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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Martim César (Categoria Poema)

8 de out.
6 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Escritor, poeta e músico. Autor de uma dezena de livros sobre a temática da fronteira do Brasil com os países platinos. Vencedor por duas vezes do prêmio Rua dos Cataventos, da Sociedade Mario Quintana de Poesia e do prêmio Açorianos de música do RS. Vencedor de dezenas de festivais de música do RS e de mais de vinte festivais nacionais. Apresenta semanalmente a série histórica Nossas Origens (sobre as raízes da fronteira sul-brasileira), na rádio Sul.net e na rádio missioneira Unijuí FM. Coautor de 15 trabalhos discográficos com renomados músicos brasileiros, uruguaios e argentinos. Mais recentemente lançou o cd/livro Duas fronteiras do mundo, sobre as obras dos escritores Miguel de Cervantes e o fronteiriço Aldyr Garcia Schlee, o livro Cantigas de Rodamundo (infantil), além do CD de sambas, toadas e chorinhos, ‘Náufragos Urbanos 2 – Relógios de areia’. Atualmente está em fase de lançamento do livro de poesia Breve Fulgor do Relâmpago. Em fase de publicação: O livro histórico O Touro de Europa nas areias da Ibéria (primeiro da quadrilogia Nossas Origens) e Veredas de Comala (adaptação poética da obra Pedro Páramo, de Juan Rulfo), com versões do premiado poeta mexicano Eduardo Langnane (Casa de las Américas).


O TEXTO:


Oyendau (ou a pedra da memória) I


E te chamaram de América...

Tu que dormias no anterior a tudo,

na primavera dos tempos. Na infância do mundo.

Tu que eras presente, eternamente continuado,

terra embalada por sons naturais. Sinfonia perpétua.

Água esculpindo nas pedras o rumo dos rios,

floresta soprando no vento o gérmen da vida.


Tu que eras palavra de mil bocas.

Grunhidos e sinais, gorjeios e canções.

Idiomas de gentes e animais. Tu que eras vegetal.

Folha sussurrando ao vento, chuva respingando o chão.

Tu que não precisavas nome de terra, pois eras a própria terra.


Tu que antes eras pedra e árvore, areia e relva,

e entre eles eras água, líquido vital, rumoroso e puro,

eras filete escorrendo da neve da montanha,

eras a primeira gota derretida ao sol e a segunda gota,

e depois o córrego que cantou na linguagem das pedras

e que, mais abaixo, encontrou outro córrego,

e assim se tornou um riacho e se juntou a outros

e se tornou rio que, de afluente em afluente,

foi crescendo, alargando margens, saciando bocas,

até desembocar, ruidoso e imponente,

no mar imenso e insondável.


Rio que antes irrigou as selvas, campos e sertões,

e encharcou pântanos, e fecundou vales.

Tu que foste a fonte onde se saciariam homens e animais

e de onde nasceriam as plantas que seriam domesticadas

para servirem de alimento e de ofício cotidiano,

e que, por fim, plantariam o homem em cada lugar.


Porque tu semearias os homens nestas imensidões,

vindos de terras distantes, atravessando estreitos gelados,

em tempos imemoriais, em sagas que não foram narradas,

por serem anteriores a estas eras, a estes tempos,

mas que foram tão reais que ainda estão em nossos genes,

na adoração ao fogo, na sobrevivência ao frio,

no lobo renascido em cão, ainda hoje enterrando ossos,

para um inverno que já não é igual,

mas que sobrevive, implacável, em sua memória.


Os homens, que também viriam em barcos, desde o poente,

de lua em lua, de ilha em ilha, de geração em geração,

de fogueira em fogueira, vencendo ondas e penhascos,

até alcançarem estas paragens de onde não mais sairiam.


E, assim, por milênios te cruzaram de norte a sul,

de oeste a leste, da cordilheira ao Pampa,

da floresta ao deserto, dos pântanos até o mar.

E se entrecruzaram, misturando seus sangues,

e enredaram suas mãos e seus pés, feito raízes,

e pariram novos deuses da chuva e do trovão.


E foi só então que os sons começaram a te nomear,

só então começaram a musicar teus nomes.


Porém não eras América ainda, e sim a terra.


Somente a terra, ainda sem nome, ou de muitos nomes,

desde o mundo Alakalufe, no sul mais ao sul,

gelado e aquático, nevado e canoeiro.

até o território Inuit do extremo norte do mundo,

também feito de gelo e de água, de nevascas e de vento,

na brancura eterna, misteriosa e mineral,

dos confins deste hemisfério.


E entre esses dois lugares, nas distâncias abissais,

sob as noites de infinitas estrelas e de planetas viajantes,

forjavam-se homens e mulheres, mulheres e homens,

cada vez mais, noite após noite, vida após vida,

para que um dia tivesses esse nome que agora escrevo,

esse nome que veio de longe, de outros mares,

e que levamos como filhos que não puderam escolher

com que palavra se reconheceriam, com que som,

e que não sabemos se nos cabe, mas que ouvimos,

e que quando nos chamam, orgulhosos ou contrafeitos,

aceitamos como nosso.


Esse nome chegado de longe, e de homem nascido.

Esse nome que não necessitávamos antes que viessem eles,

posto que eras a terra, anterior à catástrofe, eras a terra,

simplesmente a terra que já tinha seu nome, por ser mãe.


Pois eras a terra, a mãe e o pai, a madre criadora,

O ventre gerador de tudo e de todos,

O lar que já tivemos, Pachamama.


II


América, mãe e madrasta, pátria e patíbulo.

Dá-me hoje tuas sonoridades, teus nomes esquecidos,

Tua música criada desde o fundo dos teus espíritos de selva,

Tuas palavras de pedra e barro, de salitre e de cobre.


Dá-me também teu silêncio e teu martírio,

Teu pranto e teu lamento, tua seiva e teu sangue,

Porque eu preciso contar, ainda que não me escutem,

Ainda que estes tempos já não queiram te lembrar,

Preciso recordar. E te busco, pelos rumos da memória,

Desde a noite dos tempos, desde as primeiras fogueiras.


Ahoniken, Tehuelches, Selknams e Yaganes,

Chonos, Huilliches, Payos e Kawésqars canoeiros,

Todos eles e outros mais te miravam desde o sul.

Ou desde o mundo anterior ao sul. Muito antes do sul.

Porque não havia sul nem norte, oeste ou leste.

Havia o mundo. Existiam as estações. O dia e a noite.

Existiam as ilhas e as geleiras, o temporal e a ventania.

E existia o mar que era o final e o começo de tudo.


América, dá-me teu canto mais sentido, teu silêncio aborígene,

Tuas palavras naturais, teu idioma híbrido de gente e terra,

Tuas noturnas visões de um céu misterioso e intocado.


Mapuches e araucanos te miravam desde onde o sol nascia,

Te avistavam sob as luzes infinitas do firmamento,

Sob a pálida e gigantesca lua, com suas formas variáveis,

Debaixo de mil constelações, de poeiras incandescentes,

Desde onde milhares de estrelas surgiam a cada anoitecer.


Ali cruzavam as montanhas, tão altas como deuses impassíveis,

Ali admiravam o voo dos condores de gigantescas sombras,

Imitavam e reverenciavam os silenciosos pumas caçadores.


E foi assim por milhares de luas e por quase infinitas gerações,

Por incontáveis noites de histórias e de cantos ao redor do fogo,

Por milhares de caçadas de focas e guanacos, de lobos e nhandus.

Até que um dia, de repente, apareceram os primeiros vestígios

De que tudo acabaria, de que o final viria pelas mãos do mar,

O mesmo misterioso mar que dava alimento a tantos povos.

Ruídos. Vozes. Algazarras. Estranhas palavras tocadas pelo vento.

Rumores agudos e metálicos que este mundo jamais ouvira,

E que trariam o inconfundível cheiro da mortandade humana

A estes lugares que sempre foram nossos.


Foi quando casas assombrosas apareceram desde o mar

E delas saíram homens pálidos e barbudos, metálicos e hostis.

E mesmo os não ferozes, trouxeram males que ninguém conhecia,

Mas que arrasaram nosso mundo e mataram nossos deuses.


América, dá-me todas as imagens de dor, todas as tuas chagas,

E mesmo que fossem infindas, seriam poucas as palavras

Para contar tudo o que sucedeu.

América, dá-me teu grito mais profundo, tua canção mais sentida,

Teus idiomas feitos de vento e de pedra, de neve e de água,

De relvas e mata, tua linguagem de silêncio, enfim, de silêncio.


De silêncio.


III


Oyendau.

Porque ainda segues memória.

Porque ainda falam as pedras gravada sobre teu solo.

Porque ainda falam por ti. Falam de ti e resistem.

Mesmo quando já não estás, tu segues estando.

Elas que são mensageiras de outra era,

de outros dias e de outras noites.

Pontas de flecha, pedras de boleadeira, ocarinas, conchas,

Arcos que cantam ainda em suas cordas,

Quase todos já sem donos,

Mas que seguem soando no soprar do vento.

Porque foram - e ainda são - vida.

Vida que ainda pulsa sobre o chão.

E canta.


Oyendau.


Não escutas? Não ouves seus ecos? Seus chamados?

Seus cantares ao derredor das fogueiras?

Silencia então. Silencia. Diminui teu ritmo.

Acalma tua respiração. Compassa o tambor do teu peito.

Silencia e ouve. Fecha teus olhos e ouve.

Escuta, além dos ouvidos, com todos os teus sentidos.

Escuta.


Aí estão eles. Agora podes ouvi-los.

Ecos de um tempo que não está muito além.


Foram milhares de luas e estações,

Até a chegada desse dia em que tudo começou a terminar.


Até esse dia em que chegaram aqueles que não entenderam

Que somos parte de algo maior,

Algo que pulsa em cada árvore e em cada rio,

Em cada animal e em cada homem,

Todos vivos. Todos pulsantes.

Todos partes de um mesmo ser.

E que se matarmos nossos irmãos

- filhos de uma mesma mãe terra -

E que se extinguimos a última floresta,

Matarmos o último rio e o último animal,

Matamos a nós mesmos.


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