3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Jadiel Carneiro (Categoria Poema)

SOBRE O AUTOR:
Sou Jadiel Carneiro, graduado em Licenciatura Plena em Música pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pós-graduado em musicoterapia pelo Instituto CBM de Educação. Atuo com música e musicoterapia, áreas que me permitem expressar sentimentos e conectar-me com o ser humano. Desde a infância, encontro na poesia uma forma de traduzir emoções em palavras, assim como faço por meio da música. Para mim, a literatura é um espaço de sensibilidade, criatividade e expressão.
O TEXTO:
Elegia em quarto fechado
I
A tarde desce como um véu cansado
sobre os ombros da casa silenciosa.
Não há rumor de praça, nem riso leve;
apenas o relógio, meticuloso e frio,
marcando o desgaste invisível das horas.
Que fizeram dos sonhos inflamados
que outrora ardiam como archotes?
Que restou das promessas juvenis,
erguidas sob céus que pareciam eternos?
Agora tudo é penumbra moderada.
Nem tragédia, nem glória.
Somente este intervalo suspenso
entre o que fui
e o que não cheguei a ser.
II
Oh, Byron compreenderia este cansaço!
Não o da carne, mas o da esperança.
Aquele torpor elegante, quase nobre,
de quem já pressente a inutilidade do gesto
antes mesmo de erguê-lo.
Há livros abertos sobre a mesa,
mas as páginas tornaram-se espelhos.
Leio e releio o mesmo verso,
não para entendê-lo —
mas para não ouvir o próprio pensamento.
As palavras, antes centelhas,
agora soam como passos sobre neve:
abafadas, indecisas,
quase ausentes.
O amor?
Já não é incêndio.
É bruma.
Lamartine falava à lua
como quem implora ao infinito.
Eu falo às paredes
e elas devolvem
um eco domesticado.
III
Vivo no corredor da minha casa
como quem atravessa um inverno interior.
O assoalho responde aos passos
com um rangido discreto,
quase irônico.
Não há fantasmas visíveis,
mas há memórias que se deslocam
como móveis arrastados na madrugada.
Recordo cartas nunca enviadas,
confissões ensaiadas diante do espelho,
gestos interrompidos
por um orgulho que já não me serve.
Acendo outro cigarro.
A fumaça ao menos
tem forma.
Ela sobe, hesita, dispersa-se.
Mais honesta que muitos sentimentos.
IV
Que nome darei a esta apatia?
Não é dor bastante para poema trágico,
nem alegria suficiente para hino.
É um meio-termo morno,
uma estação que não decide
entre florir ou secar.
Sinto-me estrangeiro de mim mesmo.
Como se alguém houvesse trocado
as etiquetas da minha alma
enquanto eu dormia.
Desço à cozinha —
a água na chaleira fala
como se soubesse algo que ignoro.
O vapor sobe
e por um instante recordo
a infância.
Havia naquela idade
uma confiança inexplicável no amanhã.
Uma fé que dispensava argumentos.
Onde repousa agora tal confiança?
Em que gaveta do tempo
a esqueci?
V
Abro a janela.
O céu de inverno é vasto,
mas não promete nada.
As nuvens passam
como pensamentos que não se fixam.
Um pássaro corta o ar
com a indiferença das criaturas livres.
Talvez seja essa a maturidade:
olhar o infinito
e não esperar resposta.
Goethe falava da alma em tormento,
Werther ardia sob o peso da própria sensibilidade.
Eu não ardo.
Eu resfrio.
Não há tempestade suficiente
para justificar a vertigem.
Apenas este frio constante,
esta neve interior
que cai sem espetáculo.
VI
À noite, o quarto torna-se mais estreito.
As sombras alongam-se nas paredes
como pensamentos que não querem dormir.
Deito-me, mas o corpo não repousa.
O teto parece aproximar-se lentamente,
como se desejasse ouvir meus segredos.
Conto as fissuras do reboco
como quem conta estrelas apagadas.
Há uma solidão que não dói —
apenas ocupa.
E é talvez a mais perigosa.
VII
Ainda assim —
há segundos.
Segundos breves,
quase indecentes em sua claridade,
em que um raio oblíquo atravessa o quarto
e ilumina partículas suspensas no ar.
Nesses instantes
não sou blasé,
não sou descrente,
não sou espectador fatigado.
Sou apenas respiração.
O peito se expande,
o ar entra como visitante inesperado,
e por um momento o mundo
recupera contorno.
Talvez não sejamos feitos
para a chama constante,
mas para estes lampejos.
E se a vida não é incêndio,
é ao menos brasa.
E se não é epopeia,
é murmúrio persistente.
A respiração —
esse gesto mínimo,
esse movimento anônimo
que insiste em continuar —
é o único verso
que ainda me salva
do silêncio absoluto.
ou equilibrar com mais transcendência?





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