3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Maria Sandra Camerini (Categoria Poema)

SOBRE A AUTORA:
Maria Sandra Camerini natural de Novo Hamburgo,RS em 14-06-1949.
Socióloga; psicanalista e poeta . Publicou os livros de poemas: "Raízes Aéreas" ed. Movimento 1984, P. Alegre; "Entrementes o Amor e os Semblantes" 1993 ed. IEL Tchê,P. Alegre 1992. Participou de antologias poéticas mediante seleção por concurso. Teve poema selecionado participando do projeto Poesia no Ônibus da Companhia de ônibus Carris e Prefeitura de Porto Alegre 1997. Criadora dos projetos: Oficina de Prosa, Poesia e Brinquedo para crianças, e Oficina Escrever e Dizer para participantes adultos. As oficinas são de cunho literário em associação com a possibilidade terapêutica que a palavra confere ao ser falante e escrevente ao expressar suas impressões sobre o mundo e o viver. Reside hoje em Vitória , ES, onde segue dirigindo as oficinas de texto Escrever e Dizer e sua interseção com a Psicanálise.
O TEXTO:
Corpoema
Partes do mistério, cadeia infinda, clamam os corpos no extremo do tempo.
Corpo entre os corpos, esquinas, calçadas,
mais que pés, mais que braços, anônimos passos
no antro espaço, denso plano das cidades.
São faces feridas por setas precoces,
a fome, o medo, a peste fulminante.
Os sem-esperança contra a sina, tão perto,
longínquos, sem teto, só o chão e o direito
de habitar sob esse os homens deitados.
Corpos dos corpos, dardos nascendo da carne,
a vida oceânica espécie, dispersa maré sobre a terra,
onda ávida por si mesma.
A despeito do tempo, dos desmandos,
do dia do assombro, agentes poluentes, a mina,
o rejeito, o núcleo da usina, o minério na quadra,
no dedo, no ovo, no estômago, desvalia do homem!
Nas ruas perdidos os corpos meninos,
os corpos meninos, os corpos meninos!
Outros na praça da esquina, na Quinze, na Sé
naquela de Maio, na outra Vermelha.
No Parque Central, picadeiros do mundo
são corpos dispersos na massa indistinta
e o dano calculado das bombas abaixo,
acima, dentro, um gesto e os corpos
f-r-a-g-m-e-n-t-o-s!
A coisa, o desejo; o desejo das coisas. Entre corpos
e mãos, passando vão as demandas nas esteiras.
Ardem silêncios em naus industriosas, queimam pulsos,
células se exaurem, é o amor emparedado entre artefatos
e o poema, canto oprimido em chão graxo e engrenagens.
Os corpos tombados sobre os campos ermos,
a terra sangrada, tomada, retida. Cada parte mínima de solo
é um homem morto em todas as idades,
amor mal compartido, poema sedento no pó, canto inútil,
exílio em país de origem. O corpo estranho!
Se Viver é conter-se entre paredes de corpos feitas, a
amarga morada do poema é latejar vontades, suportar em
mudez a névoa do limite, o amor encarcerado, as frações
nas partes.
Há que pensar: É por que o sol atrai a vida
que o tempo lança de seu seio os corpos?
É a vida que ama atravessar os dias em braços e pernas
e repetir sua ânsia ambígua nos olhos dos que a vivem?
E é por si mesma que ela nos habita e toma nosso corpo
às suas ordens?
Vagam os corpos, no tecido temporal
legiões de espanto se sucedem e os corpos se tocam
como barcos e se afastam, interrogações lançando
proas umas às outras, tráfego de setas contrárias.
Se assim vagam os corpos, perdido é viver
quando não sabem por que voltam, improfícua é a vida
quando não encontra a formação do ser nos corpos
Pois, pode mais que veículo de vida, o corpo, o movimento
da vontade; os olhos sobre a extensão que o limita.
Deve mais que caminhar a esmo sentir o lugar de onde parte
e assim olhar a rede do viver por dentro, saber como e para que
no coração batem as horas.
Se no princípio era o verbo, todo homem desde seu corpo,
há de devolver ao menos um eco em tributo à origem!
Da célula dividida, ancestral porção, partiram os homens
e o rio no seu encalço pelas paragens da vida.
Se doem os núcleos atentos e no arpejo as cordas
se distendem, se há verbo e voltagem nos filamentos
meninos, canta um rio no coração dos filhos. Se o corpo
por dentro é verso, homem, palavra, toda a instância
é seu domínio.
Assim, em silêncios, ruídos, cresce o sentido e a direção
na construção dos corpos. Dar casa à vida e, mais, contê-la!
Domar o rio para o fluir contínuo entre as fronteiras
de carne provisória.
Poema é então todo o homem, não cabe só em seu corpo,
há de encontrar os irmãos e levantar a palavra à inteireza,
suspeitar de seu fascínio. Já não cabem em si as palavras,
são dados perdidos, avanços, recuos e, no entanto, rumos.
O rio desperto, então, vem! Vem pelos tempos,
pelos afluentes, vem pelas gretas em ritmos confusos,
subterraneamente vem ― do abismo dos poros, pelos olhos,
em atos, vocábulos, símbolos à procura dos filhos.
E os corpos unidos na feição do amor se levantam,
cada homem é palavra e partícula da luz do Poema
que irrompe, os dedos do espírito, o vulto crescente
dos seres no CORPO, cambiado exprimir de semblantes.
Logo, não cabe em si todo o CORPO; não cabe em si
o POEMA; mas sim no contentamento pelos filhos
que descobre a lavrarem em termos infindos
a profissão perene de ser CORPOEMA ― verso em geração.
E ainda que falhem, que nunca bem saibam,
nem compreendam direito como ser corpo e pessoa,
ou como escolher as palavras para dizer
o que dentro contém; ainda que tarde pareça,
ainda que o dia anoiteça, “vide verso”;
quando os poetas levantarem do seu sono,
o Poema vem!





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