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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | José Manoel Ribeiro (1º LUGAR — Categoria Poema)

há 1 hora
2 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


José Manoel Ribeiro nasceu na cidade de São Paulo, em agosto de 1975. Licenciado em Letras e Filosofia e mestre em Estudos Literários, atua como professor da Rede Pública do Estado da Bahia desde o ano 2000.  Tem dois livros de contos publicados, Histórias de um lugarejo (2007, Edições UESB) e Contos Áridos(2014, Edições UESB), ambos vencedores do Prêmio Zélia Saldanha; além dos romances Ouça no volume máximo! (2020, Editora Penalux) e Srta. Acauã (2023, Editora Penalux). Ressurgências (2023, Editora Patuá), seu primeiro livro de poemas, foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2024.  



O TEXTO:


Ele mesmo: o outro


Os bárbaros só existem para o homem

Temeroso de se encontrar no oposto,

Como dúplices que, acaso se somem,


Entregarão no resultado exposto

O ridículo de suas certezas

Sobre aquele Outro: rei morto, rei posto.


O estrangeiro apontará as estranhezas

Do reconhecível, em movimentos

Circulares que lançam mentes tesas


Ao contraponto da rosa dos ventos,

De onde se arremessa a flecha inflexível

Para furar os olhos desatentos.


A bússola do seu mundo possível

Agora sem luz alguma é ave cega

E paira naquele espaço intangível


Que ao corpo magro do tempo se agrega:

Lendas, mitos, fronteiras, invasões...

Tudo em que a nau do domínio navega.


São tantas as tribos, castas, nações

Que se atravessaram, graves e aflitas,

Mesmo antes de se olharem as feições.


Os atenienses, persas e citas

Se alternaram no mesmo tom celeste

E rubro, mas invisível às vistas.


O povo pálido que se reveste

Com a cor oxidada e corrosiva

Dos arquétipos do mal e da peste


Estranha a própria sanha que cultiva,

Morre enquanto mata o dissemelhante

Pois é a própria morte que o cativa.


Toda a História se resume ao instante

Em que a próxima fronteira é vencida?

Em que aquela aldeia, logo ali adiante,


Se torna apenas cova revolvida?

Em todo frenesi que se mantém

No peito há um rescaldo fraticida.


O canibal é irmão de Montaigne:

Fala e escrita, a mesma selvageria.

Ibéricos e vândalos também


Unidos na fome em Andaluzia:

Irmanados na aflição das pilhagens

Padeceram da dor que mais doía.


Para que os civis se tornem selvagens

Basta que o mundo ao redor se conturbe

Por tolas fissuras nas engrenagens


Que impedem que o céu do império se turbe:

São ressentidos quebrando a redoma

Polida e frágil em torno da urbe.


Pois quando chegou às terras de Roma

Vindo do Leste esse povo germânico

Cantarolava em seu próprio idioma


Como um coral dissonante e satânico,

Até se unirem a um outro coral

Que entoava em latim hinos de pânico.


Essa algaravia em tom marcial

Retumbou nos limites do Ocidente,

Do primeiro choro medieval


Ao último suspiro do Oriente:

O romano viu no bárbaro a réplica

Disforme de si bem à sua frente.


Quando o mar se pôs à décima métrica

E o Atlântico versificou a cruz

E a espada debaixo do céu da América,


Os velhos demônios fizeram jus

À vingança da Europa violentada

E armada de ódio, mercês e arcabuz:


Os gracejos que antecipam a espada,

O abrigo que antecede as covas rasas,

O Peabiru convertido em Entrada


Por entre sertões estalando as brasas

Em que as Eras nativas se consomem,

Mas que acendem os olhos de Las Casas:


Os bárbaros só existem para o Homem!

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