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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Vera Lúcia de Athayde (Categoria Crônica)

há 2 horas
2 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Vera Lúcia de Athayde é pedagoga, especialista em Alfabetização e Psicopedagogia, e dedicou 36 anos de sua vida à Educação, atuando como professora, diretora e supervisora de ensino. Foi após a aposentadoria que descobriu uma nova paixão: a escrita. Desde então, transformou memórias, afetos, cotidiano e recomeços em crônicas, contos e histórias infantis. Escritora de maturidade e de coração, acredita que nunca é tarde para descobrir novos caminhos — e encontrou nas palavras uma forma de revisitar a vida, reinventá-la e compartilhá-la com os leitores.


O TEXTO:


O som da saudade

Tantos anos ouvindo as vozes, os risos e, vez ou outra, o chorinho matinal das crianças na escola, que o silêncio, agora, me incomoda.

Sentada em minha sala, sempre tão próxima ao pátio ou ao playground, acostumei-me àquela sinfonia infantil que preenchia os dias com música e movimento. Era como viver cercada por borboletinhas tagarelas, que dançavam em bando pela escola, em revoadas de cores e sons.

A aposentadoria é boa, não nego. É um prêmio por tantos anos de dedicação. Com ela vieram viagens sem pressa, cochilos sem culpa e tardes com amigas queridas. Mas também veio ele: o silêncio. Esse companheiro teimoso que, mesmo após oito anos, ainda me estranha — ou sou eu que ainda estranho a presença dele?

Talvez, já prevendo esse vazio sonoro, eu tenha escolhido morar exatamente onde moro: em frente a uma grande escola de Educação Infantil. Coincidência? Nada. Foi intuição de alma educadora, que pressente a falta antes mesmo que ela se instale.

Nos dias em que a casa está silenciosa demais — quando os netos já voltaram para suas rotinas e os cantos infantis se esvaem pelos corredores da lembrança — eu me sento na varanda. Basta isso. Em pouco tempo, algum som familiar me alcança: uma professora conduzindo seus pequenos pelo jardim, parecendo liderar um bando de passarinhos animados; ou o eco alegre que vem do ginásio, onde alguém comanda uma brincadeira que termina em coro e gargalhadas.

Há também o outro lado dessa rotina tão minha: o choro de quem não quer entrar na escola, seguido da voz paciente da mãe tentando convencê-lo. Tão familiar… tão íntimo. Esses sons, que outrora faziam parte do meu cotidiano profissional, hoje são bálsamo para minha alma de ex-diretora, ex-professora — mas eterna apaixonada por esse universo de descobertas e afeto.

Em julho, meus netos estiveram por aqui, enchendo a casa de risos, brinquedos espalhados e muitos abraços. Mas, como tudo o que é bom, passou depressa. E o silêncio, sempre à espreita, voltou a se instalar.

Felizmente, ele nunca fica por muito tempo. Logo as férias escolares terminam e a vida ao redor da escola recomeça. Os sons voltam. Os risos, os passinhos apressados, os cantos improvisados… E eu respiro aliviada, porque sei: enquanto houver uma escola por perto, jamais estarei totalmente só.

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