3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Edmar Salles (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Edmar Salles.
Jornalista de origem, diretor de arte, cronista inoportuno, escritor inédito, filósofo de botequim.
O TEXTO:
Stregone, o adivinhador.
O sorridente Zio Pasquale era uma espécie de showman da família. Encanador de profissão, tinha um dom incomum difícil de descrever. Visionário, profeta, cabalista, astrólogo, não sei dizer o que era. Digamos que era um adivinhador.
Fazia um único tipo de previsão mas nunca, jamais errou um resultado.
Para os parentes era o zio stregone, o bruxo.
Não havia ultrassom naqueles tempos e o sexo da criança só era conhecido depois de parida. Não para quem consultasse o Zio Stregone. Não cobrava pelo trabalho.
Pedia apenas uma dose antecipada de caninha.
Chegava vaidoso de seus dotes, tirava o paletó, ajeitava os suspensórios e virava o copinho de um gole só para iniciar o trabalho. Tirava um caderninho preto do bolso da camisa e fazia uns dez minutos de cálculos.
Somava as letras do nome do pai com as letras do nome da mãe, diminuía o tempo de gravidez, mais isso, menos aquilo, dividia por tanto, multiplicava por não sei quanto, contava as luas, somava os astros, dividia tudo por treze e, convicto, dava o veredito final.
- É maschio. - É femmina.
Não errava uma. Guardava no caderninho cálculos datados de cada previsão para
esfregar na cara de quem ousasse de duvidar dele. Estavam todos lá, décadas de acertos. Nunca revelou a ninguém o segredo da sua habilidade, nem onde e com quem aprendeu.
Corria na família um boato, nunca confirmado, que ele tinha um caso com uma cigana da Mooca.
Quando eu nasci ele já tinha calculado com precisão o sexo de todos os sobrinhos, netos e bisnetos, inclusive o meu, dos meus irmãos e de uma centena de vizinhos. Acertou todos na mosca.
Antonella, a sobrinha bisneta predileta do Zio Pasquá engravidou. Missão honrosa para o stregone.
Orgulhoso dos seus poderes mágicos caprichou nos cálculos. Fez e refez cem vezes antes de se pronunciar e, assumindo ares de sacerdote celta, vaticinou seguro:
- É donna, femmina, una bambina.
Alguns meses a criança nasceu.
Maschio, uomo, bambino.
A mãe ficou feliz assim mesmo mas o zio enlouqueceu.
Voltou ao caderninho e refez os cálculos.
Dez, vinte, cinquenta, mil vezes. Dava sempre menina.
Pasquale pirou.
Teria a velhice afetado sua habilidade? Seria efeito da inofensiva cachacinha? Para onde iria sua reputação agora? Antonella tentou confortar o tio bisavô.
- Vai se chamar Pasquale em sua homenagem, zio.
Nada o consolou. Pasquá ateve-se aos cálculos até a loucura. Morreu humilhado um ano depois, segurando o caderninho preto ao lado de uma montanha de números esotéricos.
O menino cresceu forte, alto, bonito, cabelos negros e longos. Diferenciado, refinado, encantava as mocinhas, tinha algo que os outros rapazes não tinham.
No dia em que completou 17 anos resolveu fazer uma surpresa para a família.
Retirou-se da festa e voltou 40 minutos depois. Montado.
Vestia um longo branco bordado em paetês e aberto nas coxas, brincos luzidios que tocavam os ombros, um colar de pérolas com várias voltas que chegavam ao umbigo visível no decote ousado, sapatos vermelhos salto agulha, echarpe de plumas vermelho rubi envolvendo o pescoço, longos cílios negros, sombra cintilante nos olhos e na boca o vermelho exuberante, que décadas depois seria descoberto pela Paloma Picasso.
Um blues de boate de terceira envolvia o desfile.
Movendo-se sensualmente, dirigiu-se aos pais, avôs e tios reunidos na sala e
anunciou.
- Signore e signori, vi comunico che Pasquale è morto.
Al suo posto è nata una stella, Pasqualina.
Foi um choque. A família nunca suspeitou de nada.
O pai enfartou. Agonizando os braços da patroa, pronunciou suas últimas palavras.
- Porca puttana, lo stregone aveva ragione.





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