3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Paulo Briguet (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”.
O TEXTO:
O irmão errado
Hoje é o nosso aniversário, Rafa. Desde pequeno, justo no dia, eu dava um jeito de ficar doente. Queria fugir do bolo e dos parabéns; odiava as fotos, os doces, os salgadinhos...
Odiava sobretudo os presentes, sempre duplicados, iguais, como se fôssemos siameses. Mas não éramos iguais, você era diferente. Você era o queridinho, o garoto de ouro, o amigo de todo mundo, que adorava as festas, e vinha até o quarto me chamar, vem brincar, Guel, vem ver o Forte Apache que a gente ganhou, tem a Sétima Cavalaria e a Tribo Sioux, quem você vai querer ser?, eu trouxe um pedaço de bolo, brigadeiro, língua de sogra, guaraná, não tá muito gelada, não vai fazer mal pra sua garganta, levanta dessa cama, Guel.
Depois cresci um pouco e mudei de estratégia: em vez de simular uma doença eu simplesmente desaparecia. Esse meu sumiço de aniversário virou tradição familiar. E assim comecei a fumar maconha, como uma fuga aos parabéns. No fundo, no fundo, eu me iludia que passando o aniversário longe passaríamos a ter idades diferentes e eu não mais estaria preso dentro deste saco amniótico invisível em que você eternamente sorri e eu eternamente fico emburrado. Como dois irmãos podem nascer, a um só tempo, tão iguais e tão diferentes?
Uma coisa que nunca te contei é que eu sonhava com as nossas festas e continuo sonhando até hoje, mesmo depois que vim parar neste país sombrio. Hoje mesmo sonhei que durante vários dias me preparava para a festa. Seria a melhor e mais feliz de todas as festas. Teria lugar numa fazenda paradisíaca, a sede da fazenda tinha vista para um vale azul e verde, onde serpenteava um rio prateado, e garçons vestidos de pinguins circulariam entre os convidados levando drinques exóticos e iguarias orientais, e dançarinas árabes e jazzistas americanos — um deles o próprio Dizzy Gillespie, eu seria capaz de jurar — passeariam exibindo seus dons artísticos entre os amplos salões iluminados com tochas, e no último salão você estaria me esperando com um pedaço de bolo e um copo de guaraná na mão, que bom que você veio, Guel, estávamos sentindo a sua falta.
Mas eu fodi tudo, como sempre. Fumei um caminhão de maconha e enchi a cara de tequila. Quando acordei (dentro do sonho, dentro do sonho), já eram duas da madrugada e o celular estava sem bateria. Saí à rua, atrás de um táxi, mas encontrei todos os pontos vazios e assim perdi a melhor festa de todos os tempos.
Então eu acordei, Rafa, chorando por causa da festa perdida, e lembrei que estou longe de casa, aqui neste país horrível, neste lugar amaldiçoado e esquecido por Deus, onde os homens explodem os homens. Acordei no bunker, neste caixão de concreto em que me enfio todas as noites para escapar do frio e das bombas. Acendi um cigarro e fiquei olhando a ponta incandescente, estrela vermelha na treva, enquanto pensava na noite da sua formatura, aquela noite em que eu apareci bêbado e caguei com tudo, a mãe chorando, o pai no pronto-socorro com um princípio de infarto, e mesmo assim você me perdoou no dia seguinte, meu irmão, o que não me impediu de minutos depois ir até a boca e cheirar tanto pó que a própria Dona Marlene, a mulher da boca, teve que implorar que eu parasse ou ia morrer ali mesmo, no tapete encardido da sala. Naquela noite eu fiquei devendo na boca e fugi da cidade.
Está fazendo muito frio aqui, Rafa. Mesmo que tenha estudado isso na faculdade, você nem imagina quanto frio um homem pode suportar. O pior não é o frio em si, mas o que as pessoas fazem no frio. Ontem, no final da tarde, cruzei com uma garota na rua e ela fez um gesto de quem queria conversar. Segui-a até um prédio em ruínas; entramos onde um dia deve ter sido o apartamento de alguma família. Ela me disse em um inglês todo estropiado:
— Se eu te pagar você me mata?
Fiz cara de quem não entendeu, mas havia entendido perfeitamente. Ela repetiu quase gritando:
— Se eu te pagar você me mata?
— Por que você mesma não faz o serviço?
— Não tenho coragem.
Ela precisava que fosse alguma coisa com data e hora marcada, uma simulação de assalto, um tiro na têmpora ou na nuca, e acabou. Pagaria bem. Já escolhera inclusive um esconderijo perfeito para ocultar o cadáver. A cova já estava cavada no meio de um bosque.
— Você não vai ter problemas. Na guerra ninguém vai ligar pra mim.
Disse não estar interessado. Fui saindo, mas antes me voltei para ela e tive o ímpeto de perguntar:
— Qual é o seu nome?
— Natália Rostov.
Acho que esse não era o nome verdadeiro. Quando saí do prédio e deixei NatáliaRostov para sempre, olhei para o céu e vi uma pequena estrela no meio da noite quesubitamente baixara sobre este país desgraçado. De repente, senti uma vontade muito grande de ficar bêbado e perder a consciência.
Foi então que aconteceu, Rafa. Ao abrir a porta do que eu imaginava ser um bar secreto — foi o endereço que os camaradas da minha unidade haviam indicado — percebi que estava sozinho. Acendi minha lanterna e vi uma pequena multidão de manequins de carne — homens, mulheres, velhos, crianças — deitados uns sobre os outros, como se sonhassem o sonho de suas festas individuais. Cada um deles tinha um pequeno buraco vermelho na nuca, mas de resto pareciam apenas um grupo de pessoas que tivessem acabado de engolir uma cápsula de cianureto.
Não sei se você sabe, meu irmão, mas a guerra se parece com um grande adiamento. A maior parte do tempo a gente passa esperando alguma coisa acontecer, e não acontece nada. Quase sempre é esse silêncio, essa neve, essa procrastinação. O mesmo silêncio que eu sentia na noite em que fugi da cidade. Dirigi mais de 500 quilômetros, cheirando e fumando a madrugada inteira. Parei diante de um vale verde e azul, onde serpenteava um rio prateado. Uma última estrela cintilava no horizonte, enquanto o dia vagarosamente ia nascendo. Naquele exato momento, senti uma pontada no coração. Era você, o irmão errado, que morria em meu lugar.





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