3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Miguel Freire de Resende (Categoria Conto)

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O TEXTO:
Velório dos vivos
I.
Era uma quarta-feira, no meio da manhã, e estávamos no carro em direção à funerária. O morto não era ninguém muito próximo e, sendo sincero, sua partida não foi muito inesperada. Apesar disso, minha mãe, por fazer questão de nos conscientizar desde cedo sobre a morte, exigiu que todos lá em casa marcassem presença, incluindo meus dois irmãos mais novos, um de cinco anos e outra de três.
Eu e meus pais ficamos a maior parte do tempo em silêncio, já tomados por esse constrangimento respeitoso que a morte causa àqueles que não foram seus alvos diretos. Um senso comum barrava qualquer tentativa de falar sobre algum assunto que não fosse o morto ou seus próximos. Já meus irmãos, ignorando completamente a situação, iam cantando a “Borboletinha”.
Chegamos. A funerária Requiem parecia projetada para parecer qualquer coisa, menos uma funerária. A ala que conectava todas as salas de velório era alta e bem espaçosa, com um jardim interno de samambaias e orquídeas em um canto à esquerda da entrada, sofás confortáveis colados às paredes e aparadores com revistas sobre moda, economia, carros e fofoca à disposição. O branco cremoso era predominante, mas tonalidades de verde água e azul claro também apareciam em padrões de azulejos distribuídos pelas paredes. O clima lá era sempre fresco, quase gelado, fazendo com que o lugar às vezes lembrasse uma gigantesca sala de espera de um consultório odontológico. As salas de velório também eram feitas com uma elegante simplicidade: uma cruz branca de dois metros, sem Cristo, com as pontas curvadas para dentro, escoltada por dois castiçais que na maior parte do tempo estavam sem velas, ficava postada à parede guardando o caixão; cadeiras acolchoadas e pufes estavam distribuídos ao redor do féretro e as paredes possuíam tonalidades pastéis de verde e marrom. Era como se essa leveza na composição espacial das salas de velório fosse uma tentativa de amenizar sua função sombria.
Entramos. Devia haver umas doze pessoas ali. Ao lado do caixão estava a nossa tia, secando as lágrimas dos olhos pela enésima vez e conversando com uma amiga. O infeliz era irmão dela e tinha leucemia em estado avançado, mas morreu de ataque cardíaco. Diziam que a criada sem querer derrubou uma jarra de água no chão enquanto ele dormia e o coitado morreu de susto. Ela era a irmã mais próxima do morto, a única com quem ele não teve desavenças em vida, e a proximidade era ainda maior por ter sido ela quem cuidou dele durante o câncer (ele não possuía filhos e chegou a se casar uma vez, mas sua esposa o traiu com um sujeito desconhecido e fugiu sem deixar rastro. Nunca mais entrou em contato e, se ainda estiver viva, ignora o fim de seu ex-marido).
Por mais que estivesse chorosa, ela era expansiva demais para assumir uma postura deprimente. Contava à sua amiga (provavelmente, também pela enésima vez) toda a trajetória dele durante o câncer – como ele foi forte, como ele lidou bem e sereno com a situação e todo esse papo de praxe. Enquanto ela conversava, nos aproximamos do cadáver.
Não consigo dizer que o morto “repousava” no caixão, porque “repousar” é algo essencialmente humano. A palidez da pele, ainda mais reforçada pelo branco das roupas, lençóis e flores que o revestiam, dava a impressão de que aquilo nada mais era que um boneco de plástico gigante, ou uma peça de museu de cera, extravasando tanta frieza que dava vontade de vestir um moletom só de chegar perto dele. Dizer que algo tão inumano assim é passível de “sono” ou “repouso” é impossível. Ele só existia, como um mineral qualquer.
O cadáver do senhor Júpiter (sim, esse era o nome do morto. Seu pai dera na telha de colocar nomes gregos nos filhos sem nem imaginar que nomeou todos com as versões latinas: Júpiter, Hércules, Ulisses e Diana, a minha tia) usava uma camisa social de mangas longas com o colarinho abotoado para esconder as manchas da leucemia e dois pedacinhos de papel tampavam suas narinas. Tinha a cabeça completamente pelada e não estava tão raquítico como imaginei; possuía uma bela quantidade de rugas que lhe davam um caráter mais senhoril do que decadente. Ao contemplá-lo pela primeira vez, a única coisa em que consegui pensar foi a maneira como ele morreu: a situação – a jarra de água caindo e antecipando a morte dele – me parecia tão engraçada que tive que me segurar para não rir.
Sei que é uma maneira bem inadequada, talvez até cruel, de agir diante dessa situação e me esforcei para me livrar deste pensamento. Mas o caráter acidental do fato, mesmo que trágico, dava-lhe um ar tão cômico que não conseguia deixar de rir internamente, como se a morte de Júpiter fosse uma grande piada, uma ironia ácida do destino. O fato de eu enxergar o cadáver apenas como um amontoado de elementos inativos fazia com que eu não conseguisse desenvolver qualquer complacência por ele. Se segurei meu riso, foi em respeito ao luto alheio, em respeito aos vivos, não ao morto.
Com certeza meus pais não compartilharam de minhas impressões cômicas. Meu pai apenas dirigia um olhar sério ao defunto. Não era possível ler expressão alguma ali a não ser a sisudez respeitosa típica dessa formalidade. Minha mãe também estava séria, mas era possível ver em seu olhar certa compaixão, como se estivesse de alguma maneira se solidarizando com o morto por sua situação desagradável e lamentando-a como se este se importasse ou pudesse agradecer-lhe amigavelmente por seus sentimentos fraternos. Meus dois irmãos pequenos observaram curiosos por um tempo, mas sua curiosidade não durou muito: logo cansaram-se daquele homem pálido que dormia e começaram a se remexer no colo dos meus pais procurando qualquer coisa interessante naquele espaço sem graça.
Ficamos ali em silêncio por uns três minutos até a tia Diana desocupar sua amiga e vir nos cumprimentar. Estava com a maquiagem um pouco borrada, mas seus gestos e sua postura continuavam altivos, até um pouco espalhafatosos. Eu e meus pais repetimos o imutável ritual dos Meus-Pêsames-Que-Deus-O-Tenha, ela agradeceu e logo depois disse, com um volume de voz alto até o ponto de me deixar um pouco constrangido, exatamente as mesmas coisas que tinha dito à sua amiga do sindicato, mas como se fôssemos as primeiras pessoas a chegar ali:
“Muito obrigada! Sim, o Júpiter foi muito forte! Olhe só pra ele, como ele parece tranquilo agora!”, ela aponta para o irmão morto e seca as lágrimas, mas sem tremer a voz. “Descansou, coitado, já sofreu demais. Olha só a paz no rosto dele! Eu me lembro de acompanhá-lo nas sessões de quimioterapia, como ele vomitava, como ele foi ficando raquítico, mas nunca reclamou de nada! Nem mesmo quando os médicos o desacreditaram da cura, ele não ficou nem um pouquinho abalado…”
Enquanto ela prosseguia seu discurso para meus pais atenciosos, dei uma examinada nos outros presentes da sala.
Em um canto ao fundo do aposento, afastado de todos e de braços cruzados, estava Hércules. Seu nome condizia com a estatura: era enorme em todos os sentidos e parecia ocupar toda aquela aresta da sala. Os braços, visíveis pela manga dobrada da camisa, eram grossos e peludos e eu tive a impressão de que se ele os estendesse ao máximo, poderia alcançar o caixão ali de onde estava. Não era atlético, tinha antes aquele porte pesado, assim como seu gesto. Soube que não tinha a melhor das relações com Júpiter, chegando a ficar anos sem trocar uma palavra com ele, e mesmo quando se reataram, não foi o suficiente para tornarem a ter um firme laço fraterno. Ele olhava para o chão, a boca rígida, as sobrancelhas cerradas, as papadas bem delineadas. Não parecia pensativo nem bravo, apenas confuso sobre qual emoção demonstrar naquele momento e por isso recolhido em si mesmo.
Ulisses estava ao lado da porta de entrada, conversando. Ao contrário de Hércules, seu físico em nada remetia ao herói homônimo. Era um sujeito banal, quase insignificante, com uma expressão neutra, que ele às vezes tentava disfarçar para não parecer indiferente. Conversava calmamente, em voz baixa, quase sussurrante, uma maneira que ele achou de demonstrar respeito. Estava muito bem-vestido, como se tivesse saído de uma reunião de negócios ou algo assim e como se estivesse pronto para voltar a ela a qualquer momento.
Recebia os pêsames de todos como uma tarefa maquinal, repetindo os mesmos movimentos, comprimindo as sobrancelhas para expressar pesar e respondendo apenas o necessário para não precisar prolongar nenhuma conversa.
Não tivera nenhuma desavença séria com Júpiter, mas também não era nenhum exemplo de irmão. De acordo com relatos de minha tia, ele era o tipo de sujeito que se mantinha distante apesar de estar sempre presente. Nunca faltava aos almoços de domingo, nem a nenhuma reunião familiar, mas frequentava estes como se fossem compromissos de agenda e interagia com os seus à maneira de uma obrigação incontornável: “Se houvesse uma secretária eletrônica nos lugares em que nos reunimos, ele com certeza bateria o ponto quando chegasse e saísse”, era o que ela dizia. Júpiter não gostava dele e não se esforçava em esconder isso, mas Ulisses nunca se importou. É possível que ele nunca tenha nem percebido.
Meu tio João, esposo de Diana, estava sentado ao lado do féretro, com os olhos vermelhos de chorar. Era um homem muito emotivo até mesmo para demonstrar luto por pessoas das quais ele nem era muito chegado, como era o caso ali. A mulher de Ulisses ficava zanzando pelo espaço na tentativa de acalmar sua filha de dois anos que chorava, e não olhou uma vez sequer para o caixão. Aparentava ser a pessoa mais desconfortável no velório. O resto da sala era composto por alguns primos meus distantes, amigos, conhecidos e parentes do morto os quais eu não conhecia.
Liberados do relatório de tia Diana, meu pai foi falar com meu tio e minha mãe com a mulher de Ulisses. Eu saí para dar uma volta pela funerária.
II.
Havia cinco salas na Requiem, três estavam ocupadas, contando com a de Júpiter. Das duas restantes, uma estava bem cheia e a outra era a mais vazia das três. Entrei na vazia.
O cadáver era de um homem grande e gordo. Não me aproximei demais para não ter que cumprimentar nenhum parente, mas consegui vislumbrar um pouco do seu rosto e tive a impressão de que já o tinha visto antes: era rechonchudo e delicado ao mesmo tempo; as sobrancelhas eram finas, o nariz proeminente, tinha algumas rugas na testa e os cabelos ainda bastos possuíam um belo gradiente de cinza e branco. Pelas suas vestimentas finas (um terno elegante, inteiramente preto) e pelo luxo do caixão de carvalho já supus que o homem foi um aristocrata, e a verdadeira galeria de coroas de flores deixava claro que também foi influente: famílias ricas, empresas poderosas e inclusive algumas companhias internacionais deixaram seus lembretes de pesar. Porém tal rosário de condolências servia para criar um contraste ainda maior com o reduzido número de pessoas na sala: me incluindo na contagem, eram apenas seis.
Nas cadeiras ao lado do féretro estava uma mulher esguia e tão aristocrática quanto o cadáver. Trajava o total rigor do luto: vestido e saltos pretos, uma discreta corrente prata no pescoço, óculos escuros pendurados na gola e até mesmo luvas pretas de pelica. Mantinha um ar abatido, encarando o chão e mesmo que não parecesse chorar, de quando em quando levava um lencinho aos olhos. Deduzi que era a viúva.
Ao seu lado, encostado na cadeira e com uma mão no ombro da mulher estava um rapaz de uns 20 anos, olhando sério para o morto. Era um belo rapaz, apesar de parecer meio doente. Por sua semelhança com a mulher ao lado, deduzi que era o filho agora órfão de pai.
Havia mais dois homens que conversavam entre si em um canto e, ao lado do caixão, sussurrando Ave-Marias, estava uma velha que com certeza era o ser mais interessante naquela sala vazia: uma anciã baixa e encurvada, usando um vestido estampado, coberta com um véu negro e empunhando um terço na mão. O rosto já enrugado adquiria ainda mais saliências quando apertava os olhos para rezar com mais fervor. Seu nome era Gertrudes, a funerária era sua casa, e os mortos seus inquilinos.
Todo santo dia ela frequentava a Requiem, passando por todas as salas para rezar pelas almas de seus “pobres fiéis defuntos”. Em todos os velórios que lá frequentei ela marcava presença com o mesmo terço de bijuteria barata, o mesmo véu negro e a mesma determinação em velar por aqueles que eram totais desconhecidos para ela. Porém ninguém, ateu ou cristão, ousava interferir: o respeito pela velha era universal. Gertrudes era o Caronte crente, sua presença em um funeral era uma certeza quase tão grande quanto a própria Morte.
Após essa vasculhada pela sala, voltei novamente minha atenção ao cadáver e a impressão de que aquele rosto não me era desconhecido foi ainda maior. Onde eu já vi aqueles traços? Não tive coragem de perguntar aos dois homens que conversavam e menos ainda à viúva e ao órfão, já dona Gertrudes certamente não fazia ideia de quem era. Foi quando reparei que na parede ao lado da porta, do lado de fora da sala, havia uma tabuleta com uma caneta e uma espécie de lista de presença que os visitantes assinavam. No topo da lista, estava a foto do falecido, seu nome e datas de nascimento e falecimento: Gideão Fagundes Naves, 57 anos.
Imediatamente minha memória se clareou: o Sr. Gideão Naves faleceu! O magnata das construções! O dono de uma das maiores firmas de construção civil do estado, quiçá do país! Boa parte dos prédios, das praças e dos edifícios da região fazem parte de seu dossiê. Soube, inclusive, que preparava sua candidatura a deputado estadual nas próximas eleições, com boas perspectivas de êxito.
Na lista de presença, debaixo de seu nome e sua foto, contei a assinatura de dez pessoas.
À porta da terceira sala, a que estava mais cheia, logo percebi que todo o ambiente estava tomado por uma grande comoção: choros e cochichos cruzavam o espaço lotado. Abrindo caminho entre as pessoas, consegui vislumbrar o motivo do rebuliço: aquele caixão era pequeno demais.
A cena seguinte fez toda a comicidade que senti vendo Júpiter ou minha indiferença com Gideão desapareceram. Uma criança, uma menina, com mais ou menos 12 anos de idade. Sua pele era branca e lisa como porcelana, o cabelo curto encaixava em seu rosto como um suave capacete, cada mecha como uma extensão de seus traços delicados. Os cílios longos languidamente repousados embaixo das pálpebras, o nariz fino e a boquinha eram pequeninos píncaros despontando de seu gesto. Tive a impressão de que ao menor toque ela se quebraria.
Tenho que admitir: parecia que ela estava dormindo.
Soçobrada sobre o cadáver da filha, em completo desespero, estava a mãe. A tristeza da mulher parecia vir de uma explosão interna, que irrompia externamente em gritos e lágrimas. Seus cabelos estavam todos bagunçados, seu rosto desfigurado: qualquer resquício de estabilidade havia desaparecido. Os gritos de “MINHA FILHA! MINHA CRIANÇA!” atravessavam meus ouvidos de maneira lancinante. Era o quadro trágico por excelência.
Ao seu lado, tentando em vão conter a mãe desesperada, estava a avó. Ela também chorava, mas em silêncio, agarrando os braços da mulher para impedi-la de entrar no caixão. Era uma velha que transbordava firmeza. As lágrimas escorriam pelo seu rosto duro como as chuvas escorrem pela pedra. De quando em quando ela, sempre ignorada, fazia um “shhh!” para sua filha.
Havia apenas mulheres próximas ao caixão, todas chorando copiosamente como as filhas de Jerusalém do Evangelho. Na verdade, todas as mulheres da sala choravam, até mesmo alguns homens não conseguiam se conter. As conversas sussurrantes lá dentro eram todas relacionadas à criança: trocas de pêsames, comentários e histórias:
“Era apenas uma criança! Como Deus pôde permitir uma coisa dessas?”
“Meu Deus, será que a Verônica vai conseguir suportar? Eu nem imagino como deve ser.”
“13 anos, cara! 13 anos de idade e ela se foi desse jeito…”
“Isso tudo é na conta do canalha do pai. O desgraçado se sentiu tão culpado que nem teve coragem de aparecer no velório…”
“Tão novinha! Eu me lembro de pegá-la nos meus braços!”
“O que aconteceu mesmo? Remédios?
“Não. Enforcamento. Está vendo a gola alta da mortalha?”
“Meus pêsames pela sua sobrinha. Eu me lembro como se fosse hoje quando perdi meu pequeno Davi…”
“Ela já não demonstrava estar bem antes mesmo dos pais se divorciarem…”
“Se ele não tivesse traído a Verônica, isso não teria acontecido.”
Boa parte dos presentes não era da família. Pelo visto o suicídio da menina causou grande repercussão, levando estranhos a ir prestar seu luto ou apenas saciar sua curiosidade mórbida.
Alguns minutos depois chegou dona Gertrudes, abrindo um corredor através do povo. Com passos lentos, ela se dirigiu até o âmago da sala, com a mesma expressão devota, o mesmo terço, o mesmo véu. Por onde passava as pessoas silenciavam: chegou a guardiã dos mortos da Requiem.
Ao se aproximar do caixão, não aparentou nenhuma comoção em especial; seus gestos eram os mesmos de quando velava o sr. Naves. Plantou-se ao lado da menina morta, fechou os olhos e começou a sussurrar suas Ave-Marias. As filhas de Jerusalém choraram mais baixo para não atrapalhá-la. A única que não a notou foi a mãe, cega que estava em sua dor.
Era um contraste incrível aquele: de um lado o luto desabalado da pessoa mais íntima possível à falecida; do outro o luto silencioso de uma desconhecida. Os gritos opostos aos sussurros, o desespero aposto à calada esperança.
Após algumas dezenas, para a surpresa de todos, dona Gertrudes quebra a sua imobilidade e contorna o caixão em direção à Verônica. Mantém a expressão piedosa, continua a despejar as Ave-Marias; ao se aproximar dela, coloca a mão em sua cabeça: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco…”, o ritual segue imutável, mas agora sua intercessão se dirige a ambas.
Verônica nem toma conhecimento da presença da anciã, mesmo quando esta põe a mão em sua cabeça. Seu choro e ranger de dentes continuam inalteráveis. A avó aperta seus braços com mais força e sussurra palavras de quietude em seu ouvido, em vão. As mulheres já não seguram seu choro, comovidas com a sensibilidade de Gertrudes.
A mão enrugada da velha repousa, irremovível, nos cabelos bagunçados da mulher. Nesse jogo de forças, nenhuma se dispõe a ceder: a mão continua ali, assim como o desespero de Verônica.
Saí da sala e olhei a tabuleta do lado de fora.
Mara de Oliveira Cardoso, 13 anos.
III.
Após essas visitas, me dirigi ao café da funerária, um pequeno pátio com um balcão para os pedidos, algumas mesas e uma máquina automática de bebidas. Sentei-me à mesa mais afastada e comecei a digerir o que havia acabado de presenciar. A visão da criança suicida e sua mãe arrasada conseguiu me impressionar bastante, em minha insensibilidade. A morte não é algo em que eu perca meu tempo pensando (apesar das tentativas de conscientização de minha mãe); há sempre coisas mais agradáveis com que ocupar a mente.
Não passei pela experiência de sofrer a perda de parentes próximos ainda e preocupar-se com isso antes da hora me parecia insalubre. Mais insalubre ainda era pensar em minha própria morte. Sempre fui saudável e minha vida pacata nunca me proporcionou experiências arriscadas ou imprevisíveis. Bancar o Ivan Ilitch seria forçar um pessimismo desnecessário.
Mas os cadáveres, as reações diversas, as lágrimas, as indiferenças, gradualmente essas experiências se direcionaram para mim mesmo: e se fosse eu naquele caixão?
Idealizei meu velório, mas não daqui a muitos anos, quando eu estivesse velho e já cansado da vida; imaginei como seria se eu morresse agora, nas atuais circunstâncias. Lá estaria eu, mais um boneco de cera, estirado no caixão. Não me preocupo com a roupa que estivesse vestindo, muito menos com as flores com que me cobririam. Gostaria de saber mesmo quem estaria lá.
Mas antes, teria que escolher a minha morte. Morreria dormindo? Ou gostaria de estar acompanhado no leito de morte? Dormindo é melhor. Além de ser indolor, o fator inesperado surtiria um efeito muito maior sobre as pessoas. Apesar do leito ter um toque mais dramático – eu poderia dizer minhas “últimas palavras”, expressar “meu último desejo”, a surpresa sempre será mais impactante.
Deitado no caixão, vejo meus pais. Minha mãe, pobre mulher, está exatamente igual à Verônica. Considerando a sua tendência em nos superproteger, a morte de um filho para ela seria a ruína de sua realidade. Ela falhou em sua missão, mesmo que não houvesse nada que pudesse fazer. Sinto minhas roupas sendo encharcadas pelas suas lágrimas. Uma delas cai em meu rosto e escorre até a minha boca, mas não posso fazer nada.
Meu pai estaria na posição da avó. Seu papel seria o de tentar estabilizar de algum modo o sofrimento de minha mãe. Vejo-o ao seu lado, chorando também, claro, mas regulando suas emoções para tentar conter um pouco a dor dela. Meu pai é assim mesmo: sei que ele me ama, mas sempre houve certo distanciamento em nossas relações; ele sempre foi tão controlado, tão correto, que criou uma espécie de camada pragmática em torno de si. Ele sofria, com certeza, mas reservava grande parte do sofrimento para si mesmo.
Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada da mulher de Ulisses ao pátio, ainda tentando acalmar sua filha que chorava. Ao olhar para a pequena, pensei em meus irmãos. Será que eles também chorariam a minha morte? Provavelmente eles não entenderiam a situação, achariam que eu estava dormindo, ficariam entediados e inquietos: “Mamãe, quando é que a gente vai embora?” “Papai, por que o N… está dormindo?”. E mamãe e papai chorariam ainda mais. O mais provável é que eles preferissem poupar meus irmãos disso tudo. Com o tempo, minha morte seria processada por eles; ou então eu apenas seria esquecido: uma memória vaga em suas mentes ainda virgens.
Meus amigos, não tenho muitos. O Luiz estava lá, com certeza. Ele sempre se pagou de durão, mas chorava igual a um bebê. Conheço ele há tanto tempo quanto conheço a mim mesmo, compartilhamos todo tipo de experiências ao longo da vida. Claro que se ele não fosse, eu ficaria extremamente ofendido.
O Barbosa também não faltaria, nem o Carlos. Consigo enxergar o rosto esguio e esperto daquele e as espinhas abundantes deste me encarando, desconcertados. Haveria uma vaga no próximo trabalho para a faculdade. Dois trabalhos depois, a vaga estaria ocupada e seu dono, esquecido.
Inevitavelmente, meu pensamento se desviou para a Vanessa. Ela estaria lá? Talvez minha morte súbita conseguisse chamar a atenção dela de novo. Será que eu realmente sou tão desimportante para ela ao ponto de não receber uma visita em meu próprio velório? E eu a imaginei chorando copiosamente, arrependida do que fez comigo e talvez até mesmo se culpando por minha morte. Ela agora iria experimentar um pouco do que eu sofri naquela praça, cinco meses atrás.
Contive meus pensamentos vingativos, envergonhado. Me senti muito infantil, e segui observando as pessoas chegarem na sala.
Vi alguns colegas do serviço. O que eles estavam fazendo aqui? Só trocávamos palavras no escritório para reclamar dos prazos, da documentação, do chefe, do café, do arcondicionado. Eu nem gostava deles de verdade e sei que eles também não gostavam de mim. Estavam lá porque não seriam muito bem-vistos se faltassem no velório de alguém que viam quase todo dia.
Havia, claro, uma verdadeira procissão de parentes: meus tios, uma infinidade de primos, meus avós (meu Deus, imagine só morrer antes dos seus avós!), tios-avós, todos exibindo um gradiente de olhares que variam entre seriedade, melancolia, pena, dor, tristeza… Todos mostrando suas condolências aos meus pais, despejando seus pêsames como se estes já não os tivessem suficientes.
E todos lá, todos, sem exceção, falavam apenas coisas boas sobre mim. Eu nunca fui tão elogiado em vida como agora na morte. Eu era o melhor aluno, o melhor neto, o melhor primo, melhor funcionário, um jovem brilhante, cheio de vida, com sonhos e grandes perspectivas. Eu era o golden boy, um modelo, se o Papa estivesse ali, eu seria canonizado sem precisar de milagres.
Através destas laudes à minha pessoa, se infiltram sussurradas Ave-Marias: era dona Gertrudes, com toda a sua imobilidade devota. Agora sim, eu estava morto. Se acreditasse em vida após a morte, seria aquele o momento em que eu finalmente entregaria minha alma. Me senti satisfeito, como se ela fosse a peça final da estrutura de meu memento mori. “Tudo está consumado.”, eu exclamo.
Eu me ergo do caixão e percorro o olhar pela sala. Estava cheia no nível certo: não vazia como a do sr. Naves e nem abarrotada como a de Mara. Era um número respeitável de pessoas.
Inicialmente, a sensação de ser importante para tanta gente me preencheu com um acalento gostoso. Mas logo me dei conta de que o velório não era eterno. Meu destino era a terra, oculto sob uma lápide fria.
E eu percebi que a morte só leva ao esquecimento.
Ninguém ali morreria se lembrando de mim.
Ninguém morreria se lembrando de Júpiter, ou de Gideão ou até mesmo de Mara.
A efemeridade é a condição absoluta do homem; ele vive para se esquecer, descartando memórias velhas para ocupar-se com memórias novas; pessoas velhas com pessoas novas.
Mas também, por que me preocupar? Estou morto, sensibilidade não é uma característica para ser atribuída a mim. Se nem os vivos se importam, quanto mais os mortos.
Fui então tirado de minha cova a sete palmos do chão por meu pai, que me chamava para ir embora: a mãe precisava começar o almoço.
A sala de Júpiter continuava a mesma. Nos despedimos da tia Diana, do tio João, demos nossos pêsames finais ao Hércules em seu canto, apertamos as mãos geladas de Ulisses e entramos no carro.
No caminho da volta, enquanto minha mãe discutia com meu pai se teríamos macarrão ou bife no almoço, meus irmãos iam cantando a “Borboletinha”.





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