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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Juliana Vermelho Martins (Categoria Crônica)

há 4 dias
3 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


JULIANA VERMELHO MARTINS, graduada em Informática e mestre em Ciência da Computação, escreveu diversos livros didáticos na área. Formada em Letras Francês pela UFPR, mestre em Tradução pela Kent State University de Ohio, EUA, é tradutora de francês, inglês e espanhol. Como escritora, participou de antologias de crônicas e contos e é autora do livro infantojuvenil Mamãe tá careca publicado pela Editora FTD em 2014. Tem livros técnicos traduzidos e publicados em português, francês e inglês. 


O TEXTO:


Balaio de gato


Tudo começou com Aristóteles e seus inúmeros textos dedicados às classificações. O grande filósofo quis botar ordem no mundo e decretou que dali pra frente era cada um na sua, ou melhor, cada macaco (literalmente) no seu galho, já que, além da classificação de gêneros literários, uma das suas grandes contribuições foi justamente a classificação dos seres vivos. Mas, depois que o sábio comeu o pão que o diabo amassou pra conseguir categorizar até mesmo o que não tinha visto nem mais gordo nem mais magro, como a girafa, vieram muitos outros pra refazer o trabalho. Por quê? Provavelmente porque, um belo dia, toparam com um ornitorrinco pela frente e esse ser vivo (uma das poucas certezas que temos sobre ele) é, ao mesmo tempo, réptil, pássaro e mamífero. Nem Aristóteles podia imaginar essa!

O mesmo acontece em outras paragens. Podemos tentar de todas as formas classificar um conjunto de coisas. Sempre haverá no final uma inclassificável meia dúzia de gatos pingados que não pertencerá a nenhuma das categorias, ou que poderá pertencer a várias delas. Serão as moscas na sopa do grupo, os patinhos feios da família, os peixes fora d’água.

Assim é a crônica na literatura.

O que é uma crônica? O que cabe nela? Tudo cabe! Tudo aquilo que não cabe no romance, no conto, na poesia. O que não se encaixa no jornalismo, nem na autoajuda. Aquilo que não aparece em teses ou dissertações. O texto não tem para onde ir? Vai pra crônica que lá tem espaço pra ele, certamente.

A crônica será vista por seus amantes como coração de mãe. Já seus detratores dirão que ela nada mais é do que uma verdadeira casa da mãe Joana. Viu só? Cabe tudo numa crônica!

Passei anos tentando decidir se o que escrevo de vez em quando é ou não crônica. Às vezes achava que era conto. Em outras, uma dissertação quase colegial. Havia dias em que despencava na comédia deslavada para, em outros, mergulhar em profundas filosofias de botequim. E a dúvida sempre ali, me incomodando mais do que mala sem alça: afinal, é crônica ou não é?

Ler autores confirmados nesse gênero não me ajudou em nada! Como é que textos tão diferentes na forma, no conteúdo ou na extensão podem ser classificados da mesma maneira? Nem Aristóteles achou a resposta que, desconfio, é uma só: não podem! Exatamente! Não podem. A crônica é o ornitorrinco da literatura. Ela é a caixinha que salva a pátria quando não conseguimos colocar o texto em nenhuma outra. É aquela pilha que fica nas mãos quando arrumamos a estante de livros por assunto, ou por gênero ou até por cor. Só não vai sobrar nada se a gente colocar os livros em ordem alfabética. Mas aí não se trata mais de classificação, é pura e simples ordenação. Vira tudo farinha do mesmo saco, só que arrumadinho. Se a gente tentar fazer aproximações, criar categorias, pronto: lá estará o restinho, o que não cabe em nenhuma caixinha ou que, ao contrário, poderia entrar em duas ou mais.

Assim é esse texto que não tem expressão do senso comum que o defina. Que nos foge por entre os dedos. Que é leve mesmo quando nos dá um soco no estômago. Que brinca de esconde-esconde entre a ficção e a realidade (será que o cronista realmente viveu aquela banal corrida de taxi que gerou uma crônica sobre as relações humanas? Ou será que imaginou...). Tem crônica feita de poesia e outras tantas feitas de pura crítica. A crônica é o vale-tudo da literatura. Ela pode ser efêmera como uma bolha de sabão ou eterna como uma esfinge. Aliás, esfinge é uma ótima lembrança: decifra-me ou te devoro...

Desisto! Devora-me da cabeça aos pés! Saber o que a crônica é ou não é não tem mais importância alguma pra mim. Tudo o que eu quero é que ela continue a existir para conter o inapreensível, o imponderável, em resumo, o inclassificável.

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