3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Stefano Giorgi (Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Stefano Giorgi é formado em Comunicação Social e pós-graduado em Ciências do Consumo Aplicadas. Apaixonado por viagens, história e literatura, publicou de forma totalmente independente seus dois primeiros livros, GiraMundo e BuenCamino
Agora, estreia na ficção histórica com Piratas da Independência, obra ambientada nos turbulentos anos de 1822 e 1823, quando homens e mulheres lutaram nos mares e em terra para consolidar a Independência do Brasil.
Seu conto, Duelo na Estrada Real, é inédito e foi escrito especialmente para o concurso Prata da Casa da Casa Brasileira de Livros.
O TEXTO:
Duelo na Estrada Real
Nas Minas Gerais, nem tudo que reluzia era ouro. Nem tudo que era cobrado era imposto. E nem só de revolta falava o povo.
Houve uma semana em que, fosse na venda, fosse na fonte, só se queria saber do tal do duelo. Uma disputa de pistolas não à margem da lei, como eram os embates entre aqueles que queriam lavar a honra com sangue. Uma contenda legítima entre dois homens conhecidos do bom povo e das tortas ruas de Vila Rica.
De um lado, Jorge Martins Valente, tropeiro de coragem e valor reconhecido por todos os caminhos da Estrada Real. Do outro estava o capitão Francisco Alfonso Chagas, um Dragão Real de Minas, como eram chamados os militares de cavalaria leve que patrulhavam as estradas das Minas Gerais. Alguns espetadores até apelidaram o duelo de São Jorge contra o Dragão. Mas o embate nada tinha a ver com religião ou patriotismo.
A bem da verdade, ninguém sabia ao certo o motivo da desavença. O que se sabia
era que, em uma noite de lua minguante e copos cheios, Jorge e Francisco se desentenderam em uma taberna.
Ao contrário de outros homens, que bebiam para esquecer o ouro rareando nas bateias e a Derrama se fartando na miséria, Jorge e Francisco bebiam por motivos que só diziam respeito a eles mesmos. Bebiam sozinhos no salão apinhado de gente. Bebiam em cantos escuros onde o riso e a música eram mais espaçados.
O tropeiro tentava encontrar Esmeralda no fundo do copo. Não qualquer esmeralda, mas a mulata de olhos verdes que derrubava homens do cavalo com um mero sorriso. Jorge não sabia ao certo, mas ouvira dizer que Esmeralda era neta do lendário Chico Rei, o monarca africano escravizado que conquistara a liberdade e passara de escravo a libertador.
Fosse ela uma simples lavadeira ou uma princesa africana, o fato é que Esmeralda era rainha do coração de Jorge há semanas. Mas paixão não era coragem. Não que essa faltasse ao tropeiro. Quando o assunto era ouro ou diamante, por exemplo, nada abalava seu olhar vigilante. Nem onça brava, nem pontaria de bandido. Em compensação, quando se falava em Esmeralda, Jorge tremia feito vara verde. Não conseguia levar sua paixão adiante. Era incapaz de bater na porta da família da moça. Restava-lhe apenas a troca de olhares e sorrisos quando cruzava com a mulata, vistos e comentados por toda Vila Rica.
Já o capitão Francisco bebia tentando tirar o gosto amargo daquela manhã. Matara um homem como já tinha matado outros homens antes. Mas dessa vez o homem não era um qualquer.
Francisco perseguiu o fugitivo pela Estrada Real. O cavalo arfava enquanto ele ia de Vila Rica a São João del-Rei. Quando o homem estava prestes a escapar da cobrança do Rei Dom José I, o Dragão disparou sua arma de fogo. O tiro pegou na nuca, derrubando-o do cavalo. Francisco apeou para ver quem ousara desafiar a Coroa. Ao tirar o pano que cobria o rosto do morto, viu um amigo de outrora. Um colega de risadas e juventude. O mundo sumiu sob seus pés. Naquela noite, bebia tentando encontrar seu chão.
Unidos em estado de espírito, os dois trombaram os corpos no meio da taverna. Um ia ter com um grupo de amigos. Outro queria pedir mais uma dose ao taverneiro e uma porção de queijo. Trôpegos, esbarraram-se.
Dali para frente, as versões variam. Uns dizem que foi Jorge quem começou a confusão, sem se dar conta de com quem falava. Segundo eles, o tropeiro teria dito:
— Olha por onde anda. Caso não saiba seu caminho, mostro-lhe o caminho da rua.
Outros juram que foi o Dragão quem proferiu a primeira ofensa:
— Não sabe beber cachaça como homem? Então vá tomar água com as lavadeiras!
Há ainda quem diga que um terceiro é que fez piada do dois, e a gargalhada da multidão foi o estopim.
Fosse quem fosse que tivesse começado, nenhum dos dois arredou pé para terminar a discussão de forma pacífica. No lugar de dar a outra face, deram mais bofetadas no ego um do outro. O comentário ultrapassou os limites, ninguém se lembra com clareza. Mas todos sabem que foi Jorge quem proferiu a fatídica sentença que os levaria ao duelo:
— Retire o que disse ou arque com as consequências.
Silêncio. Foi o que se ouviu de Francisco.
Os presentes pediram um momento para as apostas enquanto os oponentes se dirigiam para a rua. Quem passava e via a confusão também parava para assistir e apostar em um dos lados. Entretanto, houve um problema. Logo ficou claro para todos ali que os dois homens não estavam em condições de um combate digno. Então, alguém sugeriu um duelo aos moldes europeus.
Mesmo com a consciência trôpega pela bebida, os presentes fizeram bem ao lembrarem da lei. E mesmo na escuridão da noite a lei era clara. Somente a Coroa detinha o direito de justiça e violência. Um duelo era um crime, um ato de lesa-majestade contra a autoridade do Rei.
— Em nome do Rei, eu lhes digo que nada é mais justo do que esses dois homens seguirem com sua própria justiça! — declarou um bêbado, em meio a soluços.
A multidão ficou espantada quando se deu conta de quem era o autor daquela sentença. Caetano da Costa Matoso, o Ouvidor da Comarca de Vila Rica acabara de legitimar o duelo entre Jorge e Francisco com todos os presentes como testemunhas. Mesmo embriagado e provavelmente sem se dar conta do que estava fazendo, fez o que fez e não teria como voltar atrás.
O duelo ficou marcado para dali a três dias. Tempo mais do que o suficiente para a ressaca passar, mas não para qualquer autoridade intervir e cancelar a disputa.
As apostas e a emoção tomaram conta de Vila Rica. O favorito natural seria o capitão.
Patrulheiro das estradas das Minas Gerais, Francisco tinha a pontaria como ocupação, não como passatempo. Entretanto, Jorge também tinha boa fama. À frente de tropas de animais e homens, já enfrentara emboscadas sem nunca perder a carga. Dizia-se que quando ele vinha na frente de uma comitiva, os bandidos preferiam escolher outro caminho, que não a Estrada Real. Com isso colocado, os dois lados se enfrentariam em pé de igualdade oferecendo prêmios de um para um.
Por lealdade de classe, os militares apostaram em Francisco. Não importava o adversário, um soldado profissional jamais poderia perder um embate para qualquer outro cidadão. Já os comerciantes, que conheciam e confiavam em Jorge para o transporte de suas mercadorias e suprimentos, colocaram mais ouro na reputação do tropeiro. Mas nem todo partidarismo se dava de forma racional.
— Eu sonhei com um dragão abocanhando uma mula — disse o padeiro João Guimarães certa manhã. — Isso só pode significar uma coisa: é Francisco quem vencerá esse duelo.
— Ou pode ser que um dragão desça aqui para abocanhar você, de tanta asneira que fala — brincou um amigo, fazendo quem escutou a troça cair na gargalhada.
Com o passar dos dias, a comoção só cresceu em Vila Rica. A contenda não se limitou a Jorge e Francisco. Os partidários de um lado hostilizavam aqueles que acreditavam na vitória do outro homem.
Apesar de homens e mulheres de respeito não poderem confirmar, correu boato de que duas meretrizes se estapearam numa mesa de apostas. Maria Machado, alforriada experiente nas artes de alegrar a vida, acreditava em Francisco: o Dragão, dizia, era homem de paixão ardente e bolsa generosa. Já Ana Bela, que caíra na vida por má sorte, torcia por Jorge – amigo de infância que a ajudara mais de uma vez sem pedir nada.
As duas se meteram numa discussão de homens que bebiam cachaça e apostavam em uma taberna. Em vez de moedas, puseram os próprios corpos na jogada. A proposta ousada agradou o público, mas fez a rivalidade arder entre ambas. Nenhuma estava disposta a aceitar o prêmio de um para um. Cada uma queria que seu corpo valesse mais que o da outra. Tapas, puxões de cabelo, ofensas. Tiveram seu próprio duelo, sem vencedora declarada, diga-se de passagem.
Outro boato que circulou era sobre o favoritismo de Chico Rei. Mas esse deixou de ser apenas boato e logo virou verdade em Vila Rica.
Apesar do duelo ser um conflito entre brancos, Chico Rei não se manteve neutro. Chegou a seus ouvidos que Francisco fizera troça sobre Esmeralda na fatídica discussão na taverna. Os detalhes eram confusos, mas ouviu dizer que Jorge perdera as estribeiras em defesa da mulata. Acreditou no conto mal contado, mesmo sem acreditar direito em quem o contara.
Decidiu então entrar na disputa, mas de forma sutil. Pouparia o ouro de sua mina para seguir comprando a liberdade de escravizados, mas armou Jorge com suas próprias armas. Por meio de Expedito, um alforriado de sua confiança, mandou ao tropeiro uma pistola de presente. Arma fina, leve e bem equilibrada acompanhada de munição e pólvora.
— Meu patrão quer ter com o senhor depois do duelo — disse Expedito ao tropeiro.
— É sobre sua neta. Mas esse assunto é para depois. Até lá, Chico Rei só quer que o senhor treine sua pontaria.
O gesto tocou o coração e a alma de Jorge. O tropeiro agradeceu a Expedito, a Chico Rei e à Divina Providência. Tinha um amanhã para o qual lutar. E agora estava devidamente armado para o embate. Enxergou aquilo como um sinal divino de que seria vencedor do duelo.
Se Deus e os santos de fato tinham algum lado, ninguém poderia dizer. Os membros da igreja, em compensação, tinham suas preferências. Alguns de forma mais velada. Outros com fervor explícito. Não deveriam ter nenhum favoritismo quando o assunto era violência a não ser a paz. Mas uma coisa é ser cristão e outra é ser Cristo. Reconhecendo os próprios pecados, faziam suas apostas e entravam nas discussões.
Os franciscanos de Vila Rica, por exemplo, se bandearam para o lado de Francisco por sua devoção ao santo de mesmo nome. Já os clérigos de Nossa Senhora do Rosário e da Igreja de Santa Ifigênia, sob influência de Chico Rei, rezavam por Jorge. Padre Antônio, que celebrava a missa na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, rezava pelos dois. Pedia à Virgem Maria e aos santos que intercedessem por Francisco, seu irmão. E pedia também por Jorge, não pelo tropeiro em si, mas para que o pecado de tirar mais uma vida não pesasse na alma do capitão.
— Não seria melhor você cancelar esse duelo? — perguntou o padre, certa tarde, ao ver o irmão.
— E ser tido como covarde?
Padre Antônio suspirou.
— Às vezes a verdadeira coragem toma formas que nosso mundo demora a compreender.
Francisco ouviu as palavras do irmão. Refletiu por um momento.
— A bem da verdade, soube da história do meu adversário nos últimos dias e digo: não quero matar esse homem — confessou.
Não foi apenas Francisco quem passou a conhecer e admirar o oponente. Por onde quer que passasse, Jorge era apresentado aos feitos do capitão pelos habitantes de Vila Rica.
Perseguições nas matas, disparos certeiros, lutas com sabre e faca. Assim conheceu o Dragão que estava prestes a enfrentar. Era mais do que um homem valente. Era um homem de valor.
— Só é uma pena que o capitão Francisco lute para proteger os interesses da Coroa e não os nossos — disse o poeta Tomás Antônio Gonzaga ao trocar dois dedos de prosa com o tropeiro.
O poeta declarara seu favoritismo por Jorge. Não apenas pela sua mágoa que passara a nutrir pela Coroa e seus agentes, mas por compartilhar das mesmas dores do coração que atormentavam o tropeiro. Em confidência, Tomás revelou alguns de seus versos inspirados por seus sentimentos a respeito de Dona Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão:
“Depois de nos ferir a mão da morte,
Ou seja neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas palavras os Pastores:
‘Quem quiser ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos, que nos deram estes.’”
Confrontado pela própria mortalidade e inspirado pela poesia, Jorge tomou seu rumo. Colheu flores pelo caminho, sem se importar com os espinhos que lhe feriram os dedos. Caminhou a passos largos por Vila Rica. Seu destino era uma fonte de água limpa, onde as lavadeiras trabalhavam.
De longe, avistou Esmeralda. Seu coração bateu acelerado. Aproximou-se com calma, como quem chega perto de algo precioso. Entregou flores para a moça sem saber ao certo o que dizer. Divertida, a mulata dos olhos verdes não resistiu a perguntar:
— É só isso? Ou o senhor veio aqui com algo a me falar?
Jorge respirou fundo. Não era tão fácil quanto pensou que seria. Mas sentia que aquela poderia ser a última oportunidade para dizer o que tanto desejava:
— Se sobrevivo ao dia de amanhã, não peço por mais nada senão sua mão em sagrado matrimônio.
O sorriso fácil de menina, tão característico de Esmeralda, sumiu do seu rosto. Aquilo não era flerte ou brincadeira. Era compromisso. Os lábios cheios da moça se moveram novamente. Outro sorriso se abriu. Olhava para Jorge com felicidade genuína.
— Então não peço por mais nada além de que sobreviva ao dia de amanhã — pediu
Esmeralda.
O tropeiro assentiu. Queria atendê-la, mas era cuidadoso com sua palavra. Não podia prometer o que não dependia só dele. Despediu-se da moça e foi embora para sua casa.
A noite antes do duelo seria uma noite mal dormida em toda Vila Rica. Disso todo mundo sabia. Mas não houve furdunço ou qualquer movimento nas ruas. Cada um sofria com sua ansiedade em seu próprio abrigo. Os apostadores se perguntavam se fizeram a escolha certa. Chico Rei conversava com a neta sobre o tropeiro. Padre Antônio rezava pelo irmão. E partidários de ambos os lados olhavam para o céu na esperança da noite ir embora mais cedo e do dia chegar mais rápido do que de costume.
Jorge passeava pelos campos próximos da casa de sua família. Durante a ceia, revelara aos pais que iria se casar. Sem a certeza de que o filho sobreviveria ao dia seguinte, ninguém se contrapôs. Isso lhe trouxe paz. Deitado em um monte de capim com um cachorro ao seu lado, olhava o céu cheio de estrelas. Elas brilhavam como os diamantes que Jorge era encarregado de proteger nos comboios estrada afora.
— Eu quero viver para me casar com Esmeralda — disse ele para o céu.
As estrelas responderam. Cadente, uma delas riscou o manto negro da noite.
Em contraponto a Jorge, Francisco não olhava para o céu. Montado em seu cavalo, observava o chão de pedra das ruas tortas de Vila Rica. Vagava diante de igrejas e casarões, deixando que Destino, sua montaria, o guiasse. Quisera Destino que Francisco observasse o rumo que sua vida havia tomado. O Dragão se perguntava quem poderia ter sido se tivesse trilhado caminhos diferentes. Arrependera-se por nunca ter se casado ou constituído família, mas lembrou-se que nunca tivera vocação para marido. Com isso em mente, puxou as rédeas de Destino e fez o cavalo seguir para o Arraial de Antônio Dias. Queria aliviar a tensão entre os abraços e as coxas de Maria Machado.
O dia do duelo amanheceu cinzento e enevoado. Era julho nas Minas Gerais e fazia frio de doer os ossos.
Os oponentes se encontraram em um ponto determinado da Estrada Real, nem perto nem tão longe demais de Vila Rica. Curiosos vieram assistir ao embate. Esmeralda estava lá, Jorge com seus olhos verdes brilhando e seu coração apertado. Padre Antônio também comparecera, rezando fervorosamente pelo irmão. Tentava rezar apenas para que Francisco não se ferisse. Mas era difícil não pedir aos céus pela derrota de Jorge.
Também chegaram cedo os padrinhos dos duelistas. O de Jorge era ninguém menos que o artista em ascensão Antônio Francisco Lisboa, que interrompera seu trabalho na Igreja da Ordem Terceira do Carmo para estar ali e auxiliar o amigo tropeiro no que precisasse. O de Francisco, um companheiro de regimento: o alferes Joaquim José da Silva Xavier, também Dragão Real de Minas.
Os cumprimentos entre os oponentes foram secos. Não por qualquer sentimento de rancor guardado da troca de ofensas na taberna, mas pela tensão que pesava o ar. Não havia espaço para ódio ali, apenas para determinação férrea.
Cedidas pelo Visconde de Barbacena, as pistolas idênticas, próprias para duelo, foram
apresentadas em uma caixa de madeira. Os padrinhos inspecionaram as duas pistolas com a atenção de ourives. O alferes ergueu uma delas dizendo:
– As armas são iguais. Peso, pólvora e espoleta verificados. Estão perfeitas.
Entregou a arma ao seu afilhado, Francisco. Antônio Francisco Lisboa fez o mesmo com Jorge.
O tropeiro pôde constatar que a arma que utilizaria era um pouco mais pesada do que a que ganhara de presente de Chico Rei para praticar pontaria. Já Francisco achou a pistola um tanto mais leve do que a que estava acostumado a usar a serviço da Coroa. Cada um com sua estranheza, estavam em pé de igualdade mais uma vez.
Cláudio Manuel da Costa, secretário de governo da capitania e um dos advogados mais ricos das Minas Gerais, posicionou-se para repassar as regras do embate. Fizera questão de estar ali naquele confronto histórico. Deixara as apostas de lado para manter a imparcialidade necessária ao juiz da disputa.
– Cavalheiros, estamos aqui para resolver uma questão de honra. As regras são estas: ao meu comando, vocês darão dez passos. Estabelecida a distância, darei o comando para o disparo. Ao ouvirem-no, vocês avançarão mais um passo, virar-se-ão e dispararão. Ambos têm direito ao disparo. Se ambos errarem, as armas serão recarregadas. Se alguém cair, o duelo cessa imediatamente para que se prestem socorros.
Os padrinhos mediram os passos. Dez marcas na terra. Colocando-se de lado, Cláudio Manuel deu o primeiro comando:
– Às suas posições.
Jorge e Francisco colocaram-se de costas um para o outro. A respiração do tropeiro estava ruidosa aos seus próprios ouvidos. Mesmo assim, pôde escutar quando Francisco desejou-lhe baixinho:
— Boa sorte.
E Jorge respondeu-lhe:
— Digo o mesmo.
E então, silêncio. O vento soprou. A morte os observava. Não tinha aposta ou favorito. Estava ali, entre a multidão, apenas para fazer seu trabalho e levar um dos dois.
— Cavalheiros, prontos? — questionou o juiz da disputa a plenos pulmões. Ao ouvir a afirmativa de ambos os lados, iniciou a contagem.
Os primeiros passos foram difíceis. Pesado era o fardo do que estavam prestes a fazer. Ao escutar a contagem do quinto passo, Esmeralda caiu no choro. Já um pouco mais adiante, no sétimo passo do irmão, Padre Antônio se ajoelhou e rezou pedindo piedade. No décimo passo, o advogado sinalizou:
— Cavalheiros, ao meu comando. — Os dois homens engoliram em seco enquanto esperavam pelo comando final. Uma gota de suor escorregou pela testa de Jorge. A saliva faltava para Francisco. — Disparar!
Francisco deu um passo firme à frente, sentindo a terra fofa sob a sola da bota. Girou sobre os calcanhares. O mundo pareceu virar também. Lá estava o tropeiro. Giro completo, braço em riste, pistola apontada. O tempo parou.
BUM!
O disparo do Dragão rasgou o ar enquanto Jorge observava a mira de sua pistola dançando sobre o peito de Francisco.
BUM!
Silêncio. A morte deixara a plateia para exercer sua função. O fogo do Dragão passarazunindo pela orelha do tropeiro, mas não o acertara. Francisco não teve a mesma sorte. O disparo do tropeiro atingiu o alvo.
Ambos caíram. Francisco como homem que estava prestes a morrer. Jorge como quem acabara de escapar da morte. Antes de partir, o Dragão deixou um sorriso satisfeito para o oponente. Não o culpava pelo ocorrido; pelo contrário, estava em paz seu fim.
O público ali presente teve reações diversas. Esmeralda correu para Jorge. Padre Antônio caminhou em direção ao irmão. O restante se dispersou pouco a pouco. Havia dívidas de jogo a serem cobradas e poemas a serem escritos. A História não tem memória tão boa para se lembrar de todos os valentes, mas estava pronta para seguir em frente na Estrada Real.





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