3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | Henrique Alves (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Henrique Alves nasceu em Belo Horizonte, em 1975. Sua trajetória concentra trabalhos na área de educação, literatura e música. É servidor público e reside em Diamantina, Minas Gerais, desde 2007. Na área das artes literárias, continua criando e lapidando músicas e textos em prosa e em verso, tendo sido premiado em alguns prêmios nacionais de literatura de 2011 até o presente. Lugares onde viveu: Balbina (AM): 1984-1986; Angola (África): 1986-1989; Belo Horizonte (MG): 1975-1983 e 1990-2003; Ribeirão das Neves (MG): 2004; Brumadinho(MG): 2004-2007; Diamantina (MG): 2007-presente.
O TEXTO:
Centro
Dissipada a poeira pensamentosa nas escadas do Central. Correio... mensagens e destinos. Sorvem-se os cheiros do carrinho de pipocas e outras guloseimas. São provenientes das mãos que também prepararam a terra para o plantio das hortaliças vendidas nos dias de feira, mesma terra preexistente abaixo daquela cidade, quando o asfalto ainda não existia debaixo das solas dos sapatos, sandálias e plantas dos pés caminhantes e, ainda, a mesma terra que um dia cobriria o corpo do morto, seguindo o desejo do vivo. Nem se sonhava com internet, tablets e redes sociais, mas a vida já era acelerada, estonteantemente urbana e veloz, em simbiose com o tempo e em contraponto com os astros. Talvez algo divino semeasse dom de vento naquelas mãos artesãs, produtoras do perfume que adentrava os narizes desenfreados acima das pernas andantes — embora desconexas, eram parte integrante de um todo onde havia tudo, menos calma. Cheirinho de açúcar no fogo. Cheirinho bão demais.
“Quanto é?”, “Cinco”, “Me vê um!”. Perplexos andam e apressados correm andando. O sinal fechou.
Uma senhora levemente arredondada, vestida em vermelho vivo, de cabelos esvoaçantes em tons de cobre, vem abrupta, pelas faixas brancas e pretas. Parecia nervosa. Tropeça na calçada descalçada, olha para o chão e para trás. Um moço sentado no último degrau da escada acompanha a estranha paisagem com vontade de rir, mas sua atenção é desviada para a correria dos estudantes universitários que passam cantando Tim Maia em direção ao boteco da sinuca.
Algumas mulheres seguram seus pertences mais firmemente e dois meninos vêm sorrindo descalços numa velocidade maior que a do som “pega ladrão!”. Cruzam a avenida enfurecida no meio dos carros ferozes e desaparecem. Quase trombam no cego que tateia a cidade com sua bengala improvisada. Sorte um rapazinho estar segurando-lhe o braço.
Mais adiante, a orquestra trágica e melancólica de buzinas parece entoar funebremente os cânticos dos acidentados espatifados no chão, que impedem a passagem dos veículos.
Um senhor magro e forte, de nariz e orelhas proeminentes corre em longas passadas... em vão. O motorista do ônibus já havia dado a partida no motor.
Enquanto isso, a dona de vermelho, vestida de indignada senhora, aproxima-se do fazedor de aromas:
É uma vergonha aquilo dali! — e levantando a voz ao mesmo tempo em que pendula o indicador para cima e para baixo, como se fosse sua mãe, — Alguém tem que dar um jeito naquilo, como está não pode ficar!
O pipoqueiro traja um avental branco por cima do resto da roupa e não move nem meia pupila para a mulher. Está concentrado, em seu ritual diário, ba- lançando a panela em movimentos circulares para não queimar o açúcar. Nesse ínterim, enquanto um carteiro passa correndo entre um policial militar e uma vira-latas adoentada e de costelas à mostra, um ônibus encosta o máximo que pode para resgatar passageiros, um moço bigodudo escarra no chão e um menino chupa picolé, ele, o mestre das pipocas, amendoins e cocos, nada diz. Finalmente, com um pano, segura a alça da panela, abre a porta do carrinho e ali guarda a caçarola com o manjar cotidiano dos deuses. Põe as mãos lentamente no bolso do avental e levanta os olhos em direção à inquieta mulher, como quem diz “hã”, voltando do transe do fogo. Ela, por sua vez, alterada por puro automatismo, aumenta o volume:
— Não tem condições! Cadê os guardas? Você que está aqui todos os dias, não conhece nenhum? Tem que dar um jeito naquilo, entendeu? É absurdo! Vê se pode?! — e os dedinhos inchados da senhora rubra apontavam um mendigo sentado no chão, entre os automóveis, no meio da via.
Aquele morador de rua apresentava um corpo sofrido e contornado pela paralisia infantil, suas pernas eram atrofiadas, seus braços eram caniços de osso e pele. Prostrava-se
em frente a uma caixa de papelão junto ao meio-fio. Somente sua carteira de identidade ficava em pé, presa entre as fendas da caixa onde tilintavam agora mais dez centavos. Tinha o rosto gasto e manchado feito limão no sol. Muito magro, sujo, suado e olhos cansados. Olhos cansados.
— Alguém precisa tirar ele dali! — continuava, irada. Ela agora já gritava, certa de que o pipoqueiro deveria resolver a situação ou fosse responsável por ela... Só não dava para saber se ela estava preocupada com o fato de o mendigo estar se aventurando em esmolar em áreas perigosas ou se estava incomodada com o que parecia considerar uma visão nauseante de um ser que destoava do resto das pessoas. Provavelmente a segunda opção, na
verdade, não parecia ligar a mínima para o pedinte, como se a condição de saúde fosse culpa dele e a miséria fosse escolha própria... enfim, pode ser que fosse até mesmo a mistura dos cheiros do coco com o do mendigo que a estivesse incomodando. De qualquer forma, independente de não se sentir parte daquele problema social, abaixo dos cabelos ruivos, o pensamento da senhorinha escarlate era de que a pobreza é problema dos outros e fim de papo, ela sentia que tinha que fazer alguma coisa, qualquer coisa, então berrou com o pipoqueiro e libertou-se do fardo que cismou de carregar.
Passam as formiguinhas com suas vassouras rápidas e mágicas, levantando e revolvendo o pó sujo e arremessando mais para adiante o palito do picolé do menino que acabava de se lambuzar, satisfeito.
“Quanto é o coco?”,“Cinco, mas ainda vai sair”, “E o amendoim?”, “Cinco, também”, “Vou querer um. Obrigado”.
Bem alaranjadas, as garis empunham suas varas de condão e em poucos segundos também desaparecem, não sem antes deixar um olhar de cara feia repreendendo o moleque recém-açucarado.
Gritam de um lado: “É o giz, é o giz! É o giz chinês: mata barata, mata formiga, é o giz! É o giz chinês”.
Do outro: “Vai dar cobra, vai dar cobra! É o cartão premiado! É o último e vai cinqueeeeeenta milhão”!!! E no fundo: “Bala halls é um real!”, “Pilha duracell, três real!”, “Cola super bonder, um real!”, “Isqueiro, envelope, pendrive, brinquedo voador!!!”, “Três par de meia, dez real”, “Limpa e desentope o seu fo- gão a gás: é um, é dois, é três! Vai levar, freguês?”
Os anúncios gritados pelos camelôs e ambulantes ressignificavam o singular e o plural das sentenças dos vendedores, que entoavam com intensidade seus mantras, aquelas melodias que ficam na cabeça da gente, com toda a licença poética que a recorrente e costumeira vida comercial das cidades nos proporciona.
Alguns passos param: “Me empresta o fogo?” — com o cigarro na boca. Shhhhh, com o fósforo aceso na mão, chupando fumaça para dentro. Um bêbado passa cambaleante e para em frente as mulheres seminuas nas capas das revistas da banca de jornal.
O pipoqueiro deixa à mostra um meio sorriso indiferente, começa a cortar o coco maduro em pequenos pedaços que se misturam ao açúcar da panela. Em contrapartida, a dona vermelho sente que sua função foi cumprida à risca e pega um táxi estacionado em local proibido, sem se dar conta que as estratégias quase secretas do mundo podem ativar, a todo e qualquer momento, as ressonâncias de algo que se poderia chamar mimetismo do destino. Mais um encontro espiritual e um possível aprendizado são desperdiçados.
Salamaleques de um louco que fala sozinho encontram a reciprocidade da multidão desesperada, enquanto duas amigas que há muito não se encontravam se dão três beijinhos e seguem sentidos semi-contrários. Uma vovozinha daquelas que dá vontade de apertar, a
passos lentos e de olfato aguçado, pergunta: “quanto é?” e recebe “cinco” no troco da resposta. “Me dá dois, quentinhos”. “Pra senhora faço por oito os dois”. Abre um saquinho que vai comendo no meio do caminho e o outro guarda na bolsa de moda antiga, surpresa para a netinha.
O pipoqueiro guarda o dinheiro e o cheiro amistoso de seu trabalho orgânico se espalha pelo cotidiano sem ciclos. Na ardente matiz da existência, uma pessoa talvez tenha querido saber das horas... E o aroma, em seu sublime ápice, insuportavelmente bom, coloria sem saber e sem querer o caminho acelerado daqueles pés do centro da cidade e o sofrimento tedioso dos que não têm pressa ou esperança de caminhos.
E não se poderia dizer que a vida tinha voltado ao normal, porque não havia saído dele.
“Quanto?” — “Cinco!”.
O sinal abriu, mas antes disso, piscou três vezes.





Comentários