3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Paola Vanessa Gonçalves Dias (Categoria Crônica)

SOBRE A AUTORA:
A autora nasceu em Petrópolis/RJ em 1976. Cresceu numa cidade fria, numa família fervilhante, rodeada de adultos, livros, revistas e elepês. Seus sonhos de criança: ser cientista, escritora e psicóloga. Adora música. Já fui apaixonada por chocolate. Achou que não se casaria, mas cometeu o casamento duas vezes. Hoje é divorciada com fé. Achou que não teria filhos. Hoje é uma orgulhosa "Mãe de atriz". Cientista social, Gestora de políticas públicas, já atuou como Professora Universitária. Escreve crônicas e contos de amor, humor e terror em revistas digitais, antologias e concursos literários. Seu hobby: arrumar trilha sonora para toda e qualquer ocasião ou conversa.
O TEXTO:
Cinquentando à vera!
Brasileira; estatura mediana; nem rica, nem pobre; nem alegre, nem triste; cética moderada, sobrevivendo, aqui e ali, à dengue; às devastações do HIV; a uma pandemia de proporções globais; a um relacionamento abusivo; a uma gravidez de risco; à maternidade solo; ao ressurgimento de fantasmas políticos; ao medo de que alguma IA escreva um texto melhor que o meu. Eis-me às portas de meio século de existência, reproduzindo o clichê de todo cinquentenário raiz: a infame retrospectiva de vida. Proponho-me a fazer o saldo do longo percurso entre o agora e a primeira vez que mostrei minha cara, sem filtro (nem o solar, nem o digital), ao então Planeta Água. O objetivo de uma viagem ao passado? Celebrar a chegada desse marco com trilha sonora, temática e os “comes e bebes” apropriados.
Para começar, penso no bufê: olho de sogra, canudinho de frango, sacanagem, bolo com glacê colorido... Decido pedir um delivery. Não encontro no iFood. Procuro alguma “tia do Zap” que ainda saiba preparar essas guloseimas. Constato que essa figura lendária sou eu mesma. Respiro, realinho os chacras e passo imediatamente aos drinques: gin tônica, cubalibre, dry martini com cerejinha. Lembro da ressaca, da dor de cabeça, da boca amarga... Desisto! Chamo o DJ para animar a festa. Sou dessas que faz questão de Tim e Lulu. Eles traduziram as muitas fases da minha lua. O que me pega é a temática! Dedo no play do saudosismo; eu bem poderia escolher “Como uma onda no mar”. Renderia um belo luau! Mas, a verdade é que essa música nunca conquistou meu coração. Já "Tempos Modernos"... essa me deu o norte para encarar a jornada “Do Leme ao Pontal”. Foi na certeza de que a vida seria melhor no futuro que ignorei, pulei e, quando precisei, derrubei muros que vejo se reerguer com estúpida rapidez!
De muro em muro, traço uma linha segura: um rol de sonhos e realizações. Aposta certa. Elaboraria uma lista guiada pelo questionamento: o que eu queria ser ao crescer? Ignoro no caso de outros cinquentenários, mas, no meu, teria terminado o questionário na primeira pergunta. Eu queria ser cientista. Minha profissão: cientista social. Questão resolvida. Inventário concluído num microconto sem subtextos, que não renderia nem o confeito de bolinhas metálicas sobre o bolo.
Sabendo que a tal felicidade, mesmo que fake, é o hit do momento (qualquer dúvida, basta rolar o feed do Insta), um caminho promissor seria buscar, nos velhos álbuns de família, respostas para outra pergunta: qual era a cara da felicidade há cinquenta anos? Isso tomaria algumas horas apreciando um cheese-tudão fotográfico. Um apanhado de monóculos e fotografias nove por nove, carregadas de magenta, tiradas com a Kodak 126 da minha tia Vera. Uma coleção de registros factuais da vida: formaturas, casamentos, batizados, aniversários, ocasiões nas quais familiares e amigos se espremiam em volta de um bolo caseiro, confeitado pela vizinha. Tudo e todos comprimidos num mesmo enquadramento para não desperdiçar o flash.
Sim, porque, além do custo da máquina, do filme e da revelação, existia o flash, acessório caro e de uso limitado. Um cubinho cristalino, descartável, composto por quatro lâmpadas concebidas para queimar instantaneamente a cada clique. Cada foto, um flash; cada flash, uma luz que se apagava em homenagem ao momento vivido. Caso houvesse desafetos entre os convidados, o flash não se importava! “Olha o passarinho!” Diferenças lado a lado, dentes trincados, olhares de soslaio, sorrisos congelados. No centro da foto, uma criança perdida encara um bolo, besuntada de glacê. Muitas histórias, muitas entrelinhas, tudo num só fôlego. Era a vida registrada sem rascunhos. Revelada para a posteridade. Bocas abertas, olhos de gato, chifrinhos. Tudo à vera! Sem função delete, sem edit, sem filtro. Felicidade possível, sem gourmetização. Pensando bem, uma festa “não-instagramável”, sem as mil selfies em poses de beijinhos, certamente floparia.
Assim-assim, na intuição, não querendo seguir regras rígidas, considero escolher a paleta de cores da decoração: laranja, verde, púrpura, amarelo-ouro. Puro psicodelismo! Novamente, dou-me conta de que minha festa não hitaria! Melhor seria usar cores e tons mais sóbrios, disponíveis nas prateleiras empoeiradas da minha memória afetiva. Estico-me um pouquinho. Ponho-me na ponta dos pés, tentando alcançar uma lembrança olfatipara nelala, inspirar-me. Neste ponto, imagino que o leitor 40+ esteja pensando no cheirinho de café passado no coador de pano; na broa de milho saindo do forno; no feijão preto sendo refogado. E não tiro sua razão. São os cheiros da infância que dão aquele quentinho no coração. Férias na casa da avó. Um bom tema!
No entanto, outro odor martela minha cabeça. Trago a vossas senhorias um cheiro de outro naipe. Incômodo. Esse não embalou doces sonhos, mas aterrorizou muitas donas de casa por décadas, quiçá por séculos. Como não se briga com uma ideia fixada a marteladas no cérebro... está escolhida a temática da festa: cheiro de ovo. Não do ovo podre, que nos faz ter a consciência da impiedosa finitude, mas o simples cheiro do ovo, nu e cru, clara e gema. Impregnando o ambiente. Durante minha infância e adolescência, o ovo foi o vilão da cozinha. Claras e gemas batidas separadamente e à exaustão, temendo transmitir o fedor do desditado à comida ou ao copo. Ah! Os infames copos com cheiro de ovo! Motivo de grandes alvoroços familiares, do tipo que não valia a imortalidade do momento nem o flash da tia
Vera.
Aproximo-me dos cinquenta e constato, admirada, que já não suamos frio ao assistir, impotentes, a um ovo em sua frágil casca, rolando pela mesa rumo ao chão. Já não batemos a clara em neve; não separamos as louças sujas de ovo; não temos um siricutico quando alguém lava o prato da omelete antes, e com a mesma esponja que lavará os copos. Começo a pensar nesse vilão secular com certa ternura, saudosa do amarelo-ovo, de sua presença persistente em bolos, pudins, quindins. Olho por cima do muro, não para ver a minha vida no monóculo, mas a vida tal qual ela foi se moldando na última metade do século para caber no ideal de felicidade dos novos tempos. Vejo-me inventariando sentidos, experiências e emoções extintas, num extenso catálogo de saudades. Sou incapaz de vislumbrar a cara da tal felicidade. Pressinto que ela não tem sabor, cheiro ou a textura de outrora. Pressentimentos, percepções. Pura abstração. Pura subjetividade. Sinto-me como a anciã que insiste em vagar por becos escuros carregando tábuas, tentando trazer à luz nomes esquecidos. Ao som das ondas no mar, brindo só, com Coca, gelo e limão. Reaprendo que não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos, tampouco uma retrospectiva sem se lambuzar com uma boa dose de saudosismo. E, nisso, até o cheiro de ovo ganha contornos de "perfeição”.
Tim-tim!
P.S.: Outro dia, a gente fala sobre chocolate, sossego e “um quilo do bom”!





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