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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Renato Moura (Categoria Conto e Categoria Crônica)

há 3 dias
14 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Nasceu em novembro de 1958, é natural de Niterói (RJ), Doutor em Educação pela PUC-RJ e Professor Titular aposentado da UFRJ. Iniciou sua produção literária aos quinze anos. Seu primeiro livro, “Luzes da Esquina” (1999), reuniu vários poemas deste período. Desde então, além de poemas têm publicado contos, crônicas e romances. Obteve o segundo lugar na 21ª. Edição da Feira do Livro de Ribeirão Preto com a crônica “É Coisa de Novinha, Sim” (2022), Menção Honrosa no Concurso Primavera Eterna (Editora Typus – 2025) com o conto “Tatuagens” e o primeiro lugar no concurso de contos Celebração (Editora Ventura - 2026) com o texto "Muito Mais Cor". Seu romance 'Três Marias" (2025) foi contemplado com Menção Especial da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). 



OS TEXTOS: Conto


Duas mães


Vinda da Patagônia, a frente fria gela Buenos Aires. Numa mesa discreta, quase no fundo do salão principal da animada cafeteria, María de las Mercedes pouco se importa com a algazarra dos que comemoram a vitória da seleção argentina. Não tem ideia de quem foi derrotado. Seu marido Raúl, amante do futebol, certamente sabe. Mas ele está em casa, bem aquecido. Alheia aos festejos, bebe por beber o último gole do seu café com creme e acena em seguida para o garçom. O que mais quer é pagar a conta, sair logo dali, já sente fastio dos risos, dos brindes, das conversas picadas que não consegue deixar de ouvir.

O garçom demora um pouco a atendê-la. Quando se aproxima, olha para sua blusa de seda branca e pergunta se pode lhe trazer um guardanapo, água quente e um pouco de bicarbonato para limpar os respingos de café. María agradece, mas dispensa a gentileza. Sorri sem jeito porque não tinha visto as pequeninas manchas escuras, tão reais quanto as duas primeiras horas de sexta-feira que seu relógio de ouro rosa teima em acusar. Já é tarde e Raúl deve estar morto de preocupação. Ela mantém sempre o celular desligado quando sai, há duas décadas tem a imperiosa necessidade de se esquecer do mundo. E, a exemplo dos anteriores, o ano corrente não corre, se arrasta.

Cortantes como lâminas afiadas, as rajadas do vento do final de agosto deixam as ruas desertas. Mal sai da cafeteria, María calça as luvas e trança o cachecol em volta do pescoço. Enquanto espera pelo táxi, presta atenção a dois rapazes. Um deles, magro e alto, tem olhos claros. O outro, mais baixo, o ajuda a colar cartazes nos postes. As palavras de ordem em letras vermelhas, velhas conhecidas, logo mexem com ela, mas o jovem de olhos claros a inquieta bem mais, é muito parecido com Arturo. Não fosse a insistência do calendário em lhe dizer que já se passaram vinte anos, poderia ser ele em carne e osso. Perturbada, atrapalha-se ao tirar a carteira da bolsa. Quando o rapaz, um pouco hesitante, pega o dinheiro que jamais imaginaria ganhar de alguém naquela noite, ela lhe diz para comprar uma jaqueta nova. Em seguida, enfia-se no táxi recém-chegado.


...


Mercedes Maria despeja lentamente o resto do café frio numa caneca de plástico. Por que apressaria o movimento? Para apressar o fim da angústia? Não conseguiria. Com a caneca suspensa no ar, prega os olhos no fogão, tão carente de limpeza quanto a geladeira sobre a qual descansa uma cesta de vime vazia. Por vários dias, pedaços de pão ficaram ali, endureceram e alimentaram as formigas até irem para o lixo. Quando os jogou fora? Já não se lembra, tampouco faz questão de se lembrar. Mais cedo, apesar do blecaute que lançou boa parte da avenida da praia no mais profundo dos breus, deixou a janta da patroa pronta e a cozinha dela impecável. Pecou, porém, não faz um minuto, quando engasgou e cuspiu o café, que imediatamente tingiu sua blusa de malha branca com nódoas enormes. Deu de ombros. Era um demônio insignificante frente ao outro que às duas da manhã não lhe dá sossego.

A madrugada fria de agosto desaba em silêncio sobre o morro. Quase sem vontade, Mercedes pega o jornal que trouxe da casa da patroa e pôs com displicência em cima da pequena mesa da cozinha. Sua intenção era lê-lo no ônibus, durante o trajeto de volta. Não o fez, a conversa entre duas mães que falavam animadamente dos projetos dos filhos lhe roubou toda a atenção.

Como destaque de primeira página, o jornal traz uma matéria sobre a escola cujo samba enredo do próximo carnaval faz menção ao morro onde Mercedes mora. Isso, porém, não desperta o interesse dela, que prefere ler outra notícia. Não sabe onde fica a Bósnia nem por que houve massacres por lá, mas uma palavra estranha ao seu dia a dia a deixa curiosa. Quando Artur voltar, perguntará a ele o que étnico quer dizer. Massacre, pensa, houve também no seu morro justamente no dia em que Artur desapareceu. Logo no começo da manhã sairá de casa para fazer mais um penoso reconhecimento de corpos. Por certo e por Deus, não reconhecerá o do filho. Cheio de vida como é, Artur há de aparecer, Deus Grande vai trazê-lo de volta. Mas quando? Quando? Quando? — pergunta-se aflita. Livra-se do jornal e fica de pé, as pernas trêmulas. Ao ensaiar alguns passos, pisa em falso e cai. Ergue-se, nada lhe aconteceu, os efeitos do tombo não são nada comparados à dor que o desaparecimento de Artur lhe causa.


...


O segundo domingo de agosto amanhece absurdamente cinzento. Isso foi previsto, o Serviço de Meteorologia informou que a frente fria seria uma das piores dos últimos anos. Que seja, María pouco se importa com os rigores do clima. Mas como se importa com gente inoportuna, desligou os telefones. Alguém poderia chamá-la para almoçar fora, o que não passa pela sua cabeça fazer. Bons vinhos, carnes nobres, sobremesas faustosas há muito não

lhe enchem os olhos. Há muito não tem apetite, as duas maçãs que come diariamente bastam para que se mantenha de pé. Os domingos cinzentos de agosto a angustiam. Num deles, ainda fresco em sua memória, Arturo desapareceu. Em rede nacional de Rádio e TV, três homens fardados juraram que os desaparecidos não tinham sido mortos nem presos pelas forças de segurança. Por certo, haviam fugido do país com dinheiro roubado dos bancos. Falaram a verdade? Ela não podia saber, mas rogou muito a Deus para que o filho reaparecesse, não suportava mais o flagelo da espera.

Às duas da tarde começa a chover. Chuva fina, não vai prejudicar a manifestação na Plaza de Mayo, pensa María. Estática sob o caramanchão do jardim, precisa se apressar se quiser rever o rapaz de olhos claros. Como ele teria gasto o dinheiro ganho de surpresa? Arturo não o gastaria com qualquer besteira, só que o rapaz não é Arturo, é um estranho, um impostor, um sósia, um clone. Mesmo assim, precisa revê-lo. Não acha razão que explique, mas a premência incontrolável de falar outra vez com ele domina seus pensamentos.

Deixa o jardim e atravessa o amplo salão da casa. Os cristais, as pratarias, as esculturas de mármore, o piano de cauda, os móveis e os quadros novamente lhe pedem para não dar atenção a Raúl, que mais cedo voltou a dizer o quanto seria bom mudar a decoração da casa. Vai atendê-los, não quer mudar absolutamente nada, do maior ao menor objeto tudo ali guarda a essência de Arturo. Se Raúl não tem essa percepção, problema dele, ela não pode apagar o inapagável. Pega então a bolsa, avisa ao marido que vai à Plaza de Mayo e sai de casa.

Ao chegar ao destino, depara-se com o palanque abarrotado de microfones e de caixas de som. Isolada por barreiras, a Casa Rosada parece alheia ao que acontece. Pode se dar a esse luxo, tem uma história que vem de longe, da época em que no seu lugar havia uma fortaleza espanhola, demolida tempos depois para dar lugar à construção que abrigaria a Alfândega. A mando de um presidente, esta foi pintada com cor semelhante ao rosa em fins do século XIX. Após passar por várias reformas, hoje se acha um pouco maltratada, mas não

deixou de ser uma testemunha silenciosa das vidas daqueles que a ocuparam. María se lembra então de Evita Perón. Imagina-a correndo por trigais e pastos imensos, pés descalços, vestidinho surrado, olhos sequiosos por aventuras e descobertas. Evita... Sonhou ser uma mulher de prestígio, e foi. Carismática, deslumbrava o povo com feitiços de fada e encantos de bruxa. Evita... Tantas vezes discursou para essa mesma praça apinhada de gente. Eterna lenda, eterna fonte de lágrimas que nenhum lenço é capaz de secar. María fecha os olhos por um instante. Não se inclui entre os órfãos de Evita, mas como eles tem lágrimas insecáveis, lágrimas de mãe que jamais deixará de chorar a perda do único filho. Sempre diz isso a Raúl, que sempre lhe responde com um ruidoso silêncio.

Súbito, algo lhe toca o rosto. Ao lado, um rapaz nada parecido com o sósia de Arturo agita freneticamente a bandeira de uma central sindical. María começa então a esquadrinhar a praça com olhos de detetive. Se localizar quem deseja, o que fará desta vez? Dará mais dinheiro a ele? Para comprar o quê? Botas novas seriam muito úteis aos seus intermináveis périplos de militância. Talvez lhe diga isso ou outra coisa qualquer, tanto faz, mas admite que as chances de o ver são irrisórias. Mesmo assim, só sairá dali quando já não puder diferenciar face alguma na multidão que soca o ar com punhos aguerridos.


...


O Morro em que Mercedes mora parece um labirinto a céu aberto, tanto que até alguns dos seus moradores passam apuros para encontrar certos lugares. Ela, porém, conhece todos os caminhos e nenhum a assusta. Toma o mais curto, também o mais perigoso, e com passos céleres vai em direção à Praça de Maio, não suporta mais o vazio com que a tarde chuvosa de domingo lhe enche o peito. Faz isso porque Artur se escondeu por lá quando era criança, depois de levar uma surra de Serapião, seu padrasto na época. Homem de pouquíssimos afetos, Serapião fazia trabalhos de pedreiro quando lhe davam serviço, o que era raro. Bebia muito, e o pouco que ganhava gastava com a bebida. Mercedes o conheceu num baile da comunidade. Ao se dar conta, já o tinha como marido. Certa manhã, olhos açodados por uma vermelhidão intensa, Serapião deu falta das moedas que deixara ao pé da imagem de São Jorge. Culpou, então, o enteado pelo sumiço delas e o surrou com um cinto de couro. Artur fugiu de casa, e Mercedes teve dias horríveis. Quando encontrar o filho lhe parecia impossível, achou-o, sujo e morto de fome, no coreto da Praça de Maio. O encontro feliz foi há dez anos, mas ela acredita que poderia se repetir neste domingo se fosse da vontade de Deus Grande.

Lixo demais no chão, limpeza de menos nos bueiros, a Praça de Maio é refém do próprio fedor. Balanços comidos pela ferrugem, vaivéns quebrados, gangorras emperradas revelam também o quanto tudo ali se acha em estado de completo abandono. Com o nariz tapado, Mercedes circula pelo velho coreto. Apesar de boa parte da estrutura ter se deteriorado, ainda serve de palco para políticos ou para pregadores de alguma fé. Não, Deus Grande não quis que Artur voltasse a se esconder ali, admite ela com profunda tristeza. Sujo

e morto de fome, apenas um cachorro manco a observa. Então, alma tomada pela aridez dos

desertos, retoma lentamente o caminho de casa.


...


Ao deixar a Plaza de Mayo, María é só desalento. Não ter reencontrado o rapaz de olhos claros foi como bater com a cabeça na quina de um móvel pesado. Sente, por assim dizer, a dor maiúscula que Arturo sentiu quando enfiou a testa num dos pés do piano de cauda.

Chega a casa com a cara mais fechada do que quando saiu. Sem tirar os olhos da TV, Raúl lhe pergunta sobre a manifestação. Por vezes, a tranquilidade dele a irrita. Finge que não o escuta, nada tem para lhe responder, nada viu senão espectros difusos, nada ouviu senão o que já esperava ouvir. O verdadeiro motivo de ter ido à Plaza de Mayo não quer revelar, é coisa muito sua, Raúl não iria entender. Vai então até o antigo quarto de Arturo, intocado desde o desaparecimento dele. Antes de abrir a porta, detém-se diante da foto esmaecida de Perón e Isabelita. Olhar altivo, cortante como os ventos do sul da Patagônia, Perón sempre teve o apoio de Raúl; o seu, raramente, pouca importância dava ao que o presidente fazia ou deixava de fazer. Foi uma figura marcante, admite, mas, tal como a morte de Evita, a dele não lhe causou qualquer comoção. Tampouco a queda de Isabelita.

Já no quarto, pega um dos livros da escrivaninha cheia de papéis amarelados. É um atlas de anatomia, que abre ao acaso. Em cores ainda não devoradas pelo tempo, um retrato

de Vesalius a deixa com as mãos trêmulas. Não pela fisionomia austera, mas pela nota que o

acompanha: “maior anatomista da Renascença, tornou-se célebre porque fez...”.

María põe o atlas no mesmo lugar e começa a folhear um volumoso compêndio de bioquímica. Anotações a lápis no capítulo sobre a origem da vida chamam sua atenção. Pouco as entende, mas pergunta-se por que a ciência se preocupa tanto em desvendar mistérios que somente a Deus cabe conhecer. Para se assemelhar a Ele, responde sem mover os lábios. Tem certeza de que Arturo seria um médico como poucos. Seria, mas lhe tiraram a vida antes que terminasse o curso. O ar lhe falta. Tenta respirar melhor, não consegue, atristeza a comprime e a faz soltar pesadamente o livro sobre a escrivaninha. A cabeça ainda lhe dói. Aperta-a entre as mãos, quer esmagar a dor antes que a dor a esmague. Inútil, a dor se espalha por todo o crânio, que lateja demais. Ao mirar as fotos das paredes, tem a impressão de que Marx sabia o que é sentir uma dor infinita.

Entregue ao que não pode e nem quer esquecer, segura com força o crucifixo de ouro branco que não lhe sai do pescoço, a cabeça latejando, latejando, latejando... Sente imensa vontade de gritar o nome do filho, mas algo prende seu grito no fundo da garganta.


...


No quarto de Artur mal cabem a cama, o armário de duas portas e a mesa de estudos. Antes de entrar, Mercedes pousa os olhos na imagem de Cristo, pendurada ao lado da porta.

Pele clara, olhos de profundo azul, Jesus tem um ar tranquilo e amigo. Artur disse que essa imagem é a representação europeia de um homem cuja aparência era seguramente outra. Tenha razão ou não, para ela isso não faz a menor diferença. Entra. Sentindo as mãos e os pés formigarem, nota que o acordeão de oito baixos está coberto por teias de aranha. Tocava-o na meninice e o deu a Artur com a esperança de que ele se interessasse pela música. Não se interessou. E ela? Voltará a tocá-lo algum dia? Prometeu fazer isso se o filho reaparecer. Todos os domingos de outubro subirá os incontáveis degraus do Santuário da Penha e tocará na porta da igreja, da primeira à última missa. Os trocados que receber dará a quem a olhar com olhos de fome.

De frente para o armário, com o braço erguido Mandela parece lhe dizer que a luta do povo preto é mais importante do que a caridade. Teria razão? Ela é preta, é pobre, vive à mercê dos mandos e desmandos da patroa, mas se tudo isso é da vontade de Deus Grande, como se rebelar? Como? — pergunta-se angustiada.

Junto à cama, a preguiça de um velho relógio tortura sua paciência. Artur vai mesmo voltar? Daria a vida para que voltasse. O formigamento nas mãos e nos pés se espalha e já

lhe toma quase o corpo inteiro. Maldiz o relógio, remexe a mesa de estudos, abre ao acaso o atlas de geografia. Seria mais fácil achar a Bósnia ou ter o filho de volta? Critica-se: que pergunta estúpida, estúpida como os policiais que subiram o morro há dez dias, estúpida como a espera que não tem fim. Deixa de lado o atlas e folheia o livro de química. Por que Artur pôs pontos de interrogação em tantas páginas? Não estaria prestando a devida atenção às aulas? Ou o assunto é mesmo difícil? Se Artur voltasse para lhe responder...

A noite caindo, aperta com força o crucifixo de latão que nunca tira do pescoço, fecha os olhos e grita o nome do filho. Um som animalesco lhe sai da garganta para que o mundo inteiro conheça a imensidão da sua dor.

...


Sem sair de onde está, María de las Mercedes não sente mais a cabeça latejar. Também não sente seu corpo. Sente-se leve, totalmente leve, agradavelmente leve, flutuando entre as paredes. Arturo... Irá finalmente reencontrá-lo? Onde? Ouve então um grito longo, potente, desesperado. Através do janelão cujas cortinas abriu momentos antes, vê que sob a chuva fina uma mulher preta, de olhos miúdos, lhe pede um abraço.

Depois de gritar, Mercedes Maria ouve, como já ouviu tantas vezes, o silêncio da sua interminável solidão. Não sente mais nenhum formigamento, aliás não sente mais o próprio corpo. Começa então a levitar entre o assoalho e o teto do quarto completamente escuro. Artur... Irá finalmente reencontrá-lo? Onde? Através da janelinha cuja persiana suspendeu há pouco, vê que sob a chuva intensa uma mulher branca, de olhos claros e grandes, está de braços abertos para acolhê-la.





Crônica


Modesto saber


Eram tempos de pandemia e, naquela manhã abafada de abril, eu voltava das compras sem nenhuma pressa. Um vento quente soprava nas ruas de Copacabana, levantando poeira e folhas amareladas, cheias de carunchos. Encostado à grade da grande loja de lingerie que tenho por vizinha, junto a um cachorro tão esquálido que se viam os ossos, um pedinte estendeu-me a mão, mas eu não tinha nenhuma moeda para lhe dar. A última, dera-lhe antes de ir ao mercado. Ou não? Já não conseguia me lembrar.

Quando entrei no meu prédio e fiquei à espera do elevador, vi um homem, aparentemente sessentão como eu, em frente ao painel luminoso azinhavrado e já quase submerso num mar de ladrilhos verdes. Tinha nas mãos um jornal cuja manchete destacava o aumento vertiginoso do número de casos da Covid-19 no país. Vez por outra, olhava diretamente para o painel, constatando o mesmo que eu: o único elevador em funcionamento teimava em permanecer parado no décimo andar. Eu o conhecia? E ele? Já tinha me visto antes? Enquanto me perguntava isso, falou comigo:

— Não moro aqui, mas conheço o senhor de algum lugar, não conheço?

— Pode ser. Na verdade, só sei que nada sei.

Ele ficou em silêncio, observando-me. Uma curiosidade infantil transbordava dos seus olhos. No hall social do edifício, além de nós dois, só estava o porteiro, um homem gordo, de mais ou menos cinquenta anos, devidamente uniformizado, que não desgrudava os olhos do celular. Plasmado em sua cadeira, suava muito. Sobre a mesa escura, na qual apoiava os cotovelos, um pequeno, velho e barulhento ventilador parecia não dar conta do enorme calor que fazia. Talvez tenha se passado mais um minuto sem que o elevador, esquecido de mim e do homem que me dirigiu a palavra, desse qualquer sinal perceptível de que se moveria.

— Engraçado — disse o homem, quebrando finalmente a quietude alucinante em que estávamos mergulhados — também tive essa mesma impressão quando acordei hoje.

— Só hoje? — perguntei — Estou tendo essa impressão todos os dias.

— Sério?

— Claro! Nessa pandemia, os dias são todos iguais, não são?

— Acho que são...

De novo, o silêncio se estabeleceu entre nós. O homem, então, voltou o olhar para o porteiro, que estava mais suado, mais entretido com o celular e quase não se mexia. Aliás, seu corpo largo quase não cabia na cadeira munida de rodízios brancos que se movia bem pouco sobre o piso há muito carente de uma boa limpeza. Ao menos, ela minimamente se movia, pensei, mas o elevador... O porteiro saberia dizer por que não descia?

Talvez o porteiro esperasse que eu ou o homem lhe fizéssemos tal pergunta. Até cogitei fazê-la, mas hesitei. Naqueles dias, eu era uma espécie de refém das mais diferentes hesitações, era alguém cheio de conjecturas. Aí, passou-me pela cabeça que mesmo que o porteiro soubesse o motivo, sua resposta não poria fim ao meu não-saber sobre o resto. E eu também não sabia se poria fim ao não-saber do homem, tampouco se, para este, o não saber era assim tão inquietante. Diante disso, valeria a pena perguntar pela demora do elevador? Sinceramente, eu não conseguia decidir se era melhor perguntar ou continuar indefinidamente à espera de que algum deus ex machina fizesse o elevador se mover. Na verdade, tudo nas proximidades exibia ares de espera: o homem, o pedinte, o porteiro, o piso encardido... Talvez até o cachorro do pedinte esperasse por algum imprevisto e bem-vindo osso para o estômago. E quem havia contraído a Covid? Esperava por dias melhores? Ou, com a morte brandindo a foice, já tinha se cansado de esperar? Felizmente para mim, o vírus ainda não batera a minha porta. Mas que garantia eu tinha de que, mais cedo ou mais tarde, não iria bater? Eram tantas notícias cinzentas nos jornais... Quando chegariam as vacinas? Quando seus adversários deixariam de fazer pouco delas ou de inventar que continha algum tipo de chip para controlar as pessoas? Quando iria acabar todo aquele non sense? Quando? Como Sócrates, cada vez mais eu só sabia que nada sabia. Nisso, o homem tornou

a falar:

— O elevador não vem e o porteiro não se mexe — disse, um pouco irritado.

— Não se mexe porque sabe de tudo — observei com ar um pouco jocoso.

— Sabe? Ah, se eu também soubesse... Essa sensação de não-saber me angustia.

— A mim, também.

— Se ele sabe de tudo, será que sabe por que a gente não sabe nada?

Não lhe respondi, indo em direção às escadas de serviço. Não me seguiu, preferindo permanecer em frente ao elevador e pousar novamente os olhos no jornal. Por quanto tempo ainda ficaria ali? Eu não fazia a menor ideia, mas, em meio a tanto desconhecimento, pelo menos saboreei um modesto saber: aquele homem — que eu conhecia ou não, pouco importava — se sentia tão incomodado com o não-saber quanto eu.

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