3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Marcos Meier (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Marcos Meier é professor de matemática, psicólogo, escritor e palestrante. Apaixonado pela literatura infantil percebeu que há um grande espaço para obras de qualidade que considerem a criança um ser inteligente, capaz de tirar suas próprias conclusões a respeito das histórias que lê!
O TEXTO:
Cardápio rural
Comprei um casal de patos. Sim, patos. Há algo de hipnótico em vê-los nadando e correndo de um lado para outro, como se estivessem sempre atrasados para um compromisso que só eles conhecem, como se o mundo pudesse ser resolvido com água, penas e pressa. Morar numa chácara impõe um certo protocolo faunístico, uma espécie de cardápio implícito: cachorro para guarda, gansos como alarme, peixes no lago para o tédio dos domingos e galinhas garantindo o omelete diário. A fauna precisa ser funcional. Faltavam os patos.
Poderia comer os ovos, é claro, mas as galinhas são tão produtivas que dispensam concorrência. Botam com a convicção de quem nunca duvida do próprio papel no mundo. O destino dos novos moradores seria mais nobre e mais aromático: o tradicional pato com laranja, prato sagrado da minha família, capaz de reunir parentes que não se falam desde o último Natal.
Empolgado, avisei parentes e amigos: lá pelo fim do ano haverá banquete. Um aviso carinhoso, especialmente para quem ainda não aderiu aos movimentos espirituais de renúncia à carne, ou aos que aderiram, mas fraquejam diante de molhos cítricos.
Para recebê-los, comprei uma pequena casinha, arquitetura canina em versão rasteira. Nada de luxo: teto honesto, entrada humilde, sonho modesto. Instalei-a à beira do lago, facilitando o vaivém dos novos nadadores. Lembrei daquela frase injusta que compara o generalista a um pato — nada, voa, corre, anda… e não faz nada direito. Quem diz isso nunca viu um pato nadando. Eles deslizam com uma soberania líquida, como se a água fosse uma extensão natural do corpo. Flutuam com dignidade. E, convenhamos, são sublimes assados.
Logo terei muitos. Cada ninhada rende de oito a doze patinhos, garantiu o vendedor da cidade vizinha, equilibrando um balaio vivo e barulhento, onde penas, bicos e esperanças se misturavam.
— Casal baratinho! Logo tem filhote e o senhor recupera o investimento!
Fiquei desconfiado daquela planilha aplicada à ave. Lembrei do Primo Rico, imaginei o pato palestrando sobre renda passiva enquanto grasnava.
Com tudo instalado, restava a espera: pelos ovos, pelos filhotes, pelo tempo necessário para crescerem e, naturalmente, pelos assados futuros. A espera é parte essencial da vida rural: tudo demora, menos a ilusão.
Quando minha esposa viu a cena, emocionou-se. Disse que eu era o melhor marido do mundo, por realizar seu sonho de ver o lago cheio de vida. Fiquei ali, inflado de orgulho, saboreando aquela sensação ancestral de provedor. O lago quieto. Os patos deslizando. O sol ajudando. Um instante perfeito, desses que a gente guarda como prova de que estava certo.
Durou até o caseiro chegar.
— Patrão… não é casal. São dois machos.
Revisei o cardápio.





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