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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Marcelle Lapini (Categoria Crônica)

há 5 dias
4 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Marcelle Lapini é poetisa e escritora, formada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).

Em seus escritos, encontra uma forma sensível de observar o cotidiano e transformar acontecimentos, memórias e pequenos instantes em histórias. Seu olhar se volta para aquilo que, muitas vezes, passa despercebido, revelando nas situações simples as nuances das relações humanas e da vida.

Marcelle acredita na escrita como espaço de encontro entre o íntimo e o universal e suas criações podem ser acompanhas pelo Instagram @bellelapini ou pelo Facebook como Marcelle Lapini. 

Ser semifinalista do 3º Prêmio Casa da Prata é uma alegria e representa a oportunidade de compartilhar sua escrita com novos leitores e integrar esta coletânea ao lado de outras vozes da literatura. 


O TEXTO:


A carta de Virginia


Lembro-me até hoje do dia. Foi em vinte e cinco de outubro de dois mil e vinte e

cinco. Uma data tão sonora que parecia menos uma data do que um prenúncio.

Sentei-me para ler um romance, pois fazia mais de quatro anos que eu não conseguia terminar um livro e, por alguma razão, eu estava determinada a ler todas as páginas de Mrs. Dalloway.

Após mergulhar em algumas linhas, achei de bom tom investir em uma rápida pesquisa sobre a autora, Virginia Woolf. Um dos primeiros resultados trouxe à superfície a carta de despedida que ela deixou ao marido antes de se lançar ao rio, com os bolsos cheios de pedras.

Li aquele último ato de desespero, mais por ocasião do que por interesse genuíno, e me surpreendi com o efeito que produziu em mim.

Nunca imaginei que um dia eu me reconheceria nas linhas de uma nota suicida.

Felizmente, minha afinidade não dizia respeito ao timbre desesperado que ecoava do papel, mas ao relato íntimo da causa mortis: “tenho certeza de que vou enlouquecer de novo”, “não podemos passar por mais uma daquelas crises terríveis”, “começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar”, “veja que nem consigo escrever direito”, “não consigo ler.”

Virginia sofria de um transtorno mental conhecido como Transtorno Afetivo Bipolar, doença contra a qual eu luto há alguns anos.

Ao ler a carta de Virginia, vivi o luto da sua luta e vivi o meu luto em reconhecer em mim, mais uma vez, o peso de um diagnóstico.

Recebi o diagnóstico de bipolaridade durante a pandemia da COVID-19, quando estava no segundo trimestre de gestação.

Confesso não ter dado muita importância ao que o médico disse, pois eu tinha certeza de que todas as oscilações pelas quais eu passava eram fruto dos hormônios da gravidez.

Assim que o bebê nasceu, parei de tomar os remédios.

Na ocasião, fui assolada por uma depressão silenciosa bem diferente das que se vê em filme, uma vez que eu conseguia fazer as coisas, mas elas tinham um custo muito grande, de forma que as pequenas tarefas pareciam ter o peso de um elefante.

Não houve tempo para compreender as nuances daquela tristeza, pois engravidei novamente e voltei a experimentar sintomas muito semelhantes aos da gestação anterior.

Ainda que eu estivesse em negação, um dos cinco passos para a superação do luto pelo diagnóstico, eu não tinha escolha senão procurar um novo médico para tratar os sintomas.

Encontrei outro psiquiatra que aparentava ser mais jovem e mais bem-informado.

Contudo, a inexperiência do novo profissional, somada à minha aparência doce e cordata, me rendeu um novo diagnóstico muito mais ameno, mas com resultado muito mais devastador, a longo prazo.

Colhi o fruto amargo do meu preconceito.

Diagnosticada com ansiedade, algo absolutamente esperado para quem está grávida, na opinião do novo médico, fui medicada com Sertralina, um antidepressivo.

Ocorre que, normalmente, o uso de antidepressivos deve ser ministrado com muita cautela em pessoas que têm o transtorno de humor, uma vez que sua ação pode provocar um ingresso no “Maravilhoso mundo de Alice”; em palavras menos gentis, pode provocar uma virada maníaca.

Tomei Sertralina a gestação inteira, mas, ao invés de melhorar, o quadro foi só se agravando.

Ao fim dos nove meses, eu dormia quatro horas por noite, fazia faxina de madrugada e exercício físico intenso.

Ouvia algumas vozes, via alguns vultos e pensava, com certo humor: o que esperar da madrugada além de se deparar com alguns fantasmas?

Passados quatro meses do nascimento da minha filha, eu já não conseguia mais compreender o que as pessoas diziam. Eu conhecia a palavra, mas ouvia apenas o som, sem conseguir fazer a conexão com o significado.

Pude vivenciar, na prática, a dissociação do Signo detalhada por Ferdinand Saussure.

Eu não conseguia ler, não conseguia me concentrar e, a certa altura, já não distinguia realidade de ficção.

Diante dos fatos, voltei a procurar o primeiro psiquiatra.

Ao ver a situação em que eu me encontrava, ele me acolheu gentilmente, me deu uma leve bronca e me tirou do episódio de mania pelo qual eu passava.

Vivenciei dificuldades cognitivas básicas, seguidas por uma espécie de crise existencial que vem logo após ter a consciência de que não se é tão confiável quanto se pensa.

Não poder confiar em si mesma faz com que falte um elemento essencial que nos torna pessoa, gente, ser humano mesmo. Um elemento sem o qual beiramos à miserabilidade.

É preciso um verdadeiro exercício de humildade, a contragosto, para admitir que minha bússola interna estará, algumas vezes, fora de mim; para admitir o quão vulnerável isso me torna e o quão vulnerável é entregar nas mãos de outra pessoa o meu senso de conduta, o meu código de valores.

É preciso, também, muita gratidão pelas pessoas queridas que se predispõem ao papel de guardiões dessa bússola. Pessoas que, não raro, são a lanterna da minha jornada, às vezes obscura.

E, sobretudo, é preciso ter fé de que existe algo maior que rege todos os acontecimentos e cuida dos menores detalhes.

Só assim as coisas fazem sentido e posso existir sem me perder de mim.

Na época de Virginia, não existia o lítio. O horror que ela atravessava a medicina não podia atenuar.

Além disso, é bem verdade que, quando se tem TAB, a cumplicidade com qualquer outra pessoa que tenha o mesmo diagnóstico é honesta demais para ser ignorada.

Dessa forma, ao ler a carta da autora, eu não tive escolha senão chorar pela sua confissão tão honesta, desesperada e sentida.

Ao mesmo tempo, não pude deixar de chorar pela medicina e por eu ter conseguido ler aquelas linhas.

Não sei se conseguirei terminar Mrs. Dalloway, mas irei um pouquinho por vez, uma vitória por vez, como acontece com as melhores coisas da vida.

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