3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Rogério Machado (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Carioca do Méier, cria da ilha de Paquetá, a “sua Macondo”. Economista pela UFRJ, escriba e poeta por vocação. Consultor Legislativo do Senado, coordenador e revisor da área de discursos e comunicação política. Apaixonado por mitologia e etimologia, grande apreciador de almanaques e estatísticas em geral. Tem três livros publicados: Pensata: um buquê de flores selvagens; De Sombras, Garrafas e Demônios: contos e mais contos; e O Melhor da Rosa: poesias, haicais, versinhos e que tais. Todos pela amazon.com.
Casado desde 1997, foi-se embora para Brasília em 2001, onde mora com esposa e filhos.
O TEXTO:
A onça Sheila e o leão do Méier
Na movimentada esquina das ruas Hermengarda e Dias da Cruz, no coração do tradicional bairro do Méier, a “Princesinha do Subúrbio” carioca, existe um monumento do Lions Club, uma organização internacional voltada para serviços humanitários. Trata-se de um grande “L” amarelo ladeado por um belíssimo e imponente leão em tamanho natural, que, brioso e sempre vigilante, guarda a entrada do bairro.
Mas, depois de instalada a estátua, não demorou muito para uns fanfarrões resolverem que seria muito engraçado pintar de vermelho as bolas do felino. Para muitos moradores, o ato foi motivo de grande indignação; para outros, foi pura diversão. Nas calçadas do bairro, indo à escola, ou voltando dela, as crianças apontavam e faziam perguntas constrangedoras, os adolescentes riam descontroladamente e só não tiravam selfies no local porque estávamos em mil novecentos e guaraná com rolha. Enfim. Até que alguém tomasse uma providência, o rei da selva foi assim desonrado e ridicularizado.
Os vândalos atacavam de novo e de novo. Por mais de ano, foi esta a batalha: na calada da noite, um “artista” vinha e coloria as partes do monumento; coisa de dias, funcionários do Lions apareciam e limpavam tudo; nem uma semana se passava e lá estavam elas rubras novamente. Só as bolas. Foi desse jeito infame que o Leão do Méier ganhou notoriedade. Felizmente, ou infelizmente, hoje a tormentosa questão está resolvida. Algum gênio administrativo percebeu que se tratava de batalha perdida e teve a brilhante ideia de mandar tingir o portento todo de vermelho. A cor não ficou lá essas coisas, mas a brincadeira perdeu a graça e o guardião do bairro ganhou de volta a sua dignidade.
Muito longe dali e muito tempo depois, num balão de acesso ao Guará, região administrativa do Distrito Federal, autoridades públicas resolveram homenagear a natureza com a figura de outro felídeo, este genuinamente tupiniquim. Uma bela onça pintada, também em tamanho natural, mas em cores vivas, postava-se ameaçadora no gramado da rotatória, exibindo suas enormes presas e lembrando a todos que é preciso respeitar a natureza. O fato de que o “bairro” se chama Guará por causa do lobo-guará, este sim, animal muito típico do bioma Cerrado e gravemente ameaçado de extinção — não apenas quase ameaçado, como a onça —, este detalhe foi solenemente desconsiderado, talvez porque a onça seja mais bonita que o lobo, talvez porque o escultor contratado pelo governo soubesse esculpir apenas onças. Jamais saberemos.
Por várias semanas, ela rugiu feroz e inviolada na rotatória, mas então veio a pandemia. Não demorou muito e uma “alma boa”, talvez preocupada com a saúde do animal, colocou-lhe no focinho uma máscara de proteção contra a covid. O lugar é dez vezes menos movimentado que a esquina carioca, mas a brincadeira rendeu boas risadas e viralizou nas redes sociais. Não demorou e, certo dia, tiraram-lhe a máscara; no dia seguinte, lá estava outra. O cabo de guerra continuou por algumas semanas. A “gangue” dos ordeiros desistiu, enfim, e a onça permaneceu mascarada por meses e meses.
Certo dia, porém, com a imagem já banalizada — embora certamente merecedora da aprovação da OMS e de todas as autoridades sanitárias —, a bela escultura amanheceu não só de máscara, mas com uma placa pendurada no pescoço, onde se lia em letras de forma: SHEILA.
Será que alguém entendeu que a onça já era de casa e precisava de um nome? Será que pregaram uma peça em alguma Sheila? Ou será que algum(a) namorado(a) da região viu semelhanças entre a onça e a “sua” Sheila? Eu gosto muito dessa última hipótese.
A placa foi retirada, mas, dias depois, outra apareceu no mesmo lugar. E foi assim por mais outras semanas: um funcionário da administração vinha e a desnomeava durante o dia; a noite caía no Cerrado, e a placa voltava. Aquela já era a Sheila. Então desistiram. E a onça Sheila continuou fazendo parte da paisagem por vários meses, até que um dia finalmente a levaram.
É engraçado e curioso ver esse fenômeno de apropriação e ressignificação de alguns monumentos pelo povo. Para além da simples galhofa, parece-me que existe nisso algo mais profundo, uma movimentação no sentido de tornar “nosso” aquilo que nos foi imposto por outrem. No último caso, pelos governantes; no caso do Leão do Méier, imposto com a autorização dos governantes.
Pintar as bolas do leão, colocar máscara na onça, o cone na cabeça do duque... como veremos adiante... é como se o povo dissesse ao Estado: vocês puseram esse monumento aí na praça e nós vamos ser obrigados a conviver com ele? Tá certo! Então, peraí, deixa a gente dar o nosso toque! Parece-me uma espécie de pedágio social. Pode ser, também, uma desforra popular pela intromissão na paisagem urbana, desforra que é dirigida, evidentemente, não ao monumento em si, que é apenas veículo, mas às autoridades públicas.
Ou simplesmente um jeito de se expressar, de se afirmar, de marcar posição e dizer: ei, nós estamos aqui, nós existimos! Como deve ter sido o caso dos nossos antepassados préhistóricos quando imprimiram suas mãos nas paredes das famosas cavernas de Lascaux, na França, descobertas só em 1940.
Nem sempre, porém, essas brincadeiras e registros são felizes. Às vezes, é algo de mau gosto, como em todas as vezes que roubaram os óculos da estátua do Carlos Drummond de Andrade, no calçadão da praia de Copacabana. Logo Drummond, tão manso, tão funcionário público, tão vovô aposentado que alimenta os pombos na praça.
Noutras vezes, porém, a interação social com o monumento é algo mais picante, como as visitas à estátua de Victor Noir no cemitério Père Lachaise, em Paris. A estátua fica deitada sobre o túmulo e é uma fiel reprodução do jovem que, em 1870, morreu estupidamente pelas mãos do impulsivo príncipe Pierre Bonaparte, evento que revoltou o povo francês à época, causando imensa comoção popular. Mais de cem mil pessoas compareceram ao enterro do ilustre desconhecido. Dizem até que o episódio foi um importante elemento desencadeador da Comuna de Paris, em 1871. Desde então, muitos e muitos anos se passaram. E, à indignação popular pelo fato histórico, curiosamente, sucedeuse uma peregrinação, no mínimo, pitoresca. Há coisa de algumas décadas, diz a lenda que, intrigados com o volume genital da figura de impressionante realismo esculpida sobre a tumba, dois jovens estudantes espalharam o boato de que o ato de passar a mão ou, melhor ainda, outra parte do corpo no atributo viril do rapaz promoveria o aumento da fertilidade feminina. E hoje, passeando por lá, não é raro ver mulheres de várias idades alisando os “documentos” da estátua de Victor Noir como quem esfrega uma lâmpada mágica. Ou até mesmo sentadas sobre ele, simulando o ato sexual com o coração cheio de esperança, ou então às gargalhadas.
Mas há ocasiões em que os atos populares são bem mais inocentes, o que não lhes tira nem um pouco do bom humor. É o caso da garbosa estátua do Duque de Wellington, um dos heróis da cidade de Glasgow, na Escócia, que posa com galhardia sobre um belo cavalo, e que sempre amanhece coroada por um cone de trânsito. Lá na terra do whisky e do Sean Connery, na intenção de dar um basta aos brincalhões, a prefeitura chegou a considerar a elevação do pedestal do monumento em seis metros, o que representaria uma despesa de 65 mil libras para a cidade!¹
Ao saberem da iminente medida governamental, mais de dez mil pessoas assinaram um manifesto para dissuadir as autoridades municipais de realizar tal despesa, descrevendo a prática do cone na cabeça do duque como uma “amada tradição cultural” da cidade. A certa altura do manifesto, pode-se ler a jocosa pergunta: “será que alguém realmente acredita que aumentar o pedestal vai impedir os bêbados de Glasgow?”. Diante de tamanho clamor popular e da perspectiva de mais despesas sem nenhum efeito, a prefeitura recuou, e parece que o duque permanece lá até hoje, ostentando diariamente um ridículo cone de trânsito na cabeça, para alegria e satisfação não só dos bêbados de Glasgow, mas também dos turistas e de todos os escoceses. Ou quase todos. _______________________ 1
Notícia de 2013.





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