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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Samuel Boitar (Categoria Conto)

há 3 dias
7 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Samuel Boitar é médico e vive em Goiânia. Acredita na primazia da imaginação como forma de expressão humana, seja através da literatura, da música ou do cinema. Fora do trabalho, cria e habita mundos impossíveis.


O TEXTO:


A mancha na batina


Quando eu era garoto e vivia no interior de Goiás, nossa cidadezinha era conhecida na região graças a seu habitante mais ilustre: o padre Jeremias. Fiéis das cidades ao redor peregrinavam todo ano para receber a benção do padre, e não raro nos deparávamos com pessoas que nem se confessavam católicas querendo vê-lo. Mesmo com essa popularidade e

com propostas de se mudar para a arquidiocese da capital, padre Jeremias preferia permanecer conosco, fato que muito nos enchia de orgulho.

Podíamos sempre encontrá-lo pelas ruas, deslocando-se para a casa de alguém que necessitava de seus cuidados. Sendo o único padre da cidade, todo o trabalho pastoral recaía sobre seus ombros - o que não parecia de forma alguma abalá-lo, apesar de sua entrada na meia-idade.

— Bença, padre!

— Deus abençoe, meu filho! - respondia a figura alta e encurvada, de batina sob o sol quente, com um sorriso no rosto.

O motivo de sua fama era a quantidade de milagres atribuídos a ele. Na minha rua, sabia-se de pelo menos dois casos em que os envolvidos juravam de pé junto que Deus só havia se manifestado porque o intermediário tinha sido o padre Jeremias. Eu mesmo era desconfiado dessas histórias até presenciar o que houve com Carlinhos, filho de seu Carlos e dona Valdete.

Por volta dos doze anos de idade, Carlinhos começou a perder peso e passou a sentir febre quase todos os dias, o que sempre o tirava do futebolzinho improvisado que jogávamos na praça depois da aula. Em pouco tempo, também começou a sentir fortes dores nos braços e nas pernas, e raramente saía de casa. Eu, que morava na casa da frente, conseguia ouvir os urros de Carlinhos atravessando o silêncio das madrugadas.

Seu Carlos e dona Valdete optaram, então, por passar uma temporada na capital, peregrinando por uma série de médicos e hospitais, que submetiam Carlinhos a exames que me agoniavam só de imaginar. Quando retornaram, a notícia do diagnóstico caiu como uma bomba: câncer no sangue. Mas como uma criança podia ter câncer?, pensávamos. Isso não era coisa de velho? E logo com o filho de dona Valdete, mulher tão piedosa!

O tempo passava e o estado de Carlinhos só se deteriorava, e nem as orações da comunidade nem o tratamento dos médicos da capital pareciam surtir qualquer efeito. Um dia, passando em frente ao quarto de meus pais, entreouvi a voz de minha mãe:

— A Val me disse que não tem mais o que fazer. Já nem aceitam mais o menino no hospital.

— Ela disse quanto tempo falta?

— Uns dois meses.

Não me contive ao ouvir aquelas palavras e entrei de supetão no quarto, para o espanto dos dois, que ficaram tão desconcertados que nem conseguiram me repreender.

— Você precisa prometer que não vai contar pra ninguém, Alberto - disse minha mãe, ao notar o desespero nos meus olhos. - Muito menos pro Carlinhos.

— Ele não sabe que vai morrer? Mas ele não tinha que saber? - perguntei.

Os dois se entreolharam.

— Certas coisas a gente não fala, Alberto - sentenciou meu pai, encerrando a conversa.

Vi Carlinhos poucas vezes nas semanas que se seguiram. Dona Valdete me deixava visitá-lo em seu quarto por apenas alguns minutos, receosa de que ele se cansasse. Lembro-me de estar ao lado daquele garoto da minha idade, contando sobre como andavam as coisas na escola, quem havia aprontado o quê e quem estava a fim de quem, sabendo que eu guardava um segredo importantíssimo sobre ele que ele próprio não sabia. Eu me sentia falso ao ter que desempenhar aquele papel, e o peso dessa responsabilidade acabou por me fazer evitar aquelas visitas.

Certa manhã, estava batendo bola no quintal quando dona Valdete saiu afobada de dentro de casa e gritou:

— Chama o padre, rápido!

Parei o que fazia e corri em disparada para a paróquia, que ficava a cinco quadras de nossa rua. Eu suava e ofegava ao cruzar o corredor da igreja e, sem ao menos me benzer, adentrei o gabinete do padre no fundo do edifício. Ele estava sentado com a cabeça curvada, as palmas das mãos pressionando os olhos e os cotovelos apoiados sobre a mesa. Ao notar minha presença, dirigiu-me um olhar sério - senti que era a primeira vez que ele não sorria

para mim - e percebi que seus olhos estavam vermelhos.

— Dona Valdete mandou chamar o senhor - falei, constrangido - Acho que é o Carlinhos.

Ele me fitou por alguns segundos e assentiu.

— Já vou.

Levantou-se com vagareza e se pôs a procurar alguma coisa no quarto. Vasculhou gavetas da escrivaninha e se agachou para ver debaixo das poltronas, mas não encontrava o que queria. Confesso que, ao vê-lo ali abaixado, procurando sabe-se lá o quê, por algum motivo fui tomado de raiva pelo padre Jeremias. O que é que ele tanto procurava? Por que não vinha logo? Mas, afinal, quem era eu para apressá-lo? Eu tentava não odiá-lo, e passei a inspecionar o gabinete para me distrair, mas meu olhar sempre recaía sobre uma estátua da

santa, cujos olhos me cobravam o sinal da cruz.

— Pronto - o padre surgiu à minha frente, já de chapéu e com uma maleta na mão.

Quando chegamos à casa de Carlinhos, fui barrado na entrada. O que ocorreu a partir daí só descobri através de narradores que não conseguiam esconder o deslumbramento com as próprias palavras: seu Carlos e dona Valdete, vendo que o filho estava prestes a morrer, pediram que o padre lhe desse a extrema-unção. Mas o padre, para a surpresa e até mesmo a revolta de dona Valdete, que precisou ser contida pelo marido, recusou-se. Disse que não o faria, pois Deus curaria aquele menino. E se colocou a rezar com tanta calma e proximidade com o além que os pais, em um primeiro momento ofendidos com a falta de bom-senso do padre, acabaram se rendendo, até que todos os adultos no quarto oravam juntos.

Naquela noite o padre fez vigília no quarto de Carlinhos, rezando a seu lado durante a madrugada. Para o espanto de todos, exceto do padre Jeremias, na manhã seguinte o menino acordou com uma vitalidade que há muito havia perdido. Seu rosto retomara o rubor da infância e já não tinha o mesmo aspecto cadavérico. Aceitava alimentos sólidos e recusava a morfina. Dias depois, os novos exames feitos na capital indicaram uma remissão completa do tumor, fato para o qual os médicos não conseguiram encontrar uma explicação, e torceram o nariz quando dona Valdete disse que havia sido a intercessão do padre que salvara seu filho.

Foi na comemoração do décimo quarto aniversário de Carlinhos que a ideia surgiu.

Lembro que eu e os outros garotos jogávamos carteado em uma das mesas no quintal, já em

clima de final de festa, quando a discussão surgiu ao lado, na mesa dos adultos.

— A gente podia dar o nome dele pra uma rua - ouvi seu Tonico dizer.

— Ou fazer uma festança pra arrecadar dinheiro pra paróquia... - disse o Zé da Venda.

— Fazer uma placa com o nome dele! - sugeriu dona Onésia.

— Não, não, isso é muito pouco - dona Valdete interferiu - Essas são coisas que a gente faria por qualquer padre, mas a gente sabe que o padre Jeremias não é qualquer padre.

O homem é um santo e deveria ser tratado como tal!

— Que isso Valdete, olha a blasfêmia.

— E tô mentindo? Pensa bem, Simone. Você também, Zé. Vocês viram como meu filho estava - e apontou em nossa direção. A essa altura, já havíamos interrompido o jogo para escutá-los. - Se esse padre não é um santo, eu não sei mais quem seria.

Os adultos nos olharam e ficaram em silêncio, até que alguém perguntou:

— Mas então o que a gente poderia fazer?

Foi quando Luizinho sugeriu:

— E se a gente enviasse uma carta pro papa?

— Pro papa, Luiz? Acha que o papa vai ler uma carta vinda daqui desse fim de mundo?

— Não, não, não é uma ideia ruim... - interveio seu Tonico, com brilho nos olhos - Luizinho tem razão. Se a gente quer que ele vire santo, tem que contar direto pros superiores dele.

— E quem seria? O bispo?

— Não sei. Alguém vai ter que descobrir pra gente.

— O Alberto pode dar uma olhada na biblioteca - disse meu pai, que permanecera calado até então, não podendo desperdiçar uma oportunidade de se gabar do filho leitor.

Quis recusar de imediato, mas o olhar firme não me deixou alternativas. Ficou decidido então que eu seria o responsável de juntar informações para a beatificação do padre, e que marcaríamos uma nova reunião na casa de dona Valdete para mostrar os meus achados.

Como eu iria encontrar esse tema na biblioteca municipal, da qual eu só locava livros de aventura para meninos, eu não fazia ideia.

Mas nem precisei descobrir.

No dia em que aconteceu, o céu estava limpo. Eu já pensava no joguinho na praça ao sair da escola, tentando adiar ao máximo o dia de busca na biblioteca. Não estava a fim de lidar com aquilo tão cedo. No caminho de volta para casa, porém, notei uma aglomeração na porta da igreja. Aquilo era incomum, não havia missa naquele horário.

Atravessei a rua e, ao me aproximar, avistei dona Onésia e o Zé da Venda. Para meu espanto, os dois choravam. Percebi, então, que todos ali, inclusive pessoas bem-vestidas e que eu não conhecia, ou choravam ou tinham uma expressão de pesar. Encontrei Luizinho na multidão e perguntei o que estava acontecendo.

— Você ainda não sabe? - ele me encarou como se minha pergunta fosse absurda. - O padre se matou.

— O quê?!

— Padre Jeremias morreu. Se matou. Encontraram o corpo no quarto da paróquia hoje cedo.

Vendo que eu ficara sem palavras, emendou:

— Morreu enforcado. Deixou uma carta. Leonora que encontrou o corpo, deixou ninguém ler a carta até o arcebispo chegar da capital.

Luizinho se virou e foi dar a notícia para outro curioso que chegava, me deixando com mais perguntas que respostas. Como o padre pôde fazer algo tão... egoísta? Quem era, de fato, aquele homem? Não pude deixar de me recriminar pelo que pensar aquele dia em seu gabinete. Mas o que mais me atormentava era a carta - cujo conteúdo nunca foi revelado.

Se Leonora chegou a lê-la antes de entregá-la ao arcebispo, fez um ótimo trabalho em guardar segredo. Mais tarde, eu mesmo perguntei a ela se havia lido a carta, ao que ela desviou os olhos e não respondeu.

A segunda reunião na casa de dona Valdete nunca aconteceu. Ninguém nunca mais tocou no assunto da beatificação do padre. Em pouco tempo, a própria memória do padre foi sendo apagada. Até mesmo dona Valdete, que gostava de falar aos quatro ventos sobre o milagre de Carlinhos, agora, em sua narrativa, parecia dar maior ênfase na importância dos médicos.

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