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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Bruna Tang | 3º lugar — Categoria CRÔNICA



A CRÔNICA VENCEDORA:


A Morte Me Segue no Instagram (e curte tudo que eu nego sentir)


 

Tem gente que diz que a morte é um tabu.

Eu discordo. A morte é uma stalker.

Silenciosa, obsessiva, e com tempo livre suficiente pra acompanhar cada passo meu — inclusive aqueles que eu dou só mentalmente, deitada, suando frio em crises existenciais que começam com um “será que tranquei a porta?” e terminam com “será que já vivi o suficiente pra morrer com dignidade?”

Ela não tem pressa.

Mas tem pontualidade britânica.

A morte é uma velha conhecida. Eu e ela já nos cruzamos em vários momentos: num quase afogamento, num acidente de carro, num gole errado, num exame de sangue que veio com asterisco.

Ela nunca vem sozinha. Sempre manda primeiro um spoiler: uma tontura, um medo inexplicável, uma mensagem do laboratório pedindo pra “repetir os exames com urgência”.

 E mesmo assim, eu finjo que não a vejo.

Bebo mais vinho.

Posto um story com frase de Clarice Lispector (que talvez seja da Inês Brasil, ninguém mais tem certeza).

E sigo.

Porque o mais assustador da morte não é ela chegar. É a vida continuar depois.

 Depois da morte dos outros, claro.

 A primeira vez que vi alguém morto eu tinha uns 11 anos. Era um vizinho. Caixão aberto, velório abafado, cheiro de flor e lágrima disfarçada. Lembro que a única coisa que pensei foi: “Ele tá com a cara muito diferente.” 

 Ali começou meu medo de morrer feia.

Sério.

Antes de pensar na alma, no destino, na herança genética, no testamento emocional… eu pensei: e se eu morrer num dia ruim de cabelo? 

Ao longo da vida, a morte foi mudando de papel.

Na adolescência, ela era drama. Aquela presença gótica que te espreitava quando o paquerinha não atendia o telefone fixo. Nascia ali o flerte com a tragédia: “Ai, se eu morresse agora, ele ia se arrepender TANTO…”

Na juventude, ela era distraída. A gente furava sinal vermelho, bebia vodka com Fanta Laranja, andava de moto com gente sem capacete e jurava que era imortal.

A morte, nessa fase, era uma hipótese longínqua. Quase um boato. Quase uma invejosa do nosso pique.

Na meia-idade… bom.

Na meia-idade ela muda de nome: check-up.

Hoje, ela bate diferente.

Bate no peito, às 3 da manhã, como uma ansiedade travestida de taquicardia.

Bate na espinha quando você descobre que alguém conhecido morreu de um negócio que você achava que era frescura. Bate no bolso quando percebe que o plano funerário custa quase o mesmo que um plano de saúde.

E quem disse que um exclui o outro?

A morte se tornou parte da conversa, do cardápio, da agenda.

Está no noticiário, no sensacionalismo ao vivo, nos stories em preto e branco.

É tanto luto digital que eu já tô pensando em colocar “morreu, foi?”  de mensagens automáticas pra responder post sépia tétrico com poema de gratiluz.

E quanto mais a morte se aproxima, mais sinto que a vida me testa.

Ela me provoca com boletos, dietas, burocracias, filas, aplicativos mal programados e gente que diz “te ligo já” e nunca liga.

Me pergunto: é isso que temos pra hoje? Essa maratona de manter-se vivo no automático, enquanto a morte espera, paciente, tomando um chá de camomila e revisando sua lista?

E o pior: ainda tem que escolher jazigo?

Me recuso.

Se depender de mim, me joguem numa caçamba com dignidade e deixem que o destino me recicle.

Porque olha, sinceramente?

Eu sou mais útil misturada com entulho do que enfeitando um mármore frio com nome gravado em dourado.

Não quero homenagens póstumas.

Quero sinceridade em vida.

Quero que me digam “você tá insuportável hoje, mas eu te amo mesmo assim” antes que minha alma peça as contas.

Não quero missa de sétimo dia.

Quero queimar a língua no café com alguém que discorde de mim, mas me ouça.

Quero gargalhar de piadas imbecis no WhatsApp sem ser julgada.

Quero ler livros pela metade e dizer que amei. Quero fingir que entendi o final daquele filme existencialista só pra parecer culta.

Quero existir sem a obrigação de ser relevante.

Porque a morte vai me levar de qualquer jeito.

Mas quero que ela saiba que teve trabalho.

Imagino minha lápide:

“Ela não fez tudo. Fez o que deu.

E o resto, riu.”

Ou talvez:

“Aqui jaz uma mulher que pediu pra não ser incomodada nem depois de morta.”

O que me irrita na morte não é o fim.

É o espetáculo que se faz em cima.

É o uso do falecido como cenário emocional pra likes, stories, textão em rede social.

É o grito que sai do nada só pra mostrar que sentiu mais que os outros ou aliviar alguma culpa.

É o primo que não aparecia há 20 anos e vem perguntar:

“e a herança?”

É o discurso vazio no microfone da capela, tentando fazer parecer que ali havia uma santa, quando, na verdade, havia uma pessoa. Com falhas. E Menopausa. E playlists duvidosas. E desejos que nunca confessou.

Aliás, já aviso: se me fizerem velório, não me deixem de tampa aberta.

Ou eu volto pra morder quem permitiu.

Meu maior medo é morrer e virar coitada.

Ou pior: motivação.

Tipo virar o “exemplo de superação” que alguém usa pra mostrar que a vida continua.

“Ela morreu, mas olha aí: eu comprei esse carro novo e recomendo!”

Não, amor.

Me esquece com respeito.

Quando penso em morrer, penso também em tudo que não quero deixar.

Não quero deixar dívidas, mas vou.

Não quero deixar coisas mal resolvidas, mas já é tarde. Não quero deixar gente que dependa de mim, nem minhas plantas.

Também não quero deixar um histórico de navegação comprometedor.

Alguém, por favor, apague meus cookies..

Na minha visão romântica (e levemente psicótica), a morte deveria ter uma trilha sonora decente.

Algo entre Bowie e Caetano.

Uma fumacinha cênica.

Uma luz boa.

E zero choro.

Só uma saída digna de quem passou pela vida tropeçando, mas dançando de sapatos vermelhos. 

E quando eu for — se é que vão perceber que fui — deixem um bilhete no meu lugar. Escrevam algo que me represente, tipo:

“Ela tentou. Com preguiça, mas tentou.”

E no fim, deixou esse corpo como quem se livra de uma calça jeans apertada depois de um jantar.”

A morte me acompanha, sim.

Mas já entendi que ela não é inimiga.

Ela é só a síndica do tempo.

Ela aparece pra lembrar que o aluguel da vida tá vencendo.

E o que eu faço com esse aviso?

Às vezes ignoro.

Às vezes sento no chão do banheiro e choro. Às vezes escrevo, que é meu jeito de existir além da existência.

Se a morte bater na minha porta, tomara que eu esteja ouvindo música alta.

Tomara que eu esteja de batom vermelho e dente borrado, só pra irritar.

Tomara que me encontre rindo de uma piada idiota ou escrevendo um texto que ninguém vai publicar.

Mas, acima de tudo, tomara que me leve sem selfie, sem drama, sem legenda.

Porque morrer, todo mundo morre.

Mas ser cafona depois de morta, aí já é demais.

 



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