3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | Ivana Mayrink (Categoria Conto)

SOBRE A AUTORA:
Ivana Mayrink é graduada em letras e possui especialização em gramática tradicional e escrita científica. Leciona e escreve. Apesar de um olhar técnico e crítico sobre as letras, produz contos intensos, profundos e subjetivos premiados e publicados no Brasil e no exterior. Já foi premiada e reconhecida nacional e internaciolmente pelos seus contos e crônicas.
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O TEXTO:
Domingo
Eram três horas de um domingo que não terminava nunca, um desses dias vastos e ocos em que o tempo não flui: se acumula como uma água parada, pesada e podre no fundo de um poço esquecido. O relógio na parede marcava a insistência de um segundo que se repetia, estéril. O sol batia na parede da sala com uma precisão cirúrgica, uma claridade branca e impessoal que não aquecia a pele, apenas revelava, com a crueza de um necrotério, a anatomia das coisas mortas: a poeira, afinal, era a única entidade que realmente trabalhava ali, dançando em colunas de luz sólida sobre o vazio solene dos móveis. Eu observava aquele balé de átomos sujos e percebia que a vida, em sua essência, era aquele movimento desatento e sem propósito.
Baixei os olhos e olhei para as minhas mãos repousadas sobre os joelhos. Elas estavam lá, presentes com uma obviedade obscena, não eram minhas; eram objetos estranhos de carne e osso expostos ao desgaste do oxigênio, ferramentas desempregadas, exaustas de uma função mecânica que eu já não lembrava qual era — seriam elas para acariciar ou para ferir? Pareciam garras de um animal que morreu antes de conseguir atacar. Senti então, com uma lucidez fria que beirava o crime e a loucura, que o meu "querer" havia secado por completo, como uma planta que, de tanto ser esquecida no canto de um quarto escuro, desiste finalmente de buscar a luz.
Não era tristeza, a tristeza ainda é um sentimento ocupado, uma forma ruidosa e vaidosa de se importar com o mundo. O que eu habitava era um vazio branco e absoluto, uma ausência de fome existencial que se estendia das pontas dos dedos até o âmago poroso da medula. Era o horror de uma liberdade sem nome: eu não precisava de nada porque eu não era ninguém. O esforço de manter uma coerência, de sustentar um nome e um passado, havia desmoronado. Eu havia, finalmente e com um alívio aterrorizante, parado de me inventar para os outros e para mim mesma. Sobrou apenas a coisa, o bicho, o mineral.
O silêncio, que em minha ignorância eu supunha ser apenas a ausência de som, um nada dócil onde eu poderia finalmente descansar, revelou-se, na verdade, uma matéria densa, uma substância gelatinosa e quase sólida que preenchia os cantos do quarto. Ele tinha textura, tinha um cheiro de mofo e de eternidade que me sufocava. Foi subitamente interrompido por um som mastigado, lúgubre e rasteiro, vindo diretamente de cima: o vizinho arrastava um móvel. Era um ruído seco e áspero de madeira bruta ferindo o assoalho, um lamento de fibras sendo arrastadas contra a vontade. Aquele som denunciava o esforço físico e muscular de alguém que, do outro lado do teto, ainda possuía a coragem de acreditar que mudar a posição de um sofá ou de uma mesa pesada alteraria, por milagre, o peso insuportável da própria existência.
Aquele barulho de "vida acontecendo", de uma vida insistente e suada, entrou pelos meus ouvidos não como um corpo estranho, uma agulha de metal frio perfurando a minha passividade. Era uma agressão puramente biológica; cada rangido era uma célula alheia que tentava se hospedar na minha própria carne. Eu não suportava mais a ideia que agora se tornava uma náusea física de que, a poucos metros de mim, existia o peso dos músculos, a fadiga do fôlego, a vontade obstinada e a esperança quase obscena de uma nova arrumação doméstica. Era ridículo que alguém ainda tentasse organizar o caos com as mãos. O atrito do móvel no chão era o som da esperança humana, e a esperança, naquele domingo, soavame como uma violência sem sentido.
Aquele contato indireto com o desejo alheio me expulsou do meu próprio centro. Eu precisava urgentemente de um vácuo maior, uma distância astronômica onde o meu silêncio não fosse mais agredido pela relevância barulhenta e inútil da vida de terceiros. Eu queria a mudez das pedras, não a fala dos objetos arrastados. Meus dedos, agora independentes de mim, tatearam a superfície da mesa e pegaram a chave — um pequeno objeto metálico, frio e indiferente, cujos dentes já não pareciam ter a função de abrir porta alguma para o mundo, cruelmente serviam apenas para ferir, com uma pontada seca, o tecido do meu bolso e a pele da minha coxa. Eu saí de casa como quem foge de um incêndio invisível. Não caminhei por vontade: fui cuspida para fora pela impossibilidade metafísica de continuar sendo a testemunha muda, a espectadora paralisada e inútil do movimento incessante e circular dos outros.
Ao pisar na calçada, a luz do sol não me acolheu; foi, antes, um tapa seco e amarelado no rosto, uma claridade vertical e impiedosa que exigia de mim uma resposta vital, uma prontidão para o dia que eu simplesmente não possuía. O mundo lá fora estava saturado de uma existência gritante, uma nitidez que beirava a alucinação. E ali, plantado no meio daquele fluxo de gente que fingia ter destino, estava ele: um vendedor de balões coloridos, um homem cuja pele curtida parecia moldada com o barro das primeiras eras e uma urgência animal, primitiva, de quem ainda briga com a fome. Ele vendia objetos; ele proclamava, em cada gesto brusco e suado, a sua própria e teimosa sobrevivência.
Naquele instante, ele ria para uma criança com uma gargalhada visceral que parecia brotar diretamente do estômago, um som tão saturado de vísceras, de hálito quente e de dentes expostos que me fez recuar fisicamente, como se aquela alegria fosse um golpe de ar sujo. Era um riso que fedia a vida, um ruído humano demais para a minha atual transparência de vidro. Olhei, hipnotizada pelo horror, para os balões que ele balançava no alto; esferas de plástico barato, tensas, infladas com o fôlego humano expelido com esforço e amarradas por fios precários que qualquer brisa poderia romper. Aquela vitalidade toda, exibida sob o sol de domingo, era para mim uma obscenidade, uma falta de pudor diante da morte silenciosa de todas as coisas.
O riso daquele homem era uma manifestação de confiança cega e quase insultuosa na continuidade do dia, na crença de que o amanhã seria um fato e não uma hipótese. Era uma palhaçada trágica e barulhenta de quem, ocupado demais com a tarefa de respirar e vender, ainda não havia percebido que o circo inteiro já ardera até as cinzas e que estávamos todos apenas brincando sobre os escombros. Para ele, o mundo ainda se apresentava como uma massa sólida, tangível, feita de moedas e desejos; para mim, o mundo havia se tornado um vidro fino e estilhaçado, um chão de fragmentos cortantes que eu pisava com os pés descalços da alma, mas sem sentir dor alguma, pois a anestesia do meu próprio vazio era maior que qualquer ferimento.
Foi naquele exato átimo de segundo, sob a luz crua que não perdoava sequer as fendas das pedras, que a máscara de gesso, aquela construção milimétrica de gestos, nomes e sorrisos que eu chamava de "eu", finalmente ruiu e se desfez em pó. Não houve estrondo, apenas o silêncio de uma estrutura que desaba por cansaço da própria forma. Senti, com uma clareza física que me dava náuseas, o farelo seco da minha identidade caindo em flocos invisíveis sobre o chão sujo da calçada, misturando-se aos detritos do domingo, às cinzas de cigarros e ao cuspe da cidade. Eu estava me esfarelando publicamente, mas ninguém via, porque o mundo só enxerga o que tem contorno. Sob o olhar daquele vendedor: um olhar faminto, prático, que precisava desesperadamente de substância e de humanidade para extrair o pão e o sustento da vida — eu perdi, por fim, a última camada de fingimento que me restava. O olhar dele funcionou como um ácido que dissolveu a minha superfície. Eu não era mais "alguém", aquela entidade social que passeava com um propósito ou um destino; eu havia me tornado a própria calçada áspera sob os pés alheios, o ar quente e estagnado que vibrava de cansaço entre os carros metálicos, o fio de nylon invisível e tenso que tentava, sem sucesso, segurar o nada absoluto contido dentro dos balões.
Tornei-me, enfim, um objeto anônimo entre objetos mudos, libertada da condenação atroz de carregar um nome, uma história e uma face. Era a paz terrível das coisas que não precisam explicar a própria existência. O vendedor, percebendo que em mim não havia onde ancorar o seu comércio, desviou o rosto com uma indiferença mineral, gritando novamente para o céu o preço da sua alegria plástica e barulhenta. Ele passou por mim não como se passa por uma mulher, foi como se atravessa um vácuo, um espaço de ar onde não há resistência nem eco. Ele seguiu sua marcha de sobrevivência e eu, o que sobrou de mim, fiquei. Permaneci ali, absolutamente imóvel, sem o peso da vontade para me mover. Eu era agora uma coisa puramente mineral, uma substância inerte exposta ao sol impiedoso de domingo, finalmente vazia, finalmente desocupada de mim mesma, sem a angústia de ser e sem a fadiga de ter que continuar parecendo humana. A vida, essa estranha ocupação, havia se retirado de mim como uma maré que deixa para trás apenas uma concha seca e oca.





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