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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Fabíola Terra (Categoria Crônica)

há 56 minutos
2 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Nasci no Mato Grosso do Sul, estudei em Minas Gerais e moro em Sertãzinho, SP. 

Trago comigo, um pouco de cada lugar por onde passei.  

Sou pediatra por formação e fotógrafa por diversão. Nos rios da Amazônia encontrei outras partes de mim ao atender crianças ribeirinhas.

Escrevo para juntar, transformar e guardar essas partes.



O TEXTO:


Urucuia

Da ponte, eu vi. Ele vinha sucurizando, água abaixo, cheio, enchuvarado, avermelhado. Era da cor do urucum, do barro que se levantava revirado e tingia a corredeira. Desci do carro, porque, mais do que ver, queria sentir. Estar naquele lugar era como ser cúmplice e personagem, não de uma história, mas de um acontecido de tempo passado. A estrada vazia. O silêncio, quase inteiro. Só um ou outro som barulhava o céu. O beiral da ponte me separava da vontade de entrar no frescor da correnteza. Ela não parava de passar, e eu não cessava de pensar. Aquele monte de água estava inteiro ali, pertinho de mim, e materializava, turvado, tudo o que eu havia imaginado desde que o conheci, viajando pelas páginas do livro. Naquele momento, quando falei em voz alta para confirmar o real, o nome soou mais bonito, mais forte, mais rio.

Tímido no começo, raro de caudal, vinha córrego, nascido nos chapadões. Até chegar naquelas bandas, tinha cruzado fronteiras, alargado seus barrancos, se ajuntado de outros como ele. O destino era infindo e jurado, sem nunca ser mudado. O velho Chico o esperava todos os dias, todas as horas. E ele ia, ia, ia. Ia água, ia lama, ia peixe, ia gente.

Passei um tempo no encanto, vendo todas as canoas que já haviam levado e trazido almas de um lugar para o outro. Elas continuavam lá, abaixo, acima, de travessia. Não era todo mundo que via, só quem tinha olhos de ver, como eu. Eram jagunços, vaqueiros, mulheres e crianças. Seguiam rumando vida, canoando sonhos, procurando veredas e buritizais para fincarem morada.

De tão enriozante que era, o povo de suas margens era chamado de “urucuianos”. Não eram apenas ribeirinhos, tinham nacionalidade própria. Viviam com ele, na seca e nas cheias. Acompanhavam suas mudanças, seguiam sua fluência pelas sombras dos buritis, nos sumidouros, na Pedra do Escorregador. As cidades que o recebiam bem no meio delas sentiam orgulho de serem donas.

Nas beiras, abraçando tudo, no longe, as gerais corriam perpétuas. A do Cipó era a mais valente. Alta, coberta de verde, vez ou outra mostrava o vermelho do chão. De um lado e do outro, cuidava do curso d’água. O cerrado crescia depois das chuvas e cobria a imensidão. Nas macegas, no chão ensombrado do pequizeiro e nos pés de fruta-de-lobo, o sertão renascia.

Engrandecida de ideia, de torrente e de infinito, cruzei a ponte para a volta da minha vivência, mas a vontade era seguir a serra, subir o chapadão, escurecer na noite do cerrado e ouvir o uivo do guará. Depois, virar rio e, com o Urucuia, desaguar eterna.

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