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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Selma Mottin (Categoria Crônica)

há 1 hora
3 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Selma Mottin é paranaense, radicada em Curitiba. Por mais de três décadas, atuou como professora de Produção Textual em curso preparatório para vestibular. Em 2016, publicou seu primeiro livro: “Café com leite quente” ( crônicas), pela Arte e Letra. Desde então, participou de várias coetâneas, aventurando-se em diversos gêneros literários. Ler e escrever são suas grandes motivações cotidianas.



O TEXTO:


Lourdes Maria

Instalado – estrategicamente – bem no centro do ônibus biarticulado, ele podia ser ouvido por todos os passageiros. Chamou-me a atenção a desenvoltura com que se comunicava. Ele era jovem, uns trinta anos talvez, e não enxergava (os olhos esbranquiçados corroboravam-lhe a fala). Faz alguns anos que o vi pela primeira vez. Narrava a própria história sem pressa, muito mais interessado em descrever todos os detalhes de como enfrentara a cegueira, de como continuara a viver apesar dela, do que propriamente em convencer as pessoas a lhe cederem algum pequeno valor. Na narrativa, havia dor. Havia mágoa. Mas também dignidade e amor ao próximo.

Preocupava-me o passar das estações de desembarque sem que ele se mobilizasse efetivamente a receber as doações. Fazia questão de aconselhar os diabéticos, como ele, a tomarem cuidados que ele próprio não tomara. A cegueira o atingira aos poucos e não o impedira de se casar e de ter a filha, Lourdes Maria, de quem falava como quem exibe um troféu à multidão. Só depois de muitas estações percorridas, passava a se locomover pelo coletivo e a recolher as moedas que lhe eram oferecidas.

A palavra possivelmente fosse o instrumento com que ele aliviava a angústia, e o ônibus, o divã a que ele tinha acesso. Lembrei-me de Borges, de Andrea Bocelli, de Ray Charles e fiquei imaginando outros destinos possíveis para aquele homem que falava com tanta propriedade. A arte como caminho. Como saída redentora que tantos encontram. Lembrei-me de Saramago e de seu “Ensaio sobre a cegueira” e desejei que, como no romance, a escuridão vivida por esse homem, que me provocava grande compaíxão, voltasse a ser luz.

Voltei a vê-lo ontem. Embora os olhos alvacentos agora estivessem cobertos por óculos escuros, reconheci-o imediatamente. Nas pernas, expostas por uma surrada bermuda, cicatrizes muito visíveis, recentes – sinal de que o diabetes permanecia implacável. Percebi, logo ao entrar no biarticulado, que o relato já estava em andamento. Era o mesmo de anos atrás. A forma de conseguir os trocados, porém, havia mudado. Agora ele vendia capinhas de celular e outros pequenas bugigangas, e o pagamento podia ser feito por pix, cujo número constava em um papelzinho afixado nos objetos. Continuava com a mesma calma: primeiro a narrativa, depois, bem depois, a mobilização para a venda. Era o que mais me impressionava.

O que daria sentido àquela vida fatigante, que precisa se valer das próprias feridas para obter a sobrevivência? Mas qual é mesmo o sentido da vida? O que nos motiva a sair da cama todos os dias, em situações muitas vezes adversas como aquela? E a engolir sapos, bois, rinocerontes?

Desta vez, não peguei a narrativa a tempo de ouvir a menção à filha. Sim, a filha! Talvez a chave para decifrar o enigma que agora me atormentava. “Qualquer amor já é um pouquinho de descanso na loucura” afirma a sabedoria roseana expressa pelo matuto Riobaldo e se aplicava com perfeição ao caso. Conforta-me um pouco saber que o jovem privado de enxergar tem a quem amar e que provavelmente é amado. Senti vontade de perguntar de Lourdes Maria. Se estava bem. Com quantos anos. Senti vontade de fazer algo por aquele ser humano. Minha estação, entretanto, já se aproximava e eu precisava, de fato, desembarcar. Comprei uma capinha de celular e saltei.

Uma chuva abundante criava sobre Curitiba o mesmo véu cinzento que os moradores conhecemos bem. Observei, porém, de modo que talvez nunca o tenha feito, os guardachuvas coloridos que passavam – azuis, amarelos…, as roupas de variados tons – vermelhas, marrons…

Ver era um privilégio. Como amar e ser amado.

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