3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Renata Barbosa Fontes (Categoria Crônica)

SOBRE A AUTORA:
Sou Renata Barbosa Fontes, nascida no Rio de Janeiro e adotada por Brasília para onde mudei ainda criança.
Mulher 60+, profissional, mãe e avó realizada, cheia de amor e encanto pela vida, a vida real onde os inevitáveis acontecimentos nos moldam em aço e rendas.
A leitura, a meditação e a fé são para mim alicerces na minha busca pessoal. Escrever meu primeiro livro de crônicas, depois de anos me dedicando aos pareceres e petições jurídicas, me fez encontrar na escrita o refúgio para transformar memórias em narrativas e reflexões.
Meu primeiro livro, Ateliê, mulheres de aço e rendas, conta dez crônicas sobre histórias reais e a ideia de escrevê-lo nasceu no ateliê de uma grande amiga que recebe diariamente mulheres que, além de encomendas, confidenciam suas vivências no complexo e maravilhoso mundo feminino.
Escrever se tornou meu lugar onde busco compreender o tempo, as pessoas e, principalmente, o feminino, esse território de força, beleza e contradição que nos habita e edifica.
Estar entre as semifinalistas do concurso Prata da Casa da Casa Brasileira de Letras significa muito para mim. Como escritora iniciante, ver meu trabalho premiado funciona como uma autorização afetiva para seguir em frente nesta nova jornada literária.
O TEXTO:
Amor e ódio
Antônia chegou ao ateliê aos prantos, derrotada por mais uma agressão do marido Arturo.
— Aquele louco me empurrou, disse que ia embora de casa porque eu estava me dedicando demais ao trabalho, que eu era fútil, idiota, vaca…
Eu a acalmei como sempre fazia. Dei a ela um copo de água gelada seguido de um abraço acolhedor e quente. Eu estava numa ótima vibe naquele dia e, de certo modo, já acostumada aos arroubos de dor de Antônia. Era muito raro o dia em que ela não chegava ao ateliê carregada de ressentimento pelo marido.
Antônia amava sua profissão de arquiteta sensorial, em que cria espaços para despertar emoções por meio das cores, texturas, luzes etc. E tinha especial carinho pelos projetos que executava para pessoas do espectro autista e em hospitais infantis. Como sua expertise é grande na área, ela se tornou uma verdadeira referência nacional, era sempre convidada para realizar projetos não só em sua cidade como em todo o Brasil.
Sempre a admirei e me divertia com ela, mas sua maior e inaceitável marca eram os eternos relatos de brigas horrendas com o marido.
Segundo Antônia, ele costumava beber e a humilhava na frente de quem fosse, mesmo em restaurantes e lugares públicos. De porre, dizia que ia “procurar mulher de verdade na rua para foder” porque não aguentava mais “essa mulher gorda e velha”.
Um dia, Antônia acordou de madrugada para ir ao banheiro e ouviu barulhos na cozinha. Lá estava ele importunando uma cozinheira da casa que dormia no trabalho. Antônia o escutou dizendo para a moça que se ela não cedesse, perderia o emprego. A mulher só chorava.
Perguntei a Antônia qual fora sua reação diante da cena, e ela respondeu, sem jeito, que voltou para a cama e que, no dia seguinte, despediu a funcionária. Disse que se sentia muito mal, admitiu que devia ter se separado naquele dia, mas que preferiu permanecer com ele.
Certa vez, chegou mancando ao ateliê. A nova história era sobre um chute que levara do marido porque ele estava descontente com a comida. Desfiou mais uma vez o rosário de razões pelas quais não poderia largar o monstro naquela ocasião.
Pra completar, sem querer, testemunhei uma cena dentro do estacionamento do shopping. Eu estava indo pegar o meu carro e os vi perto da entrada. Quando estava indo cumprimentá-los sem ser vista, flagrei Arturo arrastando Antônia pelos cabelos. Ela berrava e esperneava. Fugi desconsertada, mas tomei uma decisão. Diante da minha inércia e da minha culpa por não ter ido até o carro e não ter interrompido a violência, prometi para mim mesma que, quando a encontrasse, a convenceria a ir até a Delegacia da Mulher para denunciá-lo. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela voltaria ao ateliê novamente ferida por ele.
Tiro e queda. Ela chegou sem marcar, chorando. Contou que estava muito feliz ao retornar de uma viagem a São Paulo onde participara de uma conferência sobre arte e arquitetura sensorial, mas foi recebida em casa como uma vadia:
— Arturo exigiu cheirar minha calcinha para saber se eu não estava com outro. Recusei e ele puxou meus cabelos e me ameaçou com uma faca. Levantei e disse:
— Vamos agora à Delegacia da Mulher!
Para minha surpresa, ela enxugou as lágrimas e me acompanhou. Entramos no carro em silêncio e, no estacionamento da delegacia, ela disse:
— Não consigo, amiga, sinto muito. Simplesmente não consigo.
Tentei todos os argumentos, absolutamente todos. Nada a convenceu e voltamos para minha casa, mas ela nem entrou. Foi direto para o seu carro e partiu em silêncio.
Foram inúmeras as histórias de assédio envolvendo o marido, incluindo o de sobrinhas menores, os porres, o vício em pornografia e todo tipo de baixaria, a ponto de eu lhe pedir que me poupasse. Não queria mais ouvir. Não podia mais ouvir.
Junto aos relatos de Antônia sobre maus-tratos, ela dizia com ar de aliviada como seria feliz sem ele, o quanto era fraca por não conseguir se livrar daquele homem. E chegou a dizer que sua vida estaria resolvida se ele morresse, “não que desejasse a morte de ninguém”.
Não tive notícias de Antônia por muito tempo.
Até que encontrei Ana Lúcia, uma amiga em comum e, assim que perguntei por Antônia, ela me disse de pronto:
— Não soube? O marido dela morreu engasgado.
— Engasgado?! — exclamei.
Ana Lúcia prosseguiu:
— Eles viajaram para a praia, como sempre faziam, com os dois filhos. Arturo bebeu muito e comeu um peixe assado inteiro. À noite, reclamou de algo preso em sua garganta.
Antônia sugeriu que eles fossem ao hospital, pois poderia ser uma espinha. Ele estava bêbado e teimou com ela, dizendo que não ia “a porra de hospital nenhum”. Depois, deitou e dormiu.
Pela manhã, acordou sem conseguir respirar, eles correram para a emergência, mas já era tarde. A espinha do peixe inflamou a glote e ele se foi.
Fui para o ateliê e passei o dia pensando na providência divina. Imaginei o quanto Antônia estaria... aliviada. É claro que uma morte por acidente é sempre um fato triste, um rompimento brusco, ainda mais uma morte inesperada como aquela causada por uma espinha de peixe atravessada na garganta, mas me pareceu oportuna.
O tempo passou, um bom tempo, aliás. E eis que, em uma tarde, encontro Antônia no saguão do Memorial JK. Estava mais magra. Acompanhada de uma amiga italiana, foi efusiva e me pareceu feliz com o reencontro. Prestei minhas condolências, mas confesso que tive vontade de dizer algo do tipo: “Você está ótima, agora que se livrou do traste do seu marido!”.
No entanto, me limitei a elogiá-la, dizendo que estava mais magra, mais bonita, ao que ela respondeu abruptamente:
— Pois é, mais magra eu estou, mas mais bonita acho pouco provável. Não consigo superar a dor pela morte de Arturo, mesmo cinco anos depois. Nem tive mais vontade de ir
até o seu ateliê fazer roupas. Minha vida acabou.
Eu simplesmente não soube o que dizer. Fiquei perplexa, atônita.
Ela, como fazia habitualmente, começou a falar sem pausa nem respiração. Contou o quanto ele era maravilhoso, que passeava com o cachorrinho do casal, que a levava aos lugares quando ela precisava, até mesmo na consulta médica, exclamou com emoção nos olhos. Por fim, mencionou as qualidades sexuais do marido, “um garanhão”, disse com um sorrisinho malicioso que me deu ânsia de vômito.
Quando minhas pernas começavam a doer e minha cabeça parecia que ia estourar, avisei que iria ao café. Então, ela concluiu, apontando a amiga que estava com ela:
— Hoje, depois de cinco anos, saí de casa porque Francesca me obrigou. Tenho uma depressão severa e sei que não terei cura, só a morte me aliviará, quando estarei ao lado do meu amor.
Não entendi nada. Aliás, aqui narrando e voltando àquele dia no museu, me sinto ainda mais confusa. Chego a pensar que o casal que vi no shopping não eram eles e que Antônia inventou tudo que me contou. Desconfio que ela tenha alguma doença psíquica que a faz distorcer totalmente a realidade.
Sei lá. Cansei de Antônia, de suas histórias e de sua relação post-mortem maluca com aquele infeliz. Retomo meu livro e me comprometo a não pensar mais nessa loucura, uma vez que não disponho de ferramentas psíquicas ou interesse em desvendar tamanha contradição existencial.





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