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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Richard Roch (Categoria Conto)

há 3 dias
11 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Richard Roch é de Curitiba, nascido e criado no bairro Fazendinha. Autor dos livros Preto de alma preta (Medusa, contos) e Maratonistas do Quênia (Urutau, poesia), foi cronista do jornal curitibano Plural. Escreve à noite, e de dia é cozinheiro.



O TEXTO:


O peso da água



– deixa aconte-cer na-tu-ral-men-te... eu não quero ver vo-cê cho-rar... deixa que o a

– eu pego o cabo de vassoura?

– neu néno o nano ne nanouna?

– O QUÊ?

– desligando em 10... 9... 8... tá bom tá bom tá bom desligando agora. aguá fria não

Espelho do banheiro – Toda quinta-feira é isso: chego da escola, almoço correndo e banho. Qualquer dia ela vai ver. Vou levar um copo pro chuveiro, e quando ela for pro tanque, jogo água pela janelinha. Mas não tem pra onde correr... Chinelo molhado queima... Só se eu jogar depois que já tiver me vestido, porque aí eu corro e me tranco no quarto. É. É isso. Mas outro dia. Quinta não. Ó ela aí atrás.

– já tá pronto?

– falta prender o cabelo

– e quer que eu limpe sua bunda também?

– não

– então apura! que inferno! aqui nessa casa são quatro bocas pra comer e só duas mãos pra lavar

–

– e nem banho eu tomei ainda

– deixa que eu lavo, Mãe

– então tira a camiseta pra não sujar

– pronto

– assim não, peste! vai parecer que saiu da boca da vaca. põe os braços pra cima. pronto. tá passadinha

– mas a espuma do sabão não é verde

–

– se a camisa tivesse saído da boca da vaca, ela ia sair verde porque vaca fica mascando

grama e

– vai vai vai, apura. minha nossa senhora... e enxágua direito os pratos

Pia – Meu cabelo é da minha mãe. Eu até gosto mas ela não deixa eu cortar e aí eu não gosto. Prender pra quê? Sempre que eu prendo, ela diz que tá errado. Melhor cortar. Aí não iam mais me chamar de menina na escola. Se bem que as meninas da escola gostam dos meus cachinhos. Elas fazem trança... Se eu chego de trança em casa, tem interrogatório. Quem fez? Quem é essa? Ela senta no fundo ou na frente? Minha mãe penteia tão forte, que é como se quisesse ver as respostas dentro da minha cabeça. As respostas ficam na cabeça. No coração são as perguntas. Nas mãos o trabalho.

– desligou o gás?

– SIM SENHORA!

– pegou o dinheiro da passagem?

– PEGUEI SENHORA!

– então simbora que o Fazendinha já tá passando

– ENTÃO SIMBORA SENHOAI MINHA ORELHA MÃE!

– vai continuar dando uma de soldadinho? vai? não? que bom. agora sai e deixa eu fechar a porta

– espera!

– se a gente perder esse ônibus eu juro que

– pronto. meu livro

Livro – “Meia hora mais tarde, Damien Karras voltava apressado ao seu quarto, na Residência dos Jesuítas, com uma porção de livros e jornais das estantes da biblioteca de Georgetown. Deixou-lhes cair precipitadamente em cima da escrivaninha e depois procurou pelas gavetas um maço de cigarros. Encontrou um maço de Camel velho meio vazio. Acendeu um cigarro, inspirou profundamente e conservou a fumaça nos pulmões”.

– aiê! pra que me beliscar?

– tá... todo mun... no ôni... pra você

– pra mim o quê?

– olhando pra você aí, respirando estranho, olhando pro nada. deu ar, foi?

– tô lendo

– lê direitinho então

–

–

– Mãe

– quié

– você fumava?

– sim

– e como que era?

– era normal, ué

– mas normal como?

– normal, filho, normal. parei quando fiquei grávida do seu irmão. ui! ainda me volta o gosto daquela água. eca

– que água?

– da água que bebi pra parar

–

– cigarro é um vício, filho. é difícil parar. aí eu fiz uma simpatia e coloquei um maço de cigarro dentro dum copo de água. deixei na frente do rádio pra benzer no programa, e

depois coei e bebi

–

– vomitei as tripas, e toda vez que vinha vontade de fumar, lembrava do gosto da água e a vontade passava. eu via meu pai fumando. ele comia cigarro

– puro?

– claro que era puro! seu avô tinha lá seus defeitos mas não se metia com droga, nãnaninanão

–

–

– Mãe

– qui-É

– olha

–

– viu?

– tá. vem aqui no meu colo. ai, Pedro, ajeita essa bunda. cada osso pontudo. pronto. pega o livro e fica quietinho

– não quero mais ler

– e engolir os dentes?

Colo – Minha mãe não me deixa ir em pé surfando e nem sentado longe dela. Qual o problema de cair às vezes? A gente pega o Fazendinha porque o ponto de ônibus na frente do conjunto é o primeiro depois do terminal. A porta da frente não abre no terminal. Quando o motorista para, o ônibus tá socado de gente lá atrás mas na frente dá pra escolher. Tem um banco na frente do cobrador e dois atrás do motorista. A gente senta nesses. Aí fico vigiando quem sobe, e se entrar gente de cabelo branco, muleta ou criança de colo, eu vou pro colo da minha mãe. Se entrar gente com criança na barriga, não falo nada. Que nem quinta passada que subiu uma senhorinha. Quando minha mãe foi levantar, a senhora disse que não gostava de ir espremida. A gente chegou no CCA naquele dia e ela chorou a reunião toda. Já tá chegando. O Centro é diferente do Fazendinha.

– a gente pode comprar pipoca?

– depois

– mas depois pode ser de bacon?

– pode

– e depois a gente pode comer hambúrguer?

– ou hambúrguer, ou pipoca

– mas hambúrguer é muito mais que pipoca. já sei! eu troco o hambúrguer pela pipoca

MAIS...

–

– mais um jogo de playstation

– você deve tá achando que brota dinheiro na minha bolsinha

– bem que podia, aí a gente pagava as contas do pai e comprava um fliperama pra mim e

– bora, criatura! se você continuar matraqueando vou te deixar aqui. já imaginou se eu te deixo? ia fazer o quê?

– ligar pro pai do orelhão e dizer que tava na frente da lanchonete que a mãe compra

hambúrguer no Centro

– mas ele não sabe onde é

– mas aí eu vou na esquina e vejo a placa verde com o nome da rua

– mas você não tem dinheiro pra comprar cartão telefônico

– 9090

– se usasse a cabeça pra coisa que presta... vai ficar olhando? tá. não sai daí e não fala com ninguém. vou pegar um chiclete

Vitrine de revistas – Mariana Ximenes, Sandy, Yasmin, Daiane dos Santos: CAPRICHO mostra as garotas poderosas do país. GRÁTIS! Um adesivo fofo para você! Grátis... se tem que comprar a revista, não é grátis. JORNAL DOS Sports. Apenas 1,90. Preço no RJ, ES e MG. Demais estados: 2,90. Os times daqui nunca vão pra capa... AçãO GameS. Testamos o Xbox e ele surpreendeu. Se brotasse dinheiro na bolsinha da mãe... A vez das minivans: a Picasso vem aí como alternativa à Scénic e carros compactos mas espaçosos vão marcar esta década. Carro feio... Hhhhuuuummmm!!!! Tiazinha em Nova York (22 páginas e 2 pôsteres). não fica duro não fica duro não fica duro não fi

– vamo?

– sim sim vamo eu não tava vendo nada sim vamo

–

–

–

– Mãe

– quié

– qual o nome dessa igreja?

– Bom Jesus. você lembra o que aconteceu aqui há... nove anos?

– não

– como não?! tá igual seu pai?

– eu não tinha nascido. então não lembro. lembro o que você conta

– e o que que eu conto?

– que você e o pai casaram aqui

– isso mesmo. eu e seu pai casamos aqui...

–

–

– Mãe

– agora não. olhou bem pros dois lados? vem! corre corre corre. ai... ufa... ai meu joelho

– posso perguntar agora?

– não. segura a bolsa pra mim arrumar o cabelo. ai. segura pra mim. isso. pronto. vem

– e agora?

– agora o quê?

– é você que tá ficando esquecida

– por quê?

– porque acabou de esquecer que eu queria perguntar, e porque tem dia que a gente

vem pro Centro e você lembra que casou com o pai, mas tem dia que você não diz nada

– tem dia que não dá tempo, filho. apura. a gente tá atrasado, vai. vai correndo na frente e diz que já tô chegando. ssssssssss. esse joelho

Escadas em U do prédio anexo à igreja Bom Jesus – Um dois três quatro cinco seis sete degrauzinho degrauzinho degrauzinho, um dois três quatro cinco seis, sete, degrauzinho, degrauzinho, degrauzinho. Cheguei. Tô suando já. O cheiro daqui parece o do corredor do colégio quando vou no banheiro. Tudo muda quando tá vazio. O que que eu vou falar? Vou falar Oi, minha mãe mandou dizer que tá na escada já. As reuniões tinham que ser no térreo. Ou tinham que ter elevador. Ou minha mãe podia sentir menos dor. Não começou ainda.

– oi Nádia minha mãe mandou dizer que tá na escada já

– oi! você é o filho da Maria, né?

– sim

– e qual que é mesmo o nome do filho dela?

– ela tem dois: um é Pedro e outro é Paulo

– lembrei! Pedro

– ela também teve uma filha que não deu tempo de colocar nome porque não saiu da barriga

–

–

– oi gente! ai... desculpa o atraso... pronto. coloca a bolsa da mãe ali do lado, isso. fica quietinho agora. a oração? sim, vamos fazer a oração... em nome do pai, do filho, e do espírito

santo amém: concedei-me senhor, a serenidade necessária, para aceitar as coisas que não

posso modificar, coragem para aceitar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas

das outras, amém. a gente vai começar agora. fica quietinho

– quero ir no banheiro

– agora??

– tô apurado

– vem aqui. deixa eu falar um negócio no seu ouvido: você vai naquele banheiro e faça tudo!, tá me entendendo?, tudo que tiver que fazer porque se você levantar de novo no

meio da reunião, vai ver uma coisa quando chegar em casa

–

– vai

Mictório do banheiro do corredor que parece um corredor do colégio – Preparar... Apontar... Jato! Ahhhhhhhhhhh... Será que eu consigo fazer no de adulto? Segura... Consigo! Hehehee. Quem é a criança agora, Senhor Diretor? Eu faço xixi no mictório dos adultos e isso significa que você não precisa ligar pros meus pais por causa daquela advertência da professora de artes. Jatinho. Jatinho. Cabô. Sempre molha a cueca. Dá nada. Foi a professora que falou pra desenhar o que a gente quisesse. Eu queria desenhar nada. Quantas bolas de papel molhado eu consigo deixar no teto ao mesmo tempo?

– ... e aí eu como, sabe? esse aí que voltou do banheiro agora e que parece que tem bicho carpinteiro na bunda... esse figurinha vê, né filho? eu arrumo a casa, eu cuido das crianças, eu lavo a roupa, eu cozinho... eu não sou uma máquina... eu me sinto tão sozinha às vezes... meu marido chega do trabalho, toma banho, vai pro bar e eu fico ali... minha família não é de Curitiba… às vezes eu como pra não me sentir sozinha... às vezes eu como pra me sentir feli... feeliz... a Nádia me perguntou como tem sido esses três meses aqui no CCA, né? eu sou obesa desde a primeira gravidez. depois do Pedro, que é o caçula, eu tentei dieta, promessa, Xenical... como? um amigo do meu marido trazia do Paraguai. é proibido no Brasil, né? aí esse amigo dele trazia... depois fui pro Vigilantes do Peso mas não deu certo. eu não gostava de me pesar na frente das outras pessoas porque parecia competição, sabe? aí me falaram do Comedores Compulsivos Anônimos, que eu ia me sentir acolhida, e eu me sinto, Nádia. agradeço você por organizar o grupo, agradeço às outras companheiras que vêm toda quinta assim como eu e dizem Eu sou uma comedora compulsiva anônima, e acredito que vou passar pelos doze passos

– quem agradece sou eu, Maria. eu e todas as mulheres aqui. uma salva de palmas pra Maria. mais forte. é isso. quando vocês trazem esses depoimentos, essas histórias, a gente sente que não tá sozinha, né? sente que pode mudar. bom, eu vou pedir pra Cibelle, Cibelle, você pega um e passa, por favor? nesses folhetos que a Cibelle tá passando, têm os doze passos que a Maria comentou. levem pra casa. colem na geladeira, deixem na mesa da sala, o importante é vocês internalizarem cada um deles. e é isso. tô vendo umas carinhas pela primeira vez aqui hoje, daqui a pouco vou pedir pra vocês se apresentarem. sintam-se todas muito bem-vindas. espero que tenham se sentido acolhidas. todo mundo pegou? ótimo! nesse folheto, vocês podem ver quais são os doze passos que o CCA segue, né? independentemente da religião, do credo, mas acreditando que existe um ser maior

Folheto – 1. Admitimos que éramos impotentes perante a comida, que tínhamos perdido o domínio de nossas vidas. 2. Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade. 3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus... Vish. Vai até o doze ainda. Que bom que a reunião tá acabando. Hoje foi a primeira vez que a mãe falou. Ela fica ouvindo e concordando. Às vezes chora igual hoje, mas nunca tinha falado. Eu fico feliz quando como bolo de chocolate. Até fico feliz sozinho mas prefiro jogar de dois. Eu gosto de deitar no braço da mãe. O braço dela é molinho... Acabou.

– e agora?

– agora dá a mão pra gente atravessar de novo. aproveita que não tá vindo carro

– e agora?

– agora você vai levar a gente naquela padaria que eu gosto

– posso??

– pode, Pedro, pode

– UHUL! então dá a mão que a gente tem que descer até lá no fim e depois virar na ruazinha que você fecha meu olho

– que ruazinha?

– aquela que tem o cinema de pornô

– Pedro!!

– o quê??

– que história é essa de ci... cinema por... que história é essa??

– você não falou que lá passa filme de adulto e que por isso eu não posso entrar?

– sim!

– é isso que o pai fala quando não me deixa entrar na salinha da videolocadora, que lá é de filme de adulto, e quando a gente pega a bolsinha de fita tem os meus de comédia, os

de ação do Paulinho, os seus de suspense e os de pornô do pai

–

– entendeu?

– entendi muda de assunto

–

–

– Mãe

– fala

– o que é compulsivo?

– é quando você faz muito uma coisa e não consegue parar

– e você não consegue parar de comer?

– não

–

– eu tô tentando. já emagreci seis quilos. não dá pra ver muito mas eu vejo. eu vejo. mas vamo fazer de conta que a gente não pode virar aqui nessa rua que... como que era? que eu tapo seu olho?

– sim

– só que tem um detalhe: não pode virar aqui hoje. e agora? por aquela outra será?

Rua nova – Ponto de táxi, estacionamento, R$ 1,99, restaurante, janela quebrada, aluga, vendese, pixo, prédio, antena, uma mulher e um homem deitados no pape

– MENINO DO CÉU OLHA PRA FRENTE MINHA NOSSA SENHORA!

–

– deixa eu ver. tira... tira a mão

–

– pronto. não foi nada. tá doendo a testa?

– uhum

– vem. dá a mão. não foi nada. tem que olhar pra frente na rua. e se fosse um carro em vez duma placa? tem que tomar cuidado, Pedro

– desculpa

– não precisa pedir desculpa. você já aprendeu a lição. mas viu que legal? olha a padaria ali. aprendeu esse outro caminho?

– aprendi

– que bom. agora vem. hoje não tem fila. boa tarde. você vai querer o que, filho?

– bombadechocolatepreto bombadechocolatepreto

– então uma bomba de chocolate preto... duas! duas bombas de chocolate preto e uma esfirra de carne, por favor

– posso comer a minha agora?

– só no ônibus

– tá

– e é só uma porque a outra é do seu irmão e a esfirra é do seu pai

– e pra você?

– eu não quero nada, filho. oi? sim, só isso, obrigada você. vem pro caixa comigo agora. ai, Pedro! que que deu pra me apertar assim?

– eu vejo que você tá emagrecendo. ó!

– ó o quê?

– eu já consigo te abraçar inteira

Barriga – Não vou jogar água nela. Vou colocar um pedaço de bolo de chocolate no copo e deixar perto do rádio.


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