3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | André Hsu (2º LUGAR — Categoria Poema)

SOBRE O AUTOR:
André Hsu é médico anestesista, especialista em dor, professor universitário e, sempre que encontra um pouco de tempo entre uma coisa e outra, escritor. Talvez por conviver tão de perto com a realidade e com as muitas formas do sofrimento humano, encontrou na literatura um lugar de liberdade. Escreve pelo prazer de imaginar, de contar histórias e de se deixar levar por mundos onde o impossível não precisa de explicação.
É especialmente apaixonado pela fantasia e é autor de Zalia e o Sangue Mágico, obra nascida desse gosto por magia, mistério e aventura. Imaginar novos mundos e inventar histórias tornou-se uma maneira de se afastar por alguns instantes do peso da realidade. Talvez seja esse um dos encantos: quando o mundo parece difícil demais, podemos abrir uma porta para outro lugar — e, por algum tempo, simplesmente sonhar.
O TEXTO:
Eritropoiese
Onde o osso é raiz e é escuro,
lavra-se o minério do sangue.
Não há pressa no silêncio do cálcio,
apenas o desenho de uma esfera
que ainda não sabe o que é o vento.
É um nascimento sem rosto,
na penumbra de uma catedral de marfim.
Desprende-se a forma, vira itinerário.
Perdeu o seu centro para ganhar o mundo:
agora é fôlego e trabalho.
Atravessa a fresta do ar, o arco do pulmão,
e leva energia nas costas vermelhas.
Não pergunta o caminho;
ela segue com o sopro suprindo o que o corpo inventa.
Mas vem o fogo do esforço, o tropel do passo,
e o ritmo esquece a sua pauta antiga.
A pequena náufraga corre entre os nervos,
doando o sopro que lhe resta nas mãos,
enquanto o músculo pede o que ela já não tem.
É uma dança de urgências,
um sol que se gasta para que o gesto não morra.
Cento e vinte sóis – e a borda se gasta.
O heme pesa, em bílis se transforma.
No filtro do tempo, o verso se apaga.
Não há adeus no baço, nem memória:
apenas o silêncio de quem foi onda
e aceita, enfim, voltar a ser ferro para terra.




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