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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Roger Laureano (Categoria Crônica)

há 5 dias
5 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Doutor em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Roger Laureano trabalha como pesquisador sênior em uma empresa internacional, especializado na interação entre pessoas e máquinas. Escreve contos, crônicas e ensaios que exploram temas como a relação da humanidade com a tecnologia, filosofias existencialistas, memórias e questões sociopolíticas. 


O TEXTO:


O dia em que meu pai voltou

Quando meu pai morreu, eu fiz o que qualquer filho razoavelmente funcional faria: tentei não pensar muito no assunto. A vida continuou — expressão indecente, aliás. Como se a vida tivesse sido consultada e tivesse respondido: “Sim, tudo certo, prossigam”. O enterro aconteceu, houve abraços constrangidos, houve aquele café morno servido em copos descartáveis. O luto, que no começo tinha uma solenidade quase teatral, logo se converteu em silêncio. Um silêncio doméstico, desses que se sentam à mesa e comem junto com a gente. Era assim com minha mãe, com minha irmã, com os amigos, com os colegas. No início parecia provisório. Algo como: “Que tal não falar disso por enquanto, mãe?”. O “por enquanto” é uma das maiores mentiras da língua portuguesa. Ele se estende com facilidade: vira semana, mês, ano. Meu pai estava lá, enterrado, literal e simbolicamente. E ainda que seu corpo nunca mais fosse levantar e sair andando por aí, eu sabia que a memória que tenho dele — do rosto, do cheiro, da voz — ainda voltaria em algum momento. Mas, enquanto isso, silêncio.

E, para dizer a verdade, não foi tão difícil assim não pensar. Alguns dias depois do evento tudo parecia igual, apesar da subtração. Eu continuava indo à escola. Toda manhã descia um dos morros mais íngremes da cidade para sentar distraído numa sala de aula. No almoço era ainda pior, especialmente no verão, pois eu precisava subir o mesmo morro, agora, além de tudo, sob um sol que parecia pessoalmente ofendido comigo. Eu chegava em casa encharcado, publicamente cozido, urbanisticamente tostado. Como é que alguém vai refletir sobre perdas metafísicas se está ocupado tentando não desmaiar no asfalto? A juventude, nesse sentido, ajuda: ela acredita que sobreviver já é um projeto suficiente.

Mas a ausência tem efeitos práticos. Meu pai não era apenas meu pai, era a fonte de renda da casa. E, junto com ele, começou a desaparecer também a tranquilidade financeira, esse espírito invisível, percebido apenas quando vai embora. Havia uma ironia quase cruel nessa correspondência entre o mundo material e o psíquico: a dor não trazia apenas ausências, mas também novas perdas. Os quadros e porta-retratos ficaram. Objetos pequenos são fiéis. Mas outras coisas foram sendo vendidas ou sumindo discretamente, entre elas, o carro do meu pai: um Ford preto, bem escuro, com películas igualmente escuras e calotas prateadas. Um dia acordei e ele não estava mais lá. Não houve despedida formal. Só o espaço vazio, que é o modo mais honesto que as coisas sem alma têm de dizer adeus.

Quando somos pequenos, sabemos pouco sobre os pais, e eu fui me dando conta disso muito lentamente. Eu sabia o essencial: ele gostava de esportes, especialmente de futebol e automobilismo. Tinha inclinação pela tecnologia, sempre curioso por celulares e computadores, e adorava trazer algumas bugigangas novas para casa. Hoje percebo, no entanto, que a visão que tenho dele parece ser apenas uma sombra dos meus próprios interesses. Por todos esses anos, prestei atenção somente no que tínhamos em comum, subtraindo todos os apêndices e chatices, de modo que seus interesses pareciam exatamente os meus. A única exceção, até cômica, é que, durante muito tempo, achei que ele gostava de contabilidade porque era contador. Isso é o tipo de raciocínio que uma criança produz com absoluta confiança. Se alguém faz algo o dia inteiro, certamente ama aquilo. E tanto isso parecia verdade que, por um momento, eu também quis ser contador; ia poder passar oito horas por dia fazendo isso, igualzinho. Hoje sei, é claro, que o amor por planilhas é uma impossibilidade ontológica. Criança boba. Mas, apesar de todos esses poréns, de uma coisa tenho absoluta certeza: ele gostava de carros.

Trocava de carro com frequência, quase todo ano. Não eram carros extravagantes; eram carros novos, mais modernos, e ele fazia questão de me apresentar cada detalhe do último modelo. Uma vez até me deixou dirigir. Está bem, essa frase não descreve perfeitamente a situação: ele fez eu me sentar no colo dele, num bairro de ruas quase vazias, com as mãos no volante e disse algo como “agora você vai dirigir”. Eu acreditava que exatamente isso que eu estava fazendo, e isso é mais importante do que dirigir de fato. Tenho quase certeza de que ele sorria atrás de mim, divertido com a minha convicção, enquanto segurava o volante por baixo e corrigia discretamente o rumo. Descobri por acaso, numa curva, que era isso estava acontecendo. Puxei o volante cedo demais, cheio de confiança. O carro não obedeceu. Só alguns segundos depois, no tempo certo, a curva foi feita com elegância. E eu continuei fingindo que tinha sido eu, mas algo se instalou no fundo do meu inconsciente. “Talvez eu não esteja dirigindo de verdade”, pensei por alguns segundos. “Opa, espera, outra curva”, era o pensamento seguinte, deixando a ilusão viva. A infância é esse belo teatro em que a gente acredita ser motorista, quando na verdade está apoiada no colo dos pais. Aos poucos eu teria de aprender a fazer as curvas sozinho. Mas não naquela época.

Seria agora, então?

A rotina continuou, como eu ia dizendo. Descer morros, subir morros, entrar e sair de salas de aula. Até que houve o dia; o dia em que meu pai voltou. É isso que venho tentando contar desde o início. Eu estava quase no fim do ensino médio. Não lembro a data, nem o dia da semana. A memória guarda o que quer. Lembro apenas que eu descia o morro de casa com a lentidão que me era possível, apesar de a gravidade conspirar contra mim. Era um sol feroz, desses que empurram o olhar para o chão. Eu ia distraído, com a mente vazia, quando escutei um carro se aproximando e, depois, passar ao meu lado com certa pressa. Era um Ford preto, escuro, de películas escuras. E, por alguns segundos, eu sorri e cheguei a levantar os braços para acenar para o meu pai enquanto ele passava. Demorou algum tempo para a minha cabeça realmente conceber o que eu tinha feito, cheio de atraso cognitivo. Meu pai

estava morto; eu sabia disso. Morto de maneira definitiva, como as pessoas costumam ficar. Ainda assim, ali estava o carro e, ao lado, também ali mesmo estava o meu corpo, com o braço levantado, como um idiota sentimental que acredita não apenas em aparições, mas até mesmo aparições automotivas, fantasmas motorizados. Uma memória materializada em aço e pneu. Naqueles poucos segundos, vi, levemente, a silhueta do homem que dirigia, meio relaxado, distante do volante. Poderia ser ele, com essa postura. Eu poderia facilmente acreditar nisso: que um dia meu pai voltou do mundo dos mortos só para me ver, meio de longe, mais uma vez — a última, uma despedida. E que ele passou por mim dirigindo, igual tantas outras vezes no passado. Depois de mais de um ano de ausência, eu aceitava, ainda que momentaneamente, ainda que em confusão, o seu retorno. Ele morreu, é claro, eu sabia disso, mas não necessariamente para sempre.

Ainda sem entender totalmente o que tinha acontecido, fiquei parado, olhando a traseira do carro se afastar com rapidez, esperando não sei exatamente o quê. Talvez que ele parasse. Talvez que me olhasse, pelo retrovisor, uma última vez, que desse um último sorriso, um último olhar ou soltasse uma última palavra. Nada aconteceu naqueles curtos segundos. Com a sinaleira aberta no fim da rua, o carro virou à direita e desapareceu na avenida.

Meu pai sempre gostou de dirigir rápido mesmo.

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