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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | Luís Holiver (2º LUGAR — Categoria Crônica)

há 6 horas
6 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Luís Holiver é escritor, dramaturgo, ator e roteirista de São Paulo. Inseriu-se na cena teatral paulistana aos 17 anos ao integrar a Cia. de Teatro Os Satyros, participando de premiados espetáculos da companhia. Formou-se em Dramaturgia pela SP Escola de Teatro e é autor de peças como Música Para Ranger os Dentes (2020), Y Tu Mirada Era de Adiós (2022), Rádio Canibal (2024), Mito na Sarjeta (2023) e Vamos Ver as Tartarugas (2023), que recebeu o Prêmio Curto Criativo de Melhor Roteiro e Melhor Roteiro Experimental pela adaptação cinematográfica. Foi finalista do Prêmio Prata da Casa com a crônica Cena na Imigração (2024). A obra de Luís Holiver se caracteriza pela exploração de fronteiras entre linguagens narrativas e interseções possíveis entre a escrita e o jogo cênico, com projetos que já circularam por países como Cuba, Bolívia e Polônia, entre o teatro, a literatura e o cinema. 


LUÍS TAMBÉM ENVIOU UM VÍDEO:


O TEXTO:


Santiago se levanta


Em preto e branco, o menino está ali. Cabelo penteado pro lado, cachecol enrolado no pescoço, suas sobrancelhas estão franzidas quase em protesto. Chego mais perto. As pálpebras caídas deixam seus olhos tristes e confusos. A formalidade da roupa parece pesar naqueles ombros finos, é como se ele tivesse sido empurrado para dentro daquele paletó. Chego ainda mais perto. Tudo ali é estranho e doentio, a estética típica dos registros policiais. Mais perto: a imagem se embaça e tudo se desfaz em pequenos pontinhos agrupados que formavam o rosto dele. E a boca entreaberta, os dentes da frente à mostra, como se ele tivesse alguma coisa muito importante pra falar. Não falou nada. Dou meia-volta.

Eram dez horas da manhã em Santiago e eu queria chegar no hotel até às onze. Encontrei a foto desse menino no caminho, emoldurada e pregada num muro bem em frente à feira.

— Um mistério — disse um dos vendedores quando eu perguntei. — Dizem que a família colocou essa foto quando ele desapareceu, usando uniforme da escola e tudo. Anos 70.

Época horrível, ele ia dizendo. Mas, segundo ele, obviamente não teria como eu saber, a não ser que eu fosse trinta anos mais velho.

— Ou trinta anos mais chileno — completou a senhora que vendia verduras. Essa era mais cínica, e simpatizei com ela por causa disso. Ela me passou mais informações, peguei o que eu consegui do seu espanhol atropelado: o menino tinha catorze anos quando desapareceu, era outubro de 73, ele tinha acabado de voltar da escola e simplesmente evaporou. É incrível como alguns jovens latinos costumavam evaporar misteriosamente com o calor. Ela que disse.

O resto foi uma troca de sarcasmos sobre o clima, num espanhol que eu não entendi direito. Tentei rir com eles, com um constrangimento de não saber exatamente o que sentir. Em momentos assim as pessoas costumam rir, balançar a cabeça para o vazio, olhar em volta, talvez pegar o celular para disfarçar o mal-estar de não saber o que fazer com as mãos. Esperam um momento de silêncio e então já podem dizer: que loucura. E a vida segue.

Dez e quinze da manhã. Sigo meu caminho pro hotel, com a luz do sol na cara. Tem alguma coisa no ar que seca minhas lentes de contato. Aperto minha vista. A imagem do menino ainda queima na minha retina, aparece e desaparece conforme eu pisco os olhos: Cabelo penteado. Cachecol no pescoço. Sobrancelha franzida. Olhos caídos. Boca entreaberta.

Nem sei explicar por que aquilo me grudou na cabeça. Senti de repente uma pena por aquele menino da foto. Evaporou aos catorze. Penso naquele seu paletó, foi comprado pela sua mãe, imagino. Ou melhor: herdado de seu irmão mais velho, por isso ficou largo nos ombros. O uniforme da escola todo preto, como num luto adiantado por si próprio. Te imagino, menino, correndo nos intervalos das aulas pela Calle Agustinas, numa Santiago desenhada por Neruda. Eu te vejo com os seus 1,60 de altura e 50 quilos, o mundo ainda tinha as cores desbotadas e o granulado dos anos 70, o sinal toca, você volta pra escola.

Mas de que adianta tudo isso? Uma foto colada no concreto não te faz menos morto. E do que adianta eu gastar uma manhã de férias pensando em você, se continua enterrado a sete palmos de algum chão muito distante? Eu não te conheço, menino. Inventei sua altura e seu peso, mas nem mesmo me dei ao trabalho de pesquisar o seu nome. De que nos serve esse olhar passageiro, quase turístico, sobre o trauma alheio? Me diz, garoto, de que adianta? Vamos pensar em outra coisa.

Olha só, lá na esquina alguém começa a tocar um violão: mi paso retrocedido, cuando el de ustedes avanza… Atrás do músico, na parede, existem mais rostos. Uma fileira de fotos

coladas na pedra, em preto e branco.

Eram, todos, desaparecidos de Santiago. Voltam até mim registrados nesses pontos não-turísticos — fotos coladas em muros, placas que indicam antigos centros de tortura, calçadas com nomes e idades inscritos no concreto, ou nem isso: números, apenas números

empilhados como coisas em boletins estatísticos. Foram doze desaparecidos num imóvel em Santa Lucía, setenta e seis em La Legua, noventa e oito na rua Londres, algumas dezenas na Villa Grimaldi, mil quatrocentos e sessenta e oito no país inteiro. Ali, virando a Marathón, está o Estádio Nacional, dizem que os interrogatórios aconteciam no velódromo, onde verdades históricas eram forjadas em correntes de 110 volts.

Podemos ignorar esses lugares, se quisermos. Podemos passear por aí como sonsos em direção ao Cerro San Cristóbal, tomar um sorvete em Lastarria, talvez um vinho à tarde. O que eu tenho a ver com os desaparecidos de Santiago?

Então para que os fins de semana continuem brilhantes, para que os hotéis não desabem, precisamos ser sonsos, sonsos por instinto e dever cívico. Jovens obedientes são patrioticamente sonsos, andam na linha, cabeça baixa, da escola pra casa e vice-versa, com a satisfação canina de que tudo está em ordem, como convém quando não se quer terminar como uma foto colada no concreto. Não pisar em falso. Respeitar os mais velhos. Honrar pai e mãe. Não ler certos livros. Podemos andar de teleférico e ver a cidade longe o bastante para não enxergar esses restos do passado. De cima, Santiago é quase perfeita. E eu, como um bom sonso, sigo meu caminho pro hotel, tiro minhas lentes de contato, finjo estar a salvo. Durmo e sonho com São Paulo. Me vejo na cidade-natal, com os monumentos, as ruas com nomes de coronéis, aqueles colonizadores banhados em bronze. Quantas vezes eu cruzei a Avenida Tiradentes sem saber que ali torturaram gente. Hoje uma agência de banco funciona no lugar, mas não existe nenhuma placa. Nada. Em São Paulo, a maioria dos fantasmas passa batido.

Mas Santiago é fiel. De noite, saio pra jantar e volto a ver os desaparecidos em suas fotos. Quero olhar mais de perto. Qualquer rosto se encaixaria ali. O bilheteiro do cinema, a caixa do supermercado, quase pensei ter visto minha vizinha Miriam no meio deles, e um cara que encontrei mais cedo no metrô. A idade de alguns me assusta. Muito jovens. E aí já é inútil ser sonso: o trauma tá cravado nas esquinas. Eles se prostram ali, todos em preto e branco, todos rígidos, aos pedaços, mas completamente inevitáveis. Não são para os mortos que se exibem essas fotos na rua, mas para nós, os vivos, que desfilamos por aí esbanjando

cabelo, pescoço, olhos, boca, nome, endereço. Nós, que respiramos por aí como se viver fosse de graça.

E minha cabeça volta pro menino daquela foto o tempo todo. Aquele ali não me larga. Decorei as feições dele, aqueles pontinhos todos juntos. A câmera-policial que disparou aquela foto com a mesma vontade de quem puxa um gatilho.

Puxando pela memória, começo a reconstruir seus traços. Muitas pessoas estão no rosto dele. Eu o reconheço por aí. Se primeiro eu encarei aquele menino como um desconhecido, agora percebo o cabelo penteado em estranhos que vejo na rua. O cachecol em colegas de trabalho. A boca entreaberta nos meus amigos de infância. As sobrancelhas franzidas na minha mãe, enquanto ela dorme. Os olhos caídos são os meus, aos catorze, com um medo selvagem de não caber numa foto de família. Enfim viramos a mesma pessoa, menino. Aos poucos fui encontrando o que tem de mim em você.

Há em nós uma cumplicidade impossível.

Em outra existência, sou eu que estou preso numa foto e é você que escreve sobre mim. E você aproveita que o mundo virou do avesso e volta. Volta, garoto, e atrapalha o trânsito com toda a revolução dos seus catorze anos. Volta e gargalha nas esquinas, os policiais vão suar frio. Entra num cinema e assiste a um filme qualquer, um daqueles proibidos. Volta e me diz o que fazer daqui pra frente, ou daqui pra trás, sai de dentro dessa fotografia, tira seus disfarces de adulto e vem.

Já é de manhã. Apoiada em seus traços, menino, Santiago se levanta com dificuldade e, com os seus 50 quilos a menos, volta a respirar devagar.

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