3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Michelle Nicié (Categoria Poema)

SOBRE A AUTORA:
Michelle Nicié é psicóloga, psicanalista lacaniana e atualmente atende em consultório particular em Niterói, RJ. Atuou como atriz e formou-se Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), instituição onde concluiu também Mestrado e Doutorado-sanduíche em Teatro, com período de estágio realizado na França, na Universidade PARIS III. Realizou Pós-Doutorado em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuou como diretora executiva do Teatro da UFF e como professora substituta em história do teatro e literatura dramática na UFF, na Unirio e na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Sua relação apaixonada com a literatura e a escrita iniciou-se na infância.
O TEXTO:
Brumadinho Não, seu moço, não foram duzentas
Aprenda a contar, seu moço
Conte, Reconte, Desconte
Conte aquela árvore que ficava naquela pequena colina onde João, depois do trabalho,
encontrava todos os dias Maria, seu grande amor
Conte, Reconte, Desconte
Conte aquele cachorro, um vira-lata amarelo chamado Chiquinho que com sua devoção
fazia Aninha sorrir de tanta alegria e graça
Conte, Reconte, Desconte
Conte aquela vaca, a Filó, cuja vida pacata resumia-se a pegar sol, pegar chuva, comer no
pasto, dar seu grosso leite todas as manhãs para alimentar aquela família de seis: pai, mãe,
avó e três filhos. Eles também tinham nomes e histórias pra contar, seu moço, mas hoje
isso já não importa muito, né?
Conte, Reconte, Desconte
Conte aquela longa trilha, seu moço
Aquela trilha estreita e curva, formada por formigas saúvas que iam e vinham fazendo o
mesmo trajeto de todos os dias, o mesmo trabalho de recolher gravetos, folhas, restos
caídos pelo chão que guardavam cuidadosamente
Conte, Reconte, Desconte
Conte aquele abraço, seu moço, que nunca mais será sentido
Aquela lição na escolinha da esquina que os meninos não vão mais ouvir
Aquela cantiga daquele moço que ia pela estrada se encantando de tudo que era vivo,
quente, delicado e frágil
Conte, Reconte, Desconte
Porque no fundo, o moço sabe o que vale e o que não vale, e o quanto uma vida vale nessa
terra de nome doce, Brumadinho
E mesmo que a gente saiba contar, né moço, é certo que nenhuma história vai dar conta de
tanta minúcia, tanta beleza de coisa miúda, tanta coisa bonita perdida e calada, tanta dor
sentida apertada no coração por toda essa gente, esses bichos, árvores, pedras, rios, e por
tudo que lá estava e já não há, por a gente mesmo chorando de tristeza
Por tudo isso, seu moço, faz falta lembrar que não foram só duzentas vidas, duzentas
histórias
Conte, Reconte, Desconte
Conte, Reconte, Desconte
Conte, Reconte, Desconte





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