado possível dentro do que se tinha. Não havia luxo, mas havia resistência.
Edi pedalava com naturalidade, como se não houvesse diferença entre a sua bicicleta e qualquer outra mais nova. No fundo, ele sabia algo que nós ainda estávamos aprendendo: o valor não está no brilho, mas na capacidade de seguir em frente.
A corda segurando o santantônio era mais do que um improviso. Era símbolo de adaptação. De fazer dar certo. De não desistir.
Eu não sabia andar de bicicleta. Nunca tive uma. E evitava ficar muito próximo quando o assunto era pedalar, com medo de que me pedissem para dar uma volta.
Passaria vergonha.
Eles comentavam sobre freios, descidas e manobras. Eu permanecia mais quieto. Ria junto, opinava quando dava, mas sempre calculando uma distância segura entre mim e o guidão.
O medo não era apenas de cair. Era de ser exposto. De revelar algo que, para mim, parecia atraso.
Como podia um garoto daquela idade não saber andar de bicicleta?
Eu criava justificativas. Dizia a mim mesmo que não gostava muito. Que preferia futebol. Que bicicleta nem era tão importante assim.
Mas era.
Era um baita símbolo de liberdade. E eu ainda não o dominava.
A casa do Edi era menor ainda que a minha, a mais simples daquela rua. Apenas dois cômodos onde moravam ele, sua mãe e seu pai, que àquela altura já haviam saído para o trabalho.
A porta quase sempre ficava encostada, e o interior escuro contrastava com a luz da manhã que tomava a rua.
Não havia luxo. Não havia varanda ampla, nem portão alto. Havia o essencial. Havia esforço.
Eu observava quieto, sem surpresa. Mesmo menino, já percebia que existiam
diferenças — algumas gritantes, outras sutis.
A casa do Edi não tinha espaço sobrando, mas tinha vida. Tinha dignidade.
Ele colocou o uniforme da aula, ajeitou a camisa branca por dentro da calça de
agasalho azul com três listras laterais e saiu apressado, como se não quisesse nos fazer esperar.
A bicicleta ficou encostada na parede, e seguimos os cinco em direção à casa do Marco Aurélio.
Descíamos a rua em grupo, ocupando a calçada como se fôssemos maiores do que realmente éramos. Cada um com seu jeito, sua história, suas pequenas inseguranças escondidas atrás de risadas e empurrões.
Eu caminhava entre eles, sentindo ao mesmo tempo pertencimento e reserva.
Talvez fossem esses momentos, simples, repetidos, cotidianos, que mais me
moldaram.
Não foram grandes acontecimentos.
Foram pequenos trajetos.
A surpresa foi grande quando me deparei com a casa do Marco.
Era um sobrado enorme, com um belo jardim na frente e na lateral.
As paredes altas, a pintura bem conservada, o portão imponente. Tudo ali transmitia estabilidade, segurança, conforto.
Fiquei alguns segundos parado, apenas admirando aquela casa.
Marco, até então, para mim, parecia um dos garotos mais humildes. Não ostentava roupas de marca nem calçados chamativos. Andava simples, falava simples, se misturava como qualquer um de nós.
Nada nele anunciava aquele casarão.
Enquanto aguardávamos ele sair, meus olhos percorriam o jardim bem cuidado, as janelas amplas, a varanda superior.
Eu comparava.
Comparava com a casa do Edi.
Comparava com a minha.
Sem inveja.
Era descoberta.
Descoberta de que o mundo era maior e mais desigual do que eu imaginava.
Descoberta de que as aparências nem sempre dizem a verdade.
Faltavam poucos minutos para abrir o portão da escola.
Então corremos todos para não chegar atrasados e ter que pagar castigo.
O castigo era dar dez voltas na quadra enquanto os outros jogavam futebol.
Para nós, aquilo era uma enorme punição.
Não era apenas correr.
Era correr vendo os outros se divertirem.
Cada volta parecia mais longa do que realmente era, e a sensação de estar de fora do jogo pesava mais do que o cansaço nas pernas.
Por isso, quando percebíamos o horário apertado, ninguém pensava duas vezes.
As conversas paravam.
Os passos viravam corrida.
Cada um tentava chegar primeiro ao portão da escola.
Nossas manhãs de Educação Física eram sempre assim, dinâmicas desde o início.
Todos reunidos por um único propósito: jogar futebol.
E naquele dia havia algo especial no ar.
Seriam escolhidos os times para o campeonato interclasses.
A quadra estava lotada. Todas as classes da terceira série estavam ali reunidas.
Uma atmosfera de decisão pairava no ambiente.
Os grupos se espalhavam pelas laterais da quadra. Alguns sentados no chão, outros em pé, todos atentos ao que estava para acontecer.
A bola corria de um lado para o outro enquanto alguns tentavam mostrar habilidade, como se cada toque pudesse influenciar na escolha que viria.
As conversas eram rápidas, ansiosas.
— Quem vai escolher os times?
— Quantos jogadores vão entrar?
— Será que vai ter reserva?
Cada pergunta aumentava ainda mais a expectativa.
O barulho da quadra misturava risadas, provocações e gritos de incentivo.
Todos queriam ser escolhidos.
E, de preferência, o quanto antes.
Não seria apenas mais uma aula.
Seria uma convocação.
Os mais habilidosos caminhavam pela quadra com certa confiança, como se soubessem que seus nomes seriam chamados cedo. Alguns até brincavam, fazendo embaixadinhas e exibindo malabarismos com a bola.
Eu era apenas mais um no meio da multidão, esperando minha vez.
Meu time era o mesmo que treinava nas ruas antes das aulas:
Tibiriça no gol, eu, Toru, Edi e Marco.
Mané e os outros ficavam na reserva.
Chegou a nossa vez.
A bola, naquele ambiente, parecia exercer uma força magnética. Chamava nossos passos, prendia nossos olhos.
Não havia timidez quando eu estava em quadra com a bola nos pés.
O menino que muitas vezes observava mais do que falava desaparecia completamente.
No lugar dele surgia alguém mais solto, mais confiante, guiado apenas pelo movimento do jogo.
Da noite para o dia, algo parecia ter mudado em mim.
Eu me sentia mais rápido, mais forte.
Raciocinava em segundos quando a bola chegava aos meus pés.
Dominava, tirava o marcador do caminho e avançava sem hesitar.
Às vezes chutava forte em direção ao gol de qualquer lugar da quadra, confiando mais no instinto do que na técnica.
Os gritos dos colegas, o som da bola batendo no chão e nas traves, tudo parecia me empurrar para frente.
Naquele momento, dentro da quadra, eu não era o menino cheio de dúvidas que
caminhava pelas ruas pensando demais.
Ali eu me sentia capaz.
O futebol revelava uma parte de mim que eu mesmo ainda estava descobrindo.
Talvez fosse coragem.
Talvez fosse apenas a liberdade de jogar.
Os pés respondiam rápido, o corpo se movia quase sem pensar.
A bola colada aos meus passos parecia entender para onde eu queria ir.
Defendia, roubava a bola, tabelava com Marco.
Tocava para Toru, recebia de volta e batia de canhota para o gol.
Certeiro.
Os gritos aumentavam a cada lance.
— Boa!
— Toca!
— Chuta!
E eu chutava.
A cada jogada bem feita, minha confiança crescia.
Eu mesmo me perguntava:
De onde estava vindo tudo aquilo?
Era como se algo dentro de mim tivesse despertado naquele dia.
Pela primeira vez eu sentia que não estava apenas participando do jogo.
Eu estava fazendo diferença.
Estava liderando o time naquele momento.
As jogadas passavam por mim naturalmente.
Eu pedia a bola, organizava o ataque, voltava para ajudar na defesa.
Tudo parecia se encaixar.
Os colegas começaram a confiar.
Chamavam meu nome, esperavam minha decisão, seguiam minhas orientações.
Pouco tempo antes eu era apenas mais um entre muitos.
Agora, literalmente, eu conduzia o ritmo do jogo.
E todo lance bem executado parecia confirmar algo que eu ainda tentava entender:
Havia uma força dentro de mim começando a aparecer.
Ganhamos o jogo de goleada.
Eu corria pela quadra com o peito cheio de alegria.
Os passes, os dribles, os chutes a gol, tudo havia funcionado.
Saí da quadra com a sensação de ter vivido algo especial.
Nosso time foi escolhido para representar a terceira série D no campeonato interclasses.
Para muitos, talvez fosse apenas um jogo de escola.
Para mim, era mais do que isso.
Era a descoberta de que, em algum lugar dentro de mim, existia uma coragem que eu ainda estava aprendendo a reconhecer.
No caminho de volta para casa, eu revivia cada jogada.
Os passes, as tabelinhas com Marco, as defesas do Tibiriça, o chute forte do meu pé esquerdo.
Ganhamos de seis a três.
Fiz dois gols.
Marco fez dois também.
Toru e Mané completaram o placar.
Na volta para casa, eu caminhava pelas mesmas ruas de sempre, mas algo dentro de mim estava diferente.
As casas eram as mesmas.
Os muros, as calçadas, tudo permanecia igual.
Só eu havia mudado.
Por dentro eu carregava uma sensação nova: alegria, surpresa e orgulho.
Naquela manhã, eu estava descobrindo uma versão de mim que ainda não conhecia.
Como leitor apaixonado por gibis, era natural que eu fosse fã de super-heróis.
Na minha imaginação de menino, eu me sentia um pouco como Steve Rogers depois de receber o supersoro, ou como Peter Parker depois da picada da aranha.
Claro que nenhum poder extraordinário estava surgindo de verdade.
Não havia laboratório secreto.
Mas algo realmente tinha mudado.
Eu já tinha visto isso acontecer com alguns colegas.
Mudanças que pareciam surgir de um fim de semana para o outro.
De repente, alguns voltavam na segunda-feira com a voz mais grossa.
Outros apareciam com pelos no rosto.
Alguns já exibiam pelos na barriga.
Estávamos todos atravessando uma espécie de metamorfose.
O corpo mudava, a voz mudava e até a maneira de pensar começava a tomar novos caminhos.
Era um tempo de transformação sutil no início, mas inevitável.
Alguns amadureciam para mais.
Outros, infelizmente, para menos.
Cada um começava a descobrir, à sua própria maneira, quem estava se tornando.
Pouco a pouco, o menino que existia em cada um de nós começava a dar lugar a algo novo.
Era apenas o começo da puberdade.
Ou talvez fosse apenas a descoberta de que, às vezes, os maiores poderes aparecem quando começamos a acreditar em nós mesmos.
Hoje entendo que aquele período da vida chega trazendo novas sensações.
O corpo cresce.
A mente se transforma.
O mundo passa a ser percebido de outra forma.
A infância começa a ficar para trás.
E, quase sem perceber, damos os primeiros passos em direção a algo novo: a adolescência.





Comentários