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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | William Koopman (Categoria Conto)

há 22 horas
16 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


William Koopman nasceu em Avaré (SP), em 1996. É graduado em Administração pela Faculdade de Ciências Sociais e Agrárias de Itapeva, cidade onde reside há vários anos. Em 2025, foi semifinalista do Prêmio Prata da Casa e finalista do Prémio Internacional Pena de Ouro. 


O TEXTO:


Mãe da vida


Depois de fazer serão na fábrica de telhas, Otávio despede-se dos colegas e vai tomar um trago no bar do Acampamento. Já passa das seis; mas ninguém diz que aquilo seja um final de tarde. Antigamente ele gostava desses dias mais longos do verão, dessas tardes que se prolongavam até depois das oito horas. Hoje já não gosta tanto.

Chega ao bar e dá com seu conhecido Vidal sentado ao balcão, bebericando um rabo de galo. Vidal enverga um terno preto. Otávio senta-se perto dele e cumprimenta-o.

— E aí, beleza?

Não obtém resposta. Então evoca a única referência que lhe ocorre sobre homens de terno:

— Ondé que é o casório?

— Casório?

— Ora, cê tá vestido assim por quê?

— Vou no culto.

— Culto? Que culto?

Vidal vira o resto da bebida. Seu Valdemar, o balconista — todos lhe chamam Seu Valdemar, embora ele não seja muito mais velho do que a média dos caras que frequentam seu estabelecimento —, surge pela porta sanfonada à direita deles e apanha uma cerveja preta para o recém-chegado. Vidal pede outra.

— Da Congregação.

Abre a lata e serve-se num copo americano. Otávio dá uma gargalhada, mas o colega ainda continua com a mesma expressão impassível.

— É sério mesmo?

— Sim, é muito sério. Pergunta pro Seu Valdemar.

Mas este já desapareceu novamente, dir-se-ia qual criatura perita na arte de resguardar-se a furto. Otávio mira a janela e vê, através da tela verde do caixilho, a estrada vicinal cercada de plantações rústicas crestadas pelo Sol. Toma um gole da cerveja e meneia a cabeça.

— E por que então cê ainda tá bebendo?

— Meu fígado ainda não foi batizado.

— Que merda. Fala aí, quem é a dona?

— Dona de quê?

— Ora, cê tá indo na igreja pra traçar alguma das crentes de lá, não é?

— Não.

— Ora, claro que é. Sei bem comé que é isso, também já tive essa fase.

— Entendo você me julgar assim. Não é sua culpa.

Vidal recolhe de sobre o balcão os cotovelos e põe-se a apalpar os bolsos, primeiro do paletó, depois das calças. Otávio então repara na Bíblia de capa marrom, encadernada em couro, que ele trouxe consigo. Após a procura malograda de sabe lá Deus qual fosse seu objeto de desejo, toma mais um gole da cerveja e pousa o copo sobre a Bíblia.

— Cê pelo menos abre essa Bíblia de vez em quando? Quer dizer, quando não está usando ela como bolacha?

— Claro que abro. Leio pelo menos uma passagem todo dia.

— Cite uma.

Vidal precipita-se a abrir o Livro Sagrado, mas Otávio impede-o.

— Não, não. Sem olhar. Me dá cá.

Toma a Bíblia para si e espera o outro esquadrinhar a memória em busca de algum trecho importante. Sem demora, Vidal profere:

— Antes eu Te conhecia só de ouvir falar, mas agora meus olhos Te veem.

— Legal.

— Sabe de onde é?

— Não.

— Do Livro de Jó.

— Hum. E por que essa passagem?

— Bom, escolhi essa não foi por acaso.

— Imagino.

— Deus falou comigo...

Otávio ri.

— ...Ele tem planos maiores pra mim.

— Ora, se tem.

— E Ele tem planos maiores pra você também, eu sinto.

— Ai, não. Jura que essa conversa é a sério? Não, não pode ser, eu duvido que você esteja mesmo nessa.

— Claro, é muito sério. E esse versículo de Jó diz muito sobre mim.

— Deus então apareceu pra você?

— Ele aparece de várias formas. Cê deve ter uma Bíblia em casa também, não tem?

— Tenho. Multiuso, igual à sua. Calça as coisas que é uma beleza.

— Então pegue ela e leia essa passagem que eu falei: Jó 42:5.

— Rapaz, não passou pela sua cabeça que, antes de procurar uma igreja, você devia era procurar a Mãe da Vida? Tudo bem pra você dizer que é crente e continuar bebendo assim?

— Já pedi à Nossa Senhora que intercedesse pela minha pessoa.

— Nossa Senhora? Peraí, que raio de religião é essa sua?

— Agora sou evangélico da Congregação, já te disse.

— E devoto de Nossa Senhora?

— Sim.

— E isso não dá problema pra você?

— Os irmãos são compreensivos.

— Irmãos...

— Você também é um irmão.

— Irmão bastardo, só se for.

— Prefiro pensar que você é um irmão separado, mas que ainda pode se juntar a nós.

— Aham. Espere sentado.

— Sentado eu já estou.

— Certo. Se eu for buscar a Salvação, vai ser só lá pelos quarenta e cinco do segundo tempo, depois de já ter queimado a última gota do tanque. Mas diz aí, ô Vidal, que esse negócio não tá entrando na minha cabeça. Agora falando sério, tá nessa por quê?

— Já te disse. Deus falou comigo.

Otávio levanta-se, empunhando a lata ainda cheia para mais da metade.

— Tudo bem, então. Encha a cara aí, vá lá no seu culto, e depois vai-te para a puta que te pariu.

Vidal o retém e o faz sentar-se novamente.

— Espera aí.

— Que foi?

— Vamos hoje no culto comigo.

— Tá brincando, né? Quanto cê me paga?

— Queria que você fosse sem eu ter que te oferecer nada além da Palavra de Deus. Mas, se é assim, dê o seu preço.

— Foi só jeito de falar. Nem fodendo que eu vou.

— Ora, não seja cabeçudo, Otávio. Vamos lá comigo, só hoje, sem compromisso.

— E de que jeito cê quer que eu vá? Assim, de botina, com essa camiseta encardida...? Eu não tenho um terno igual a esse seu.

— E nem precisa. Os irmãos não vão te julgar pela sua roupa.

Otávio dá uma gargalhada histérica.

— Não vão? O que esses porras mais fazem da vida é julgar os outros.

— Não, meu caro. Cê tá falando isso pela cabeça dos outros.

— Ora, quanta besteira. E a propósito, esse terno seu aí você tirou de onde? Cê não comprou essa coisa aí, não é?

— O irmão Félix me deu.

— Irmão Félix?

— Sim.

— O dono do pinal?

— Ele mesmo. Tô trabalhando com ele há umas semanas.

— Hum, entendi. E ele te empurrou esse terno a troco de quê? Vai descontar no seu pagamento?

— Não, ele não me pediu nada material em troca.

— É bom ficar esperto, no próximo pagamento dê uma boa conferida no seu holerite. O vício dessa gente é o dinheiro, pra eles é que nem um crack. No começo atraem você pro lado deles, fingindo que não querem nada, e depois cê já tá dando até o que não tem pra sustentar essa merda toda. Eles enchem o rabo de dinheiro à custa dos otários.

— Mais respeito.

— Foi mal aí, irmão...

— Pode dizer os desaforos que quiser, não vou brigar com você.

— É claro que não vai; isso não seria muito cristão da sua parte.

— Não, não seria.

— Do mesmo jeito como você quer me tirar de um caminho ruim, eu quero tirar você. Só não chegamos ainda a um acordo sobre qual de nós dois está na via errada.

— Então venha comigo no culto, daí talvez você enxergue as coisas de uma maneira mais clara.

— Você quer me arrastar pr’aquilo de todo jeito, né?

— Já disse, acho que Deus tem um propósito maior pra você.

— Tá bom, já chega. Agora vou-me embora mesmo, sem mais conversa.

— Espera.

— Orra, deixa eu ir de uma vez, cacete...

— Vamos fazer o seguinte: você vai comigo e, se não se sentir tocado pela Palavra, cê pode pendurar no meu nome o que você quiser daqui do bar. Otávio reflete por alguns segundos na proposta, então diz:

— Uma garrafa de Jack Daniel’s, pode ser?

— O que você quiser.

— E do contrário?

— Nada. Você deixar Jesus entrar no seu coração já é tudo o que eu quero.

— Certo, então vamos logo ver se Jesus consegue entrar neste coração bandido aqui. Ah, e vê se pelo menos chupa uma bala hortelã, pra disfarçar esse bafo azedo de pinga. Acho

que esse cheiro não vai cair muito bem lá dentro, entre os irmãos.

— Calma, ainda está meio cedo pra irmos. Espera um pouco.

— Tudo bem.

Seu Valdemar surge novamente pela porta sanfonada. Vidal dá um tapa no ombro de Otávio.

— Ouviu aí, Seu Valdemar? Hoje tô levando esse aqui comigo.

— Que bom.

— Bom mesmo, não é?

— Melhor pra mim, que só tenho visto sua conta aumentar e não tenho recebido um níquel de vossa excelência há quase dois meses, e agora ainda vou ter que te fiar mais esse uísque que custa cem reais a garrafa. Aqui que eu vou.

Otávio ri.

— Porra, Seu Valdema, cê não tem nenhuma fé em mim, não? Cê não acredita que o Filho do Homem possa entrar neste coraçãozinho aqui?

— Já te digo o que é que vai entrar aí. E vai entrar de baixo pra cima.

— Como cês chamam lá na igreja isso aí que o Seu Valdemar tá falando? Sodomia?

Vidal faz que não ouve a troça. Pergunta a Seu Valdemar:

— Comé que tá minha conta aí?

Ele apanha a ficha numa gaveta e, após fazer algumas somas na calculadora, mostra lhe o número no visor.

— É bom cê acertar esse negócio aí — Otávio diz —, pra você ter crédito pro meu uísque.

— Já tô com o dinheiro pra quitar tudo isso aí.

— Então cadê? — Seu Valdemar interpela.

Vidal tira a carteira do bolso, abre-a, puxa algumas notas de cem e joga-as sobre o balcão.

— Truco! — Otávio moteja.

O balconista recolhe o dinheiro e guarda-o na caixa registradora.

— Se tinha o dinheiro, por que não me pagou antes?

— Agora ele vai poder pegar meu uísque, né?

— Vai, vai...

— É, só que eu não paguei por causa desse uísque, porque estou certo de que nem vai ser necessário. — Vidal diz.

— Esse é um homem de fé.

Vidal vira o resto da cerveja e pede outra. Otávio, sentindo-se descompassado em relação ao colega, enche novamente o copo, toma um longo gole e deposita-o no mesmo ponto onde o apanhou, sobre o círculo marcado no balcão pelo suor da bebida. Tem ainda a lata pela metade.

— Já tá na hora?

— Só mais um pouco. Só terminar essa cerveja e nós já vamos.

O ambiente silencia-se. Otávio levanta a vista para o quadro pendurado na parede atrás do balcão, um pôster emoldurado do Santos campeão brasileiro de 2002. Apertando os olhos, lê os nomes escritos em letras miúdas abaixo da foto: Em pé: Alex, Preto, Pereira, Fábio Costa, Renato, Maurinho, Rafael, André Luís e Paulo Almeida; Agachados: Alexandre, Douglas, Diego, Michel, Robert, Willian, Léo, Robinho e Elano. Tenta repetir de memória os nomes, mas empaca no de Rafael. Lê de novo a legenda e repete o exercício, apenas para ver-se novamente embatucado após o nome de Maurinho. Olha para a parede à direita, onde há, pendurado acima da porta sanfonada, um quadro tosco de um pássaro de faces vermelhas.

— Ei, Seu Valdemar — Otávio diz, apontando para o desenho do passarinho —, se bem me lembro esse quadro não tava aí antes.

— Claro que tava, sempre esteve. Minha mãe pintou ele quando era jovem. Ela gostava de pintar, mas acho que nunca levou muito jeito prà coisa. Sempre que se perguntava onde ela tinha visto esse passarinho, a cada vez ela dava uma resposta diferente. Uma hora dizia que tinha visto numa revista, outra hora num cartão, outra hora nalgum programa da TV Cultura... Esse quadro tá pendurado aí desde o primeiro dia em que abri este bar. Não é nenhuma obra de arte, mas pelo menos serve como uma lembrança da minha mãe.

— E como chama? Acho que nunca vi um desses.

— O passarinho? Pintassilgo.

— Pintassilgo.

— Isso mesmo.

— Você tem mais quadros da sua mãe?

— Não, só esse. Depois que ela morreu, as coisas dela se espalharam entre meus irmãos e a parentada. E esse quadro só ficou comigo porque ela mesma tinha me dado. Não fosse por isso, eu não teria ficado nem com ele.

— Sinto muito.

— Não, tá tudo bem. Sou bem resolvido com as minhas coisas, não tenho problema nenhum com isso.

Com um arroto ruidoso, Vidal interrompe-lhes a conversa. Otávio olha-o assustado.

— Vamos então?

— Ô louco, cê já tomou a cerveja? Nem terminei a minha ainda.

— Então termine, que já tá numa hora boa de nós sairmos.

— Vou nem tomar, já até esquentou. Vamos embora. Té mais, Valdema, já deixe meu uísque aí no jeito, que eu quero pegar ele já na volta.

Vidal apanha a bíblia no balcão, segura-a debaixo do braço, tira uma bala do bolso, descasca-a e mete-a na boca. Otávio acende um cigarro. Saem do bar e põem-se a caminhar rua acima.



Na igreja, acomodam-se numa das últimas fileiras. Do assento, Vidal cumprimenta alguns conhecidos que passam pelo corredor:

— A paz de Deus.

Otávio ouve a frase ser repetida um sem-número de vezes por todo o recinto, alguns pronunciando-a pausadamente e articulando todas as sílabas com diligência sobeja, outros soando como falantes nativos de algum idioma rudimentar, como se fossem os últimos membros sobreviventes de um povo inaudito, incapazes de falar sem o acento oriundo dessa língua primitiva, tão árida quanto esses homens que, por alguma razão, insistem ainda em cultivá-la. Àqueles que se lhe dirigem, Otávio responde:

— Beleza, irmão.

Tal resposta soa a Vidal como uma provocação tácita. O colega não o percebe e continua a responder-lhes invariavelmente da mesma forma. Minutos passam, as saudações vão e vêm, o último irmão acomoda-se. Silêncio.

Otávio sente as pálpebras pesarem; a estafa do dia e o efeito do álcool começam a pô-lo sonolento. O pastor diz as primeiras palavras:

— Deus seja sempre louvado.

Ao que todos respondem em uníssono:

— Amém.

Otávio cabeceia, assusta-se com o próprio movimento, esforça-se para manter-se desperto. Vidal percebe-lhe a languidez, dá-lhe umas cotoveladas; mas ele tenta debalde lutar contra o sono.

O culto transcorre ao largo de sua luta interna. Entre uma pescada e outra, ele pega algumas palavras e frases dispersas: Seu povo... A misericórdia... Que sempre vem para... Dever... Cumpriremos... Cidadão indo... Necessário... Glória a Jesus... Irmãos e irmãs... Perto do fim, acorda com um grito de Glória! e ouve o pastor dizer as últimas palavras:

— Que a Paz de Deus, a comunhão do Espírito Santo e o Santo Conselho da Sua Palavra permaneçam em nossos corações.

— Amém.

Os dois são os primeiros a sair da igreja. Do lado de fora, recobrem-se dos andrajos da escuridão exterior, ligeiramente atenuada pela luz débil dos candeeiros públicos.

— Você também não deu sequer uma chance, não é?

— Pelo jeito você já sabe que perdeu.

— Eu não perdi. Na verdade, nem tive a chance de lutar.

— Que triste. Peça à Nossa Senhora que interceda por mim. Bom, chega de conversa. Pro bar.

— Vai você, eu vou embora. Seu Valdemar já sabe do arranjo, cê não precisa de mim lá. Pegue seu uísque ou seja lá o que você queira e vá para o diabo.

— Já estou indo. Até a próxima.

Otávio segue de volta ao bar do Acampamento. Vidal vai pela direção oposta. Alguns irmãos aglomeram-se na calçada.


*

No caminho para casa, carregando a garrafa numa sacola plástica, ele tropeça numa pedra e quase cai. Recompõe-se e então lembra-se de uma piada de bêbado que lhe contaram muito tempo atrás, que terminava com o bêbado dizendo: — Merda, pensei que fosse sangue... Ele mentaliza a imagem e chega a rir-se sozinho do chiste. Sentindo um pouco de vergonha de si mesmo ao perceber-se rindo sozinho como se fosse um gira, adota expressão grave e aperta o passo. Ao chegar a casa, guarda o uísque no armário da cozinha e vai para o quarto. Despe-se e deita-se de bruços na cama. Mas agora o sono lhe custa a chegar. Esse calor não me deixa dormir, pensa. E, por um segundo, quase chega a acreditar nisso.


*


No dia seguinte, pela manhã, enquanto espera na portaria da fábrica o horário para marcar a entrada no relógio de ponto, ele pesca uma conversa entre dois colegas que estão na ponta da fila:

— Pois é, ouvi um dos vizinhos comentando mais cedo, pouco antes de sair de casa. Parece que o cara se matou mesmo.

— Que coisa. Se matou como?

— Estourou os miolos.

— Espingarda?

— Revólver, parece.

— Puxa vida. Ah, deve ter sido por causa de mulher, certeza.

— Ah, certeza. Foi por causa de mulher.

A conversa atiça-lhe a curiosidade, mas o relógio bate cinco para as sete e a fila começa a andar, os de trás alheios a tudo, apenas esperando sua vez de passar o crachá no leitor do relógio e retirar o comprovante de entrada, os da frente pondo-se a caminhar em passos modorrentos até o posto que os espera, como forçados perpétuos de uma colônia amorfa e remota. Ele segue-os em sua marcha e ruma para sua peleja diária.

A jornada corre como qualquer outro dia normal de trabalho, exceto pelos comentários que se fazem aqui e ali sobre o caso de suicídio. Mas ninguém chega a mencionar o nome do infeliz que deu cabo da própria vida. No horário de almoço, Otávio, já impaciente, chega a intrometer-se na conversa de dois colegas que estão a dividir a mesa consigo:

— Alguém sabe quem é o cara que se matou?

— Hum, parece que falaram o nome dele... Deixa eu ver... É alguma coisa com Valdo, parece.

— Edivaldo? — o outro colega diz.

— Não, não era isso. Tinha alguma coisa com vê. Lembra aí um outro nome com vê.

— Valdir?

— Não.

— Valdinei?

— Merda, não.

— Vidal? — Otávio diz.

— Isso, isso mesmo. Vital. Era esse o nome. Igual o personagem da música.

— Não. O nome dele era Vi-dal.

— O cara da música ou o que se matou?

Otávio solta um suspiro de irritação.

— Cê conhecia ele? — o outro colega pergunta.

— Só de vista.

— Sei. E ele tinha família, era sozinho...?

— Ele não tinha ninguém.

— Nem pai, mãe, mulher...?

— Ninguém.

— Nossa, que triste. Pra onde será que vão mandar ele?

— Não faço ideia.

Otávio afasta-se na cadeira.

— Depois de morto — o primeiro colega diz —, o lugar onde tá o corpo já pouco importa. Se cavarem um buraco em qualquer lugar e jogarem ele dentro, não vai fazer diferença nenhuma prà alma dele.

— Também não é assim... — começa a objetar o outro colega.

Por alguns segundos ele ainda os ouve prosseguir naquele colóquio lúgubre. Na pressa de deixar logo aquela mesa, levanta-se sem apanhar a bandeja e sai.

À tarde passa no bar do Acampamento. Senta-se ao balcão. Seu Valdemar recebe-o de forma melindrosa.

— Sinto muito pelo seu amigo.

— Ele não era meu amigo. Meus amigos não são doentes da cabeça.

— Sei. Mesmo assim, é sempre triste quando um rapaz novo como ele se mata desse jeito...

— Se você acha que eu devo chorar por ele, fique sabendo que não vou...

— Tudo bem, você não tem obrigação...

— ...E se acha que devo estar de alguma forma triste, é bom saber que não me abati nem quando passei por coisas mil vezes piores.

— Certo, cada um se estrangula da forma como achar melhor.

— É isso aí.

Seu Valdemar serve-lhe a cerveja preta habitual. Otávio toma um gole e retém a vista na janela. Um caminhão de mudança passa pela estrada, reduzindo a marcha no aclive e subindo vagarosamente em direção ao Bairro de Cima. Ainda que não possa ver os móveis dentro do baú, ele consegue, de alguma forma, imaginá-los exatamente como estão dispostos lá dentro. Segue acompanhando o caminhão com a vista.

— Ele deu o tiro onde? Foi na boca? — pergunta, sem tirar os olhos da janela.

— Na têmpora, parece. Ele fez de madrugada, pelo que disseram. A rapaziada desceu no pinal de manhã para trabalhar e deram com ele já frio lá no meio das árvores, a arma caída do lado. Tava ainda com o terno.

— O ferimento tava do lado direito ou esquerdo da cabeça?

— Acho que do lado direito, sei lá. Mas que diferença isso faz?

— Se bem me lembro, Vidal era canhoto. Joguei sinuca com ele uma vez, ele segurava o taco com a mão esquerda, não com a direita.

— Então ele deve ter dado o tiro na têmpora esquerda mesmo. Mas se o tiro foi na direita, também não quer dizer nada. Esse rapaz sempre fez tudo pelo avesso. Calam-se. Seu Valdemar põe-se a enrolar um cigarro, então prossegue:

— Viver é que nem estar numa luta de boxe: a gente treina, vai, sobe no ringue, leva uma na fuça, toma um knockdown e fica ali na contagem do juiz, então levanta, enfrenta de novo, toma outra, vai prà lona de novo... até a hora em que a gente cai e o juiz chega na contagem de dez, e é o nosso fim. Bem, acho que uns podem perder por pontos, como foi o caso do meu avô, que morreu com cento e poucos anos e, até onde eu sei, não sofreu muito durante a vida. Mas, no fim das contas, todo o mundo perde. Posso soar insensível dizendo isso, mas o Vidal foi só mais um de tantos.

— Você já lutou?

— Já treinei, muito tempo atrás, lá em São Paulo. Quase cheguei a competir como amador, mas no meio do caminho percebi que seria melhor tentar ter um trabalho normal; eu não era tão bom no boxe, e vendo o exemplo de uns outros por aí, percebi que o boxe também não seria muito bom pra mim.

— Sei. Mas, sobre o Vidal, não acho que ele tenha perdido por pontos, como você diz, nem acho que tenham chegado a abrir contagem pra ele...

— Também há quem perca por nocaute técnico. Talvez o Vidal seja um caso desses. Sei lá, isso não tem importância.

— É, essa analogia é bem idiota.

Seu Valdemar acende o cigarro e diz, encarando Otávio:

— Vai fazer o que com o uísque?

— Ora, vou beber. Que foi? Acha que olhar pr’aquela garrafa vai me fazer ter algum drama de consciência?

— Não, só perguntei.

— Pois já tem a resposta.

Dá uma tragada e solta-lhe a fumaça na cara. Otávio abana o rosto com a mão e, agora titubeante, diz, amainando o tom:

— Mas você sabe se teve um motivo específico pra ele ter feito o que fez?

— Quem sabe? Que ele não tava bom da cabeça, isso já não era de agora.

— É, ele tava bem abilolado mesmo.

Olha novamente pela janela, procurando o caminhão, que já sumiu de vista. Seu Valdemar reflete:

— A esta hora o corpo dele estar lá no IML, e só Deus sabe até quando. O miserável era sozinho de tudo, não há um filho de Deus pra fazer o reclame.

— Acha que ele pode ter morrido por isso?

— Por ser sozinho no mundo? Talvez. Não consigo me imaginar no lugar dele.

Otávio puxa o maço de cigarros do bolso.

— Porra... Morrer do jeito que ele morreu ainda é mais triste do que viver na merda.

— Você sabe? Posso dizer que eu não sei.

— Bom...

Após um instante de hesitação, Otávio diz:

— Vi que ele acertou com você tudo o que devia... Ficou só aquele uísque, não é?

— Isso mesmo.

— Deixa que eu pago. Quando eu for acertar minha conta com você, pode somar aquela garrafa junto.

— Não, não precisa...

— Precisa, sim. Faço questão.

— Já disse que não precisa. Deixa isso pra lá.

— Que seja, então. Quando você somar minha conta, eu mesmo acrescento o valor da garrafa.

— Então vou deduzir cem reais do total da sua conta.

— Porra, que complicação. Pra que tanto malabarismo assim só pra enjeitar dinheiro?

— Diga você.

— Dizer o quê? Acha que tenho algum motivo especial pra isso? Só quero te pagar porque acho que é o certo.

— Pois eu, por meu lado, não acho que o certo seja cobrar de você a pendência que ele tinha comigo.

— Ah, chega. Você vai receber e pronto. E vá se foder.

Seu Valdemar ri. Otávio levanta-se e vai até o banheiro. Após urinar no mictório, volta ao balcão e vê o balconista sumir-se pela porta sanfonada. Dois colegas seus de trabalho entram no bar. Um deles acena-lhe com a cabeça e diz-lhe alguma coisa. Ele responde:

— Beleza, irmão.

Lança um olhar para fora e vê dois rapazes de terno subindo a rua, um deles carregando um case de trompete.

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